sábado, 13 de abril de 2013



                       
 Valentim,o Cabo  Eleitoral do Acupe


Capa do livro de Erivaldo Brito
Aviso aos preconceituosos de plantão: o cronista não é ponográfico, e sim os personagens (como  os baianos de um modo geral),é que são pornofônicos..Dessa forma,não escrever o que o personagem falou não iria condizer com o que aconteceu,soaria falso. Portanto,se você se enquadra na categoria citada,pode parar por aqui.Vamos ao "causo":
O doutor Aldenor (nome fictício),havia herdado do pai não apenas os pacientes e o consultório mas,também,o gosto pela política.Então,depois de haver assumido o cago de prefeito da sua cidade,estava,já,no seu segundo ou terceiro mandato na Assembléia Legislativa do Estado.
 Éramos,ainda,nos tempos em que os homens usavam paletó e gravata quando iam votar.Analfabeto não votava.Eu disse não votava?! Na verdade,uma das funções dos tais cabos eleitorais era ensinar o sujeito a "desenhar" a assinatura do próprio nome,utilizando-se de tinteiro e penas de metal,as canetas.
Às vésperas do pleito,envelopes fechados contendo as cédulas chamadas de "chapa completa",eram entregues ao eleitor para simplesmente depositar na "urna inviolável". Se o eleitor quisesse saber,"doutor,com voto fechado?" recebia a cínica resposta imediata:"a Constituição diz que o voto é secreto,portanto não mostre a ninguém!" A preocupação óbvia era que,se alguém "do contra"aproveitasse a distração do eleitor e furasse com um alfinete ou uma agulha o envelope com as cédulas,no dia da apuração,o voto seria anulado.
O doutor Aldenor era do tipo raro de político que não recebia donativos de empreteiros,"não tinha o rabo preso*"conforme gostava de dizer.No entanto,usava do clientelismo, de pequenos favores: era uma receitazinha aqui,um funeral ali,,uma dúzia de retratos 3x4 acolá,um pedido de emprego...No seu dia-a-dia ele costumava dizer que "não era político Copa do Mundo",ou seja,aquele que só aparece de quatro em quatro anos.É sua a frase seguinte:
- Não adianta o sujeito ter um passado de glória,como a Portela, e não ganhar um carnaval desde 1984 !
 Na capital do estado,o douor Aldenor mantinha um pequeno escritório onde ele comparecia invariavelmente todas as manhãs.
Valentim,cabo eleitoral do deputado no distrito de Acupe,município de Santo Amaro da Purificação,indo à capital,como não poderia deixar de acontecer,foi ao escritório.Dirigiu-se à Secretária:
- Bom dia,dona! Cadê o doutô Ardenô?
E a secretária boazuda ,cheia de charme e com voz melosa respondeu:
- Queira acomodar-se,cavalheiro,por favor.O doutor Aldenor (sempre puxando pelos "erres"),ainda não é chegado. Aguardemo-lo .
Cheio de mesuras,Valentim agradeceu:
- Brigadin,dona ! 
E ao sentar-se na poltrona macia,ficou cheio de pensamentos libidinosos:
Véi,qui diabo de muié mais gostosa! Tá rebocado piripicado* se o chefe num tá cumendo na moita*.Na certa foi ele qui discabaçou* !
Sentadinho naquela poltrona confortável,o ventilador deixando o ambiente agradável,Valentim acabou adormecendo.Foi um sono tão pesado que ele nem percebeu a chegada de outras pessoas,nem o barulho incessante do telefone o incomodava. Lá pras tantas,após haver recebido vários telefonemas,a secretária avisou:
- Olha,Senhores: o doutor Aldenor acaba de ligar pedindo desculpas e para avisar aos senhores que hoje não virá ao escritório.
Em vista do inesperado aviso,todos se retiraram. Eu disse todos? Todos uma ova! Vocês esqueceram o Valentim? Pois é; sentadinho lá no canto,Valentim tirava o maior ronco.A moça resolveu acordá-lo.Ele levantou-se assustado e a moça informou:
-  Olha meu senhor;o doutor Aldenor pediu desculpas porque,motivado por uma força maior,ele hoje não virá ao escritório!
E Valentim coçando a cabeça:
- Que dizê qui ele não vai vim ?! 
A moça respondeu-o:
-É,é isso mesmo.
E ele demonstrando uma preocupação maior:
- Vixe Nossa Sinhora! E eu fiquei um tempão disgramado aqui...Tinha que ir na Baixa dos Sapateiros, 7 Portas...
E voltou a perguntar:
