sábado, 19 de janeiro de 2013

         ZÉ DE BELCHÓ

NO SEU MAIS RECENTE LIVRO intitulado "Bitedô - Onde moram os Nagôs",Luiz Cláudio Nascimento,o cachotexano Cacau, (o neologismo é nosso,podem usar à vontade),nos fala da "africana Maria da Motta,solteira,mãe de vários filhos,e,dentre eles,José Maria de Belchior,nascido em 1840,conhecido como Zé de Belchó".
Contemporâneo do personagem em tela,o saudoso memorialista cachoeirano Francisco José de Mello um dos mais profícuos colaboradores do jornal "A Ordem" do qual éramos editor, em seu livro "Coquetel Literário",faz a gostosa narrativa que vamos transcrever abaixo. Há de se observar que,Chiquinho Mello não era o pesquisador gabaritado no assunto como o é o nosso Cacau,e,por isso mesmo,provavelmente deve ter feito confusão entre o personagem e o seu pai,Belchior Rodrigues Moura,o que não invalida dar uma boa leitura,viajar no tempo para saber como era pujante a economia da nossa terra.
 "No final do Império,instalou-se em Cachoeira vindo de Luanda ou Cabinda,nunca se soube ao certo,um homem possuidor de extraordinários poderes mentais.
Chamava-se José Maria de Belchior.
O povo mais inculto passou a chamá-lo Zé de Belchó,uma corruptela do seu nome,pelo qual tornou-se mais conhecido.
Aos seus poderes de vidência aliava-se uma força magnética fora de comum,que o tornava um hipnotizador nato. Já havia realizado várias curas pela hipnose.
Figuras importantes do mundo político de então deslocavam-se das sedes se suas Províncias,inclusive da Corte,em busca da orientação sempre segura,do extraordinário vidente Zé de Belchó Sua palavra era uma sentença. 
Devido à sua postura,supunha-se pertencer ele,a alguma Corte Tribal do seu pais de origem.Não era um homem vulgar 
Zé de Belchó vestia-se com o apuro de um londrino ou parisiense daquela época,e sua elegância despertava atenção. De porte ereto,usava comumente camisas de colarinho duro,fraque e calças de alpaca listrada,cartola,sapatos pretos,de verniz,com polainas,além de luvas e bengala.Uma pequena barbicha pendia-lhe do queixo.
A figura de Zé de  Belchó impunha respeito mais aproximado do temor.
Diariamente fazia seus passeio pelas ruas de Cachoeira,naquele tempo,o maior centro comercial do estado,onde grandes armazéns,pertencentes a ricos comerciantes portuguêses,abasteciam,semanalmente,dezenas de tropas de animais que saiam carregadas em demanda ao alto sertão,ao sul do estado da Bahia,e norte de Minas Gerais. O movimento era intenso.
Cachoeira era uma pequena metrópole,bem servida pela navegação fluvial que adentrava o rio Paraguaçu.,descarregando em seu porto milhares de toneladas de mercadorias,as mais variadas,oriundas da Europa,desde os gêneros alimentícios vindos de Portugal,às louças e tecidos ingleses,aos bordados da Ilha da Madeira,ao vestuário e perfumes vindos de Paris.
O produto de duas dezenas de enrola de fumo de corda exportava-se para outros estados.
 Atraído pelas notícias do desenvolvimento de Cachoeira,e das possibilidades de auferir melhores rendimentos,o marceneiro Manoel Evangelista arrumou malas e deixou a vila Crato,no Ceará,para intalar-se na terra cachoeirana.
Manoel Evangelista era claro,de cabelos avermelhados. Racista por convicção,procurava,sempre,discriminar seus irmãos de cor,de maneira ostensiva e inconveniente.Chegava às raias da insolência e provocação.
O marceneiro ainda não havia conseguido arranjar trabalho,razão pela qual costumava sentar-se à porta da casa onde estava morando,para apreciar o movimento da rua.
 Forasteiro,ainda não conhecia  as principais figuras da cidade.
Uma tarde,Manoel Evangelista sentou-se à porta,juntamente com a sua esposa,quando viu passar Zé de Belchó bem perto de sua casa.
