sexta-feira, 8 de março de 2013


 AIDIL ARAUJO LIMA
Pedaços de Nostalgia
A VISTA nem acreditou nas coisas enxergadas, suas tralhas, roupas, quinquilharias, panelas surradas, móveis cansados, até a caneca da própria lembrança, velha herança da mãe, encardida e agora partida. Chorou. Os cacos da caneca na mão, sua única recordação. Tudo largado na rua, nos fiapos do colchão os meninos dormiam, rejeitados na estrada, indiferente ao povo que assistia o sono de agonia, fazendo um circulo escondendo a lua. A comadre chegou toda despachada, trouxe uns homens fortes, abriu caminho na curiosidade e deu a mão à comadre. Levou tudo, pra sua casa, havia de arranjar um cantinho pra poder ajeitar. Afinal não tinha tanta coisa, em qualquer canto tudo se encaixava. Sua boca que nunca tinha se abrido pra dizer palavra xingada, nesse dia esqueceu-se e chamou o maldito de um palavrão. Deixou-a com três moleques, sem nem pagar pensão e agora fora enxotada da casa por falta de pagamento. Depois que a noite ficou em silêncio, pegou os cacos da caneca, era seu único acalento. As lágrimas que segurou na confusão largaram-se nos cacos, trazendo alento e até uma voz ouviu respondendo a seu tormento. A voz foi se aproximando, era Iemanjá, o orixá que tem sempre uma palavra de carinho, de consolo, de alivio, entoou o canto da sereia e ela dormiu. 
Acordou refeita, saiu com a comadre foi ao terreiro e fez obi d’água, uma pequena obrigação para confortar seu anjo da guarda. Vestiu-se de branco, ela e a comadre, seguindo as duas a Senhor dos Passos, pedir a Oxalá misericórdia e ele lhe mostrou um novo caminho. As duas mulheres de santo recebem o Axé e se abraçaram numa cópula com as forças da natureza.

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