- Ele ficou duente? Aconteceu arguma engrisilha?*
A Secretária o tranquilizou: 
- Não! Não é nada sério,não! É um acontecimento familiar.
E então,distraidamente,deixou escapar:
- É que hoje é o aniversário da esposa dele,dona Jaci e haverá um almoço na casa dele.
Meninos e meninas: pra que a moça foi dizer isso?  Despedindo-se dela,Valentim saiu falando:
- Foi bom a sinhora dizê,moça,preu  não ficá feito couro-de-pica*
E,sem mais delongas, pegou um bonde (naqueles tempos ainda circulavam bondes na capital baiana),e rumou para a casa do político que morava na Graça,bairro nobre de então.Então,em lá chegando,Valentim tocou a campanhia do portão de ferro que guarnecia a majestosa mansão. O criado,devidamente fardado,veio recebê-lo:
- Boa tarde,senhor? O que deseja? 
E ele com aquele vozeirão que Deus lhe deu:
- Diga ao dotô Ardenô qui o Valentim,cabo eleitorá do Ocupe aqui e qué falá cum ele!
O mordomo nem precisou levar o recado.Mesmo dentro de casa,ou melhor dizendo,trancado dentro do banheiro,o político tinha escutado perfeitamente bem.Sua reação foi colocar as duas mãos no rosto e lamuriar-se:
-  Meu Senhor do Bonfim! O poeta disse que ser mãe é padecer no Paraíso! Só que ele não conhecia nenhum político como eu,obrigado a engolir sapo,rã,lagartixa,o diabo a quatro!
Mesmo a contragosto,pelo interfone,o político ordenou:
- Faça-o entrar,por favor.
Depois de haver tomado seu banho e trocado de roupa,(o doutor Aldenor era um sujeito metódico,jamais alguém o viu sem paletó e gravata,exceto a sua esposa,claro).E se encaminhou ao "convidado endesejado". Fazer o quê? Valentim era um cabo eleitoral de comprovada eficiência e influência,além de ser de uma fidelidade canina.Mas,era o almoço de confraternização pelo aniversário da sua esposa,estavam sendo esperadas várias autoridades,convidados importantes. Com um indisfarçável sorriso amarelo,o político estende a mão para o clássico cumprimento e recebe em troca uma verdadeira agressão repressentada por um abraço de chocoalhar o esqueleto!
Os conviddos foram chegando: advogados,juizes,o desembargador,colegas do político e familiares.Valentim era o verdadeiro "Gato Mestre* no meio e no centro das conversações.Quando um  garçom apareceu com a primeira bandeja,Valentim "voou" em cima,pegou  duas taças de vez! Ao seu lado,o desembargador Sérvulo Martins ouvia,incrédulo,o seu comentário:
- É bom deixá sempre um na reseuva. Nunca se sabe se vai acabá ou fartá!
O magistrado,que estava fumando, ainda ouviu dele:
- Sorta a brefa* pra mim! 
A dona Jaci,a aniversariante finalmente apareceu.Coitada.Valentim,sem respeitar a fila de cumprimentos partiu pra cima e,por pouco não a atirou na piscina.Um vejame.
Os convivas preparam-se para o banquete. Valentim sentou-se exatamente no local reservado para a homenageada,a dona da casa.E por lá ficou.Apanhou o guardanapo de fino linho inglês amarrando-o no pescoço.E comentou sorridente:
-A burguesia tem seus encantos,sô !  Eita comida que tem sustança*!
Mas,criticou a salada:
- Tô achano qui tá rançosa*! Quem cumê tá lascado,vai se cagá todo!
E soltou uma gargalhada.
Após haver sido servida a sobremesa,alguns convidados fizeram o uso da palavra.O desembargador,vários colegas do deputado,algumas autoridades presentes,e,por último o Venerável da Ordem Maçonica.Todos aguardavam o agradecimento que seria feito pelo doutor Aldenor,tido como um orador de largos recursos de retórica.Mas eis que de repente Valentim,derrubando a cadeira em que estava sentado,levantou-se,fungou,limpou o nariz no guardanapo,deu aquele chupt intencional de quem está querendo aproveitar os resíduos da refeição na arcada dentária,com o dedo em riste,cheio de ênfase bradou:
- Um humirde pede a palavra!
Os presentes se entreolharam.Vocês já imaginaram a situação do deputado anfitrião e sua esposa? O doutor Aldenor segurou uma das mãos geladas da sua esposa e pensou:"Seja tudo  pelo amor de Deus!" E,meio sem jeito:
- Está concedida a palavra!
Valentim atacou o seu improviso cheio de compenetração:

- Doutô