sábado, 16 de março de 2013

GENTE PAGODEIRA

      


                   Milton Volátil
DURANTE determinado período da minha vida morei num pensionato,no Barbalho,em Salvador. Na ocasião,era funcionário da Pedreiras Valéria,uma empresa ligada ao grupo Odebrecht. 
A dona do pensionato era uma senhora,respeitada viúva de luto fechado que morava acompanhada de mais duas filhas moças. O seu filho mais velho,casado,era funcionário dos Correios,e,de quando em vez por lá aparecia como que a demonstrar a existência de  um homem também à frente.
O meu companheiro de quarto era o Milton. Quando ele se preparava para sair,o ambiente do quarto fica irrespirável devido à quantidade de desodorante spray que ele colocava no suvaco. Certa vez tive de advertí-lo:
-  Vê se dá uma manerada,cara: o quarto vira uma verdadeira câmara de gás 
E ele tentando justificar:
- É,Brito,que este desodorante é muito volátil.
Pronto: a coisa se espalhou de tal forma que ele passou a ser conhecido por todos como Milton Volátil !  
O pensionato era misto; na parte térrea moravam as moças,inclusive as filhas da dona, já mencionadas.Os banheiros dos homens ficavam na parte de cima do sobrado.Eram separados dos quartos por uma espécie de passarela com um pequeno balaustre,de onde poderia se avistar uma área  comum a várias casas de outra rua.
O pessoal descobriu que,em uma das casas,quando o marido não estava,sua cabeça estava sendo enfeitada com uma peruca de touro.O seu "sócio" presumia-se ser um médico pois estava sempre vestido de branco. Até os sapatos.
Milton Volátil não esperava,nem escurecer para se prostrar agachado,bisbilhotando. Por diversas vezes eu o adverti:
- Volátil,Volátil;isso vai dar merda uma hora dessa !
E deu. Certo dia,o médico comedor ao chegar à porta do fundo da casa conseguiu,sem dificuldade,avistar o Volátil no flagra e partiu pra lição de moral:
-   Ei,rapaz...que coisa mais feia! Como é que você se presta ao ridículo de ficar escondido olhando a privacidade dos outros? Você sabe que pode ser processado?
Veio de imediato a pergunta que não queria se calar:
- E aí,Volátil ?! 
E ele não se fez de rogado:
- Eu me levantei,Brito,e disse pra ele: tá querendo botar marra comigo? Fica com essa vagabunda corneteira botando galha num pobre coitado e ainda fica com moral de jegue?  Vai-te pra porra !
Eu dormia na parte de cima do beliche,preferencialmente de Valete com Volátil. Preferia sentir o chulé do que respirar o bafo de cachaça.
Certa noite,cansado,estava quase pegando no sono quando o filho da dona do pensionato entrou no quarto com a voz alterada perguntando:
-  Boa noite! Cadê o Milton?
E ele foi chegando na hora respondeu com alegria na voz:
Diga ,bicho !
- Detesto essas coisas de apelidos,de bossa nova. Você sabe que o meu nome é Zé. 
- Tá certo,Zé. Qual ´é o "pobrema"?
-  O problema,Milton,é que você sendo nosso conterrâneo de Brumado,deveria ser o primeiro a obedecer e respeitar a mamãe...
-  Quem foi o "fi da puta" que inventou...
- Não me interrompa,por favor. Você sabe que a mamãe tem por norma aqui no pensionato de proibir que o hospede traga gente estranha,que dirá pro quarto !
- Ora,Zé,não vejo nada de mais a gente trazer uma colega,uma amigo de trabalho. Não foi nenhuma Quenga... 
- Não importa. A ordem de mamãe é não trazer. Além do mais,como agravante,vocês trouxeram bebidas para o quarto,encheram os cornos e ficaram na maior algazarra ouvindo o BaVi com José Ataíde,na Rádio Excelcior.
Volátil ainda tentou justificar:
- Peralá,Zé ! 
E o outro:
- Você acha que eu estou inventando? Olha lá a prova do crime !
E apontando várias garrafas de cereja e duas da Aguardente Pitu,falou mais exasperado,ainda:
- Além do mais,seu Milton Volátil,quando a mamãe subiu pra reclamar você resmungou,e,quando ele se retirou ainda ouviu você dizer "vai-te pra porra!"
Dando um pulinho e fazendo cara de espanto,Milton tentou defender-se:
- Peralá,Zé,aí também já e de mais ! Quem inventou esta infâmia? Quem é que está querendo me queimar com uma família de conterrâneos? Você acha que eu seria capaz disso?
- Acho! Por acaso você também acha que a mamãe agora é mentirosa?
Diante de tal argumentação firme e segura,nosso personagem abaixou os olhos e com voz suplicante:
- Ah,Zé,porra já foi liberada...
- Não pra mamãe, não pra mamãe,certo?
Lá de cima do beliche,mesmo tentando abafar a gargalhada,acredito que todo o pensionato chegou a ouvir.
  
 DECODIFICANDO O "BAIANÊS"

LUTO FECHADO - Vesida de preto,dos pés à cabeça.
SUVACO - Axila
MANERADA - moderação
FLAGRA - abreviatura de flagrante,surpreendido.
BOTAR MARRA - à força
CORNETEIRA - infiel.
BOTANDO GALHA - corneando
MORAL DE JEGUE - botnso banca,defensor da moral e bons costumes
DE VALETE - de forma contrária
QUENGA -   mulher de comportamento condenável pela sociedade.
PERALÁ - corruptela de "esperalá",aguarde um momento. 
 
  
 

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