quinta-feira, 28 de março de 2013

"Causos Verídicos"

DO DRAMA AO TELE-CATCH

Desde a quarta-feira da Semana Santa,ninguém maia comia carne.Alguns chegavam ao exagero de fazer jejum total. Na sexta-feira,então,as emissoras de rádio e os serviços de alto-falantes da cidade executavam músicas clássicas.Era um ambiente de velório,de tristeza geral.Os meninos iguais a mim ficavam ansiosos para que se rompesse a Aleluia exatamente às 10.horas do sábado,quando a gente saia fazendo uma algazarra danada pelas ruas da cidade.
A procissão do Senhor Morto só perdia em número de fiéis para a festa da Padroeira.A Irmandade  da Ordem Terceira,com a sobriedade imposta pela indumentaria puxava o cortejo com a malemolência das melodias executadas pelas duas filarmônicas que se revezavam. De quando em vez o plac! plac! plac! da matraca levada pelo velho comerciante Domiciano Bispo Dias quebrava o silêncio.
A piedosa procissão percorria as ruas centrais da cidade com algumas paradas em locais que simbolizavam a Via Crucis,ocasião em que, uma moça representando a Verônica (uma personagem que enxugou o rosto de Cristo e que a ´patuleia chamava de Voizona),cantava uma música em latim ensaiada exaustivamente pela professora Ursulina Azevedo Luz.
Quando a procissão recolhia,enorme fila se formava a fim de beijar os pés do Senhor Morto.Namorados presenteavam suas namoradas com anéis,conforme pode ser lida na memória do poeta Sabino de Campos.
Invariavelmente o Cine Teatro Cachoeirano exibia o mesmo filme em preto e branco de todos os anos: "A Paixão de Cristo". O cinema ficava lotado,sendo necessária a entrada de cadeiras extras.
Quando a película iniciava,o público mal piscava os olhos.Silêncio absoluto.Lágrimas .rolavam até dos marmanjos mais durões, 
O ex-prefeito Julião Gomes dos Santos contava o "causo" que segue:
Certa feita estando armado na praça Maciel um certo circo,aproveitando a grande afluência de gente vinda do Capoeiruçu,Belém,Formiga,Pinguela,Terra Vermelha,São Francisco e do Iguape,resolveu encenar o drama intitulado de "Vida,Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo". Naquela noite,também o circo apanhou uma lotação inusitada em toda a sua existência circense. 
Dois velhos amigos da zona rural ao entrarem no circo comentavam:
- Pade,levei a maior chapuletada logo na entrada !
E o outro:
- "Ocê" não viu  o cotoco com a corda "marrada"?
- "Purisso" é que eu só saio  de caju em caju, "sinão" "viceia" feito a disgrama
- Crendeuspadi ! Até o fuleiro tá lotado!
É chegado,finalmente,o grande momento.O encarregado de anunciar as atrações encheu o peito de vento e anunciou:
- Respeitável público! Temos o orgulho de apresentar a peça em seis atos que encantou todas as cidades brasileiras em que a apresentamos.Pedimos ao respeitável público o mais absoluto silêncio porque tudo foi extraído das Sagradas Escrituras.
Começava o espetáculo. Ih! ia esquecendo um fato relevante: Bacelar (que fazia o papel do "Cristo") e Ramiro (que fazia o papel de um "Centurião Romano"), não se davam,eram inimigos fidagais. Primeiro, porque Ramiro era divorciado da atriz que fazia o papel de "Madalena" e que se casara com Bacelar.Depois,claro,porque o papel de "Cristo" era dele,Ramiro.
Então,meus caros,a peça ia indo muito bem até que,na passagem para o Gólgota,Ramiro mandou brasa: pô! pô!  pô! pô ! E foi batendo cada vez mais forte até que,na quinta porrada,o "Cristo" atirando a cruz na direção do "Centurião",para surpresa do público,gritando
- Você é despeitado...Pensa que eu não estou percebendo que você está se aproveitando para me sentar a porrada ?
- Não tô nada! A peça exige realismo...
- Despeita! Tomei o seu personagem e a sua ex-mulher...
- E está usando a peruca de touro!
Enquanto a patuleia fica atônita,sem entender nada,a pancadaria se generalizou e,segundo Julião,só não houve uma tragédia graças às interferências de  "Pilatos","Caifás" e de "Judas".
Pronto; vendi o peixe conforme Julião contava.

 DECODIFICANDO O "BAIANÊS"

PADE - Corruptela do compadre.
CHAPULETADA - Pancada forte.
COTOCO - Pedaço
PURISSO - Por isso
DE CAJU EM CAJU - Esporadicamente,de vez em quando.
VICEIA - Ficar viciado,habituado.
DISGRAMA - Grande quantidade.
CRENDEUSPADE - Corruptela de "Creio em Deus Pai!" 
PULEIRO - Arquibancada de madeira que circunda toda a arena. 


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