sábado, 8 de dezembro de 2012






                            UM GATO CHAMADO “REI DE KID”

A MINHA MADRINHA gostava de cultivar Adiantum Raddianum (obrigado amigo Google), a popular Avenca, uma plantazinha invocada que só vinga se tiver sombra e água fresca. Também gostava de ler os romance de Emme Dely, (que a minha avó, em bom baianês chamava de “mê” Delí) e uma revista publicada em Portugal chamada Vida Doméstica. Mas, o xodó da minha madrinha era o tal de “Rei de Kid”, um gato angorá cujo nome ela deve ter tirado de algum personagem de romance lido.
Eu, como a maioria dos meninos do meu tempo, gostava de andar livremente pelas cercanias. Eu era morto e vivo no adro da Igreja do Monte.Ali a gente jogava nosso
baba, pegava picula, contava “causos”... Antes, porém, tinha de fazer o dever escolar e tocar os exercícios de escala de piano quando a minha tia, que era a professora, de dentro do seu quarto, chiava:
               “Toma tenencia na vida, menino! Deixe de tocar de ouvido e estude com afinco as duas escalas”
Embora não direcionasse bem a minha leitura, pois lia muito Gibi, gostava também de uma revista mensal chamada Seleção de Reader’s Digest.
O “Rei de Kid” era o tipo de gato folgado, cheio de efes e erres, comia na hora certa, dormia a sono solto durante pleno expediente, mas, quando acontecia de algum desavisado ratinho aparecesse ele vupt!  Ai começava a interminável distração do bichano. O ratinho, coitado, não tinha como escapar. O seu pedido de socorro chegava até mim. Morria de raiva do tal do “Rei de Kid”, aquele gato sádico que caçava de barriga cheia. Fazia isso só de sacanagem,segundo o meu enfoque,na época.
Certa feita estava lendo a Seleções,quando ele,o infame gato angorá, se acercou da cadeira de balanço onde eu estava e começou a se enroscar em minhas pernas. Despertou em mim, pela primeira vez, certo carinho por ele. Comecei a alisá-lo enquanto ele se enroscava de uma perna para outra de rabo em pé.
Coincidentemente o artigo que eu estava lendo era sobre os felinos de um modo geral. Quanto aos gatos, (o autor também não gostava de gatos uma fez que criava pássaros), ele disse que era “um animal que não tinha qualquer apego ao seu dono, era interesseiro ao extremo”, e, o que foi um choque para mim, conforme disse o autor: “até mesmo quando ele aparenta qualquer carinho como se enroscar nas pernas das pessoas, ele está se masturbando!”
Dei-lhe um pontapé de raiva dizendo:
- Vai bater sua punhêta nos infernos!
Se a minha madrinha não estivesse na rua,com certeza eu iria levar uns cocorotes !



DECODIFICANDO O “BAIANÊS”

BABAfutebol, pelada.
TOMAR TENENCIA – ficar alerta,tomar jeito
CHEIO DE EFES E ERRES – metido a besta,tirado a importante.
COCOROTES – tabefes, tapas.

Um comentário: