sexta-feira, 1 de março de 2013


Aidil Lima
ESCREVE


                    Tintas  novas          
HAVIA UMA CASA na Rua da Feira desassossegada, todos passavam em disparada, espalhavam a mão pela cara em sinal de oração. Era tanto boato, que até a rua ficou mal falada. Mas, não era nada, só as quartinhas, assentamentos sagrados dos orixás, com um líquido da vida, chamado de Omin. A mãe de santo depois de enterrada fizeram o Axexê, o orixá saiu de seu corpo. Os filhos viviam numa lonjura, a casa ficou isolada na inutilidade. Sem nenhum pé pra acariciar seu chão. Um dia a neta da finada veio ver a casa, tinha um olhar inquieto, aparentava idade alguma. Morava na capital, demorava horas para ir e vir do trabalho, quando ia dormir, já acordava cansada. Sentiu o desejo de vir morar na casa mal assombrada. O líquido da vida da quartinha de Ogum lhe deu coragem, obstinação e teimosia. Deu tintas novas a casa. Arrumou emprego. As pessoas olhavam desconfiadas, mas não atinaram nenhum motivo de assombro. Gente acolhedora. Largaram bem devagarinho aquelas idéias de tempos distantes e foram se achegando a ela. Tomavam café, conversavam, segredavam, riam das crendices aprendidas daqueles que nem se importavam com sua vida. Com o tempo ela descobriu que havia herdado os dons da avó. Consultava os búzios para amigos, vizinhos que já não tinham medo. A curiosidade sobre as coisas ainda não vindas lhes derreteu o preconceito. A vida era tão serena, sem tropeços, tinha tempo até de ver o por do sol que havia esquecido.  Aproveitou as férias e sacralizou-se. Foi a Senhor do Passos guardada em si e calou-se em oração. 










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