segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013


   AIDIL LIMA ESCREVEU                                     
       Trança de fitas
Toda essa gente indiferente a sua angústia. Passavam aqui... lá... ignorando o abandono na panela, da expectativa. Passou tanto tempo aquecendo o fogo com a lenha e agora cometeria uma loucura. - Na próxima vez aceitarei. É doloroso deixar os filhos pelo caminho. Um homem que a assumiu como mulher dando-lhe comida e roupa em troca de sexo. Socorreria a si – quem saberá a razão de sua conduta? Menina introspectiva, talvez triste para a idade de muita confusão. O imaginário era a sobrevivência, consumia os livros como se pudesse entranhar a sua vida neles. Os cabelos longos e crespos estavam invariavelmente presos por tranças. Talvez se deva a isto sua tristeza infinita. Aparência trancada nos cabelos escravizados num emaranhado para esconder sua natureza,  aplicava na vida os ensinamentos da avó. Fora menina obediente, pedia a benção a todas as senhoras que encontrava na rua, a sua benção dona fulana, a sua benção dona sicrana. Era muito querida, Dona Bernardina fazia cocada puxa, com gosto de gengibre e sempre lhe guardava um pedaço, muito embora muitas mulheres discriminassem sua mãe, mulher de filhos de diversos pais. Muita labuta na alma, aceitou o convite de um homem que lhe ofereceu casa, comida, respeito da sociedade, com a condição de não levar as filhas. As meninas ficaram com a avó. Elas não entendiam a violência que é deitar-se com um homem em troca de um nome. Todas as noites quando abria as pernas como pagamento por ser agora uma mulher respeitada sentia na alma a angústia pelo abandono dos que criou em seu ventre.  


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