sábado, 23 de março de 2013

Aidil Araújo Lima       





    RESTO DO CAMINHO

O SILÊNCIO daquela estrada de barro era assustador. Existiam muitos boatos por esses lados da rua. Conta-se muita coisa, cada qual conforme a vida. Era caminho sem saída, não tinha opção. E o dono do restaurante onde trabalhava nem lhe transportava, nos dias de horário demorado. Ela metia-se na noite adentro sozinha com os pensamentos.  A sua casa ficava depois da estrada, no resto do caminho. Nos escassos dias folgados em trabalho, a cozinheira a levou num terreiro de candomblé, curiosidade nunca vista. Ouvia falar dessas coisas, muito fato o povo dizia, das comidas nas encruzilhadas, não tinha nenhuma verdade certa.  Chegou numa casa grande, rodeada de floresta, uma magia no vento, a alma quetou o facho. 
 
 
Tocaram um sino, chamavam agogô. Teve início o Alojá, a dança do ritual de Xangô. Ele chegou majestoso, alto, bonito, um guerreiro com duas espadas, olhar de fogo, irresistível, sedutor, deu um abraço de cada lado e colocou uma pedra em sua mão. Ela cedeu em seus braços fortes, que a carregou para o quarto, deitou-a na esteira, deixando-a aos cuidados da mãe pequena. Acordou deslembrada de tudo. O pedaço de rocha na mão sabia. Tinha motivo de proteção, e luz nos caminhos. Voltou a festa animada, conheceu outros orixás, ficou toda encantada. Voltaram para casa ainda cedo, o sol desmanchava a lua. Foi lembrando-se dos seus, do pai, da mãe, dos irmãos. A dor quando foi enxotada da família ficou diminuída. Antes a dor era como a de quem fica aleijado e o membro tirado do corpo continua doendo, pra lembrar sua falta. Pensou em ser professora, o pai ficaria contente. Quem sabe voltasse a querença de ter de novo a filha e até tirasse da sua vida aquela palavra maldita, autorizando seu coração a amar de novo, iria ter com quem dividir as noites frias e aliviar as horas vazias. Afasta-se da dor devagar, sem incômodo. Se demorando nos planos, sentindo o fogo acendendo no corpo novamente.

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