sábado, 23 de fevereiro de 2013

Erivaldo Brito escreve:

"CAUSOS' VERÍDICOS

                                                                   
             MALUCO BELEZA

A minha prima Celeste Aída,companheira do "Feice" e deste blog,lembrou-me de alguns personagens de rua,alguns doidos varridos que perambulavam pelas ruas da cidade. Os dois mais antigos,(naturalmente não os conheci),apenas ouvi os relatos.
Contavam lá no sobrado,que o sujeito andava contrito numa procissão,com uma vela acesa na mão. Estava recolhendo o préstito.As piedosas irmãs carolas  puxavam o conhecido hino:
 - Bendi-i.to...Louvado seja!  Bendi-i-to...Louvado seja!
Ô ô Santí-i-simo Sa-cramento !
Os an-an-jos...Todos os anjos !
Ai,alguém que já havia visto o nosso personagem e estando perto disse-lhe baixinho:
- Garapa Pura !
E ele sem perder o compasso e dentro da melodia:
- Garapa Pura é o cu da mãe !
Até o padre Cavalcanti não segurou o sorriso.
Filho de Amargosa,na Bahia,criado na Cachoeira,o autor da letra do Hino da Cachoeira,o poeta Sabino de Campos,no seu livro de memórias intitulado A Voz dos Tempos,nos fala de uma tal de Xodó. Vou deixar a palavra com o poeta:
"Xodó perambulava pelas ruas da cidade quando da ocasião de uma grande novidade: o jogo do bicho.Ela saia palpitando em cada canto em que ia:
- Hoje vai dar o avestruz !
Adiante mudava:
- Hoje,é águia na certa !
E,mais além:
- Joguem o laço no burro!
Assim,todos os vinte e cinco bichos da tabela,até a vaca. Mentalmente,anotava tudo.Dava o bicho e ela corria ao local onde dera o palpite pedindo a recompensa."
Bem,gente; com certeza  vocês vão-se lembrar de muitos tipos populares.Consegui elencar alguns.Seguem abaixo em ordem alfabética e não cronológica. Não tenha preguiça.Continue lendo.Vai valer a pena.
CHICO BICHO - Era um sujeito distrambelado e bodoso. Talvez,por isso mesmo,parecia perturbado por mosquitos invisíveis. Com o objetivo de afastar os insetos,ele dava tapas na própria orelha:  Vupt! Vupt! Vupt!
E a garotada dava em cima quando ele passava:
- Chico Bicho! Chico Bicho!
E ele continuava andando impassivo. Agora,se coincidisse ir passando uma mulher,ele começava a desfilar o seu vasto repertório de palavrões:
- Vá-se poder seu filho "duma" égua ! Filho da fruta !
"GENERAL" CALIXTO  - Era como ele gostava de ser chamado. De compleição avantajada,praticamente não andava,marchava.Todos os meses  lá ia ele até os bancos a fim de receber (segundo sue imaginação),os soldos enviados pelo Exército Nacional.
No Banco da Bahia,Osmundo Araújo forjava uma Ordem de Pagamento que o caixa,Astério pagava e depois era ressarcido.No Banco do Brasil em São Félix,também acontecia o mesmo. O gerente era Raimundo Coelho de Souza.
Certo dia,após o expediente,Raimundo estava em sua sala,sozinho.De repente quem é que aparece? Isso,isso,isso!  O General Calixto empunhando uma espingarda feita por ele mesmo. E funcionava. Disseram,naqueles dias,que ele havia matado um cachorro e vendido na feira como se fosse um carneiro!
Raimundo teve o pressentimento que poderia ser atacado.Deu-lhe,então uma voz de comando:
- General...alto !
Calixto obedeceu,perfilando-se. Raimundo prosseguiu:
- Ombro arma ! Meia vooltaaaa...Volver ! Tropa em marcha!
 Calisto saiu marchando,Raimundo correu e fechou a porta.
JOÃO MALUCO - A garotada o temia porque ele atirava pedras,corria atrás. Ele era possuidor de uma doença que o fazia balançar os braços e ficar babando igual a boi quando está ruminando.
Certo dia ao entrar na Farmácia Régis, (todo mundo na cidade ficou sabendo),ele,ao deparar-se com uma senhora grávida,enfiou a mão por baixo da saia e gritou:
- Diga agora que você não  deu sua bimbada "sinhá" puta !
MAURÍLIO -  Diziam que ele era da vizinha São Félix. Eu sempre o via na cidade da Cachoeira com a garotada cantando atrás:
- Bilim,blim,blim ! Bilim,blim,blão !  Maurílio  morreu,cadê o caixão ?
Ele ia passando no passeio do sobrado onde morava o professor Salvador (atual agência da Caixa Econômica).Parou.Olhou para o sobrado 13 contíguo ao da filarmônica Lira Ceciliana e disse:
