segunda-feira, 21 de janeiro de 2013









 Aidil Araujo Lima          
A ESTAÇÃO E O RIO

A VIDA FOI generosa com ela. Dotada de beleza campestre.  Casou-se com um homem bom – mestre de obras – construíra uma ampla casa onde ela pode abrigar os quinze filhos que tiveram. Cumpridora de suas obrigações de esposa. Trabalhava na fabrica de charutos da cidade da Cachoeira. A sua casa ficava no alto da ladeira da cadeia – depois da Santa Cruz. No fim do dia, voltava para casa.  Ainda tinha o cheiro de fumo nas mãos. O fumo que ia esticando dia a dia. Descia logo em seguida com a lata e um pedaço de pano que fazia de rodilha para que o cérebro não ficasse amassado. Banhava os filhos, depois a si mesma, e deitava-se para cumprir a sua obrigação de mulher casada. – Ele é um homem bom. – Não deixa faltar nada em casa, nunca alterou a voz, não era carne nem peixe.  Dia a dia cumpria esta sina com orgulhosa aceitação. Alisava o fumo em silencio - enrolava e passava na ponta da língua. O almoço levava de casa – marmita preparada na madrugada. Nunca a vi sorrir. A vida era sem sobressaltos – nem ria nem chorava – vida silenciosa. O horário do almoço pequeno. Ia lá atrás da estação de trem tomar banho de rio -  tirava a roupa -  banhava-se, depois se vestia com olhar atento, pra ver se não aparecia algum intruso. Deitava um pouco na grama e depois voltava para alisar o fumo. Era o único momento que sentia uma alegria contida.  Acostumara-se com os banhos do rio, era um gozo diário. Passava o tempo todo antevendo este momento de prazer. Um caboclo, chapéu de couro estava diante dela – ainda bem que já havia se recomposto. – Senhora! Sua bolsa. – ela voltou apressada. – Nem agradeceu e se foi. – No dia seguinte ele estava lá quando ela ainda estava nua flutuando no rio. Ficou paralisada de medo. – Tem medo não moça. – Sou homem de bem. Pegou a roupa dela e entregou-lhe, ela vestiu-se apressada, ele roçou os seus lábios com a ponta dos dedos e quando ela ia correr ele a segurou e beijou. Depois a deixou ir, que correu com o coração saindo pela boca. Dia seguinte -  ela estava lá – a tentação foi mais forte que a decência. Ele tirou sua roupa e foi beijando seu corpo arrepiado, desejando que ele a penetrasse. Ah! Como foi bom ser penetrada sem ser por obrigação. De segunda a sexta, ia sentir prazer atrás da estação. No final do dia lá estava com a lata d’água na cabeça. – A vida deve ser assim. Tem coisas que é obrigação e outras é prazer. – Não tinha culpa. Continuou cumprindo com as obrigações de mulher casada. O tempo passou. O marido morreu. Ela continua até hoje indo banhar-se no rio - atrás da Estação de Trem.    
   

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