O marceneiro avistando nosso ilustre personagem puxou o braço da esposa e à queima-roupa disparou,em voz alta,seu veneno discriminatório:
- Joana,olha um negro de fraque e cartola.Que negro ridículo.Esse negro merece cadeia!
Logo a seguir explodiu em estripitosa gargalhada.Seguiram-se outras,e outras.
Zé de Belchó,ao ouvir o comentário ofensivo e as gargalhadas,voltou incontinenti.
Seus olhos negros,brilhantes,cravaram-se no marceneiro,que ao deparar com aquele olhar fixo,penetrante e dominador,sentiu um calafrio esquisito percorrer-lhe a espinha.
Sua última gargalhada foi interrompida bruscamente,diante da força que emanava dos olhos de Zé de Belchó,que logo a seguir,com uma voz de entonação modulada,disse ao marceneiro:
- Ria,meu filho. Ria à vontade. Você gosta muito de rir,não é? Pois,ria sem parar.
E o marceneiro Manoel Evangelista começou a gargalhar estrepitosamente,enquanto Zé de Belchó afastava-se calmamente e prosseguia sua caminhada.
Veio a noite...e o marceneiro continuava a gargalhar...sem parar!
Joana,sua esposa,com os nervos abalados,começou a sacudir o marido implorando que ele parasse. Mas, tudo em vão. 
Desesperada,Joana implorou aos vizinhos que fossem procurar aquele homem,para pedir-lhe que perdoasse o Manoel.
Quando o dia amanheceu,os vizinhos do marceneiro,condoidos com o esado do coitado,embora lhe condenasse o racismo exarcebado,foram procurar Zé de Belchó.
O misterioso personagem ao receber o grupo e ouví-lo,disse:
- Deixo o rapaz rir um pouco...Ele gosta muito de rir.Depois eu passo lá.
O rosto do marceneiro havia atingidomuma coloração rubra impressionante.
Joana chorou copiosamente,até a chegada de Zé de Belchó.
A rua estva cheia de curiosos,pois a notícia já havia se espalhado por toda a cidade.
Imponente,porte reto,alí estava o misterioso príncipe africano,envergando seu fraque,sua cartola,e segurando a sua bengala.   
Fixando o olhar penetrante e magnetizador no marceneiro \cearense,Zé de Belchó concentrou-se durante alguns segundos e disse:
- Não precisa rir...mais,meu filho. A graça... já terminou!
Subitamente,cessaram as gargalhadas do marceneiro,que olhava apalermado para Zé de Belchó,e ao mesmo tempo começava a gemer,sentindo dores em quase todos os órgãos do corpo.
Antes de sair da casa do marceneiro,Zé de Belchó fez uma recomendação a Joana,ainda bastnte nervosa:
- Fça seu marido tomar meio copo de mastruz com leite.Seu organismo ficou muito abalado com tantas gargalhadas. Isto às vezes acontece com aqueles que gostam de rir...em hora imprópria.
Uma semana depois...quase refeito,o marceneiro voltou para o Ceará,maldizendo a hora em que resolveu sair de sua terra."
Fazendo um comparativo entre aquelas priscas eras e os dias atuais,lemos que,entre as finalistas do tradicional concurso carnavalesco promovido pela Fundição Progresso daqui do Rio,está a marchinha "Macumbeiro Moderno" da dupla gaiata Riba e Bocão cujo estrebilho é o seguinte:
"Traz a pessoa amada 
em três twitadas,
Baixa o santo por download,
Usa a farofa pronta,
pipoca de micro-ondas
e frango de padaria"  
 
 

 

Um comentário:

  1. Erick, muito legal o seu blog. E a respeito da história assinalada pelo nossa memorialista Francisco Melo, é recorrente a narrativa dele em Cachoeira. Escutei essa história (não é estória) de meu pai Coquito e de Bobosa, da Raça de Ventura. Vou mais além: conta a história que a menina residia na Rua da Matriz, onde residiu didi da Bahiana. a história tem fundamentação, porque Zé de Brechó realmente usava fraque, visto que foi suplente de conselheiro mucicipal em 1889, e suplente de conselheiro, na época, participava das matutinas sessões da câmara. Issoé importante.

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