- "Oia"cambada de "fi" da puta! Se não fosse a "muié" do "dotô" Luiz Soares "tá" ali na "jannela", eu "inha" "mandá" vocês tudo tomar no "sedenho" !
MARÍSIA - Pense numa coisa fedorenta. É pouco! Ele morava na parte baixo do coreto do Jardim Grande.Andava sempre com um porrete e impunha respeito.
PETITINGA - Chamava-se Esmeralda. Andava de roupa limpa e frequentava as missas. Adorava o padre Fernando.
Quando passava se alguem e bulisse com ela perguntando:
- Petitinga,cadê Xangó ?
Ela respondia malcriada:
- Tá no cu da tua avó !
PISTOLEIRO BOSSA NOVA - Andava realmente armado com uma pistola de dois canos apelidada de "cu de boi" ou "dois tiros e uma carreira". Era guarda noturno e segurança de Zé Vieira do Supermercado. Quando passava por qualquer garoto dizia ameaçadoramente:
-  "Tô" "cum" dedo coçando..."tô" doido pra sangrar um! "Tô" "cum" "sordade"do Sanatório.
No auge do selecionado cachoeirano de futebol nos jogos do intermunicipal.ia passando pela Ponte Nova vários jogadores. O meio campista,Badaró,disfarçando a voz.gritou:
- Pistoleiro ! Pistoleiro Bossa Nova !
Ele sacou a pistola e deu um tiro. Depois,como tinha ainda uma bala,saiu correndo atrás da turma pelo Jardim Grande onde encontrou sentado o pobre do Florisvaldo,irmão de Lourival Fracasso. Flô,com problemas de articulação,não fazia parte do grupo. Pistoleiro chegou e meteu a pistola na cara dele:
- "Ripita",corno o que você disse..."ripita" !
E flô,com a voz suplicante e trêmula:
- Que absurdo ! Vocês não respeitam os mais velhos !
E temos muito mais ainda.Vou encerrar contando um "causo".Eu ia passando no passeio do Café Paulista,na rua Lauro de Freitas, quando ouvi uma voz familiar me chamando:
- Seu jornalista ! Seu jornalista ! 
Era Boanerges,parado na porta do armazém do seu cunhado Jocílio Casaes. Quando virei ele mandou uma sonora banana;
- Tome !
Boanerges foi meu colega na escola Ana Nery. Seu apelido era Daborê. Eu contei um "causo"em um dos meus livros em que ele foi protagonista.  Ele naturalmente não gostou. Vou repetí-lo:
Certa manhã,estava o maior alvoroço na porta do colégio.Cortaram o cabelo de Boanerges e passaram máquina zero. De tão lisa a cabeça parecia azulada.A molecada começou a dar-lhe cocorotes e a chamá-lo de cabeça de cunhão ! Ele desabou a chorar. Chegou em seu socorro,então,a diretora do colégio,a professora Zezé Magalhães:
- Não chore não meu filho. Se alguém se ousar em tocar a mão em você eu suspendo e mando chamar os pais.
E ele não parava de chorar. A piedosa mestra o inquiriu,novamente:
- O que foi,agora? Pare de chorar !
E ele entre soluços
- Eles me bo-bo-botaram um apelido !
E a dona Zezé,curiosa:
- Que apelido foi?
E Boanerges com receio:
- Me,me,me chamaram de cabeça de...
E a professora tentando adivinhar:
- Cabeça de arromba navio !
E ele balançando a cabeça:
- Não senhora !
E a professora tentando  desvendar o mistério:
_Cabeça de quê?
Boanerges esclareceu:
- Daquele saco que fica debaixo da pica!
  
 DECODIFICANDO O "BAIANÊS"

DISTRAMBELADO -desajeitado,desarrumado.
BODOSO - mal cheiroso,sujo
BIMBADA -trepada,ato sexual.
COCOROTES - cascudo,tapas na cebeça.
CUNHÃO - testículo. 

2 comentários:

  1. Prezado Erivaldo:

    Com uma informação de Igor Moreira (sobrinho) fiuei sabendo da existência do seu blog cujo assunto “causos verídicos gosto bastante. Acompanhava pelos blogs de Cacau e do Prof Pedro Borges e há muito tempo sentia falta. Vivi na heróica de 1946 até 1983.Trabalhei no ex-DCT 30 anos fui colega do seu pai Jessé, seu tio Beline e seu primo Moacir. Depois de aposentado trabalhei na barragem durante 4 anos (telex/rádio). Parabéns Erivaldo pelo seu blog e, também, por suas vitórias alcançadas. Um abração de MIRANDO

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  2. Você como bom baiano,deve gostar de buchada de bode... Estamos te aguardando para...o bode.

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