terça-feira, 5 de fevereiro de 2013



Aidil  Araújo Lima                                                                 
             RIO DOCE


 TOMA TENTO NA VIDA MENINA, quem pinta a boca de vermelho é mulher da vida. Seu olhar sofrido escorregava pelo corpo da neta, vasculhando as coisas descuidadas, sentindo um arrepio no corpo enrugado. Glória não dava assunto. Passava o batom vermelho e descia a Ladeira do Orobó, paralisando o olhar dos homens, deixando as mulheres cheias de inveja que diziam – esta aí é uma perdida, não tem mais jeito. Ela continuava sua caminhada em direção ao cais do porto de Nossa Senhora do Rosário. Gostava de namorar os marinheiros que lá chegavam, eles davam presentes, faziam chamego e, Glória esquecia a vida, embalada pelo Rio Paraguaçu. 
Até se enrabichou por um, mas ele partiu sem levá-la como havia prometido. Depois desse dia, Glória nunca mais desceu a ladeira, os homens sentiram falta de seu corpo e, as mulheres respiraram aliviadas. Chorou dias, não eram dias inteiros, pois sempre tinha a lida da casa, fazer comida cuidar dos dez irmãos menores, enquanto a mãe estava na fonte lavando roupa de ganho. Há muito havia parado o estudo, decidiu que não foi feita pra isso. Queria mesmo era encontrar um marinheiro cheio de carinho que a levasse pra longe dessa sina. Era quando cessava o barulho da noite que chorava, deixando escorrer do peito as dores, seu corpo tremia lembrando-se do marinheiro que a deixou tão só nesta vida maldita. Estava cansada de ouvir sua mãe chorando quase todas as noites depois de ser espancada pelo marido, ele nem respeitava sua vó, que ficava quieta, silenciando sua amargura, aprendeu a ausentar a alma dos desgostos.  Quando sua mãe atrasava na fonte, um minuto que fosse; ele ia pelo caminho encontrar com ela e lá mesmo batia, até cansar a mão; o povo olhava, mas não se metia – em briga de marido e mulher ninguém mete a colher – diziam eles. Glória emagreceu de tristeza, a mãe preocupou-se, a vó ficava olhando calada. A mãe chamou Dona Preta uma benzedeira, que pegou uns galhos de folha de guiné e passou pelo corpo de Glória enquanto fazia uma oração – com dois te botaram, com três eu te tiro com os poderes de Deus e da Virgem Maria....- e foi escondendo a voz sem que ninguém compreendesse mais nada. A vida voltou ao corpo de Glória, o batom vermelho voltou para os seus lábios, cheia de enfeites dourados comprados na feira, ela caminhava pela beira do rio. Jonas, certo marinheiro de olhos castanhos, pele queimada de sol, cabelos bem pretos e lisos igual ao de índio, tinha mãos tão doces que quando a tocava ela se dissolvia enchendo o rio.  Se enrabichou de novo. 
Chegado o dia d’ele partir, acertaram que ela iria junto. Ela saiu sorrateiramente de casa, apenas a vó viu e, permaneceu calada. O navio já ia longe, perto da Pedra da Baleia, quando Jonas entregou Glória em outras mãos. Desesperada ela pulou do navio
Foi amparada pela Rainha da Água doce, dona dos rios e das cachoeiras, Oxum. Vindo de longe a voz da vó dizia  – toma tento na vida menina. 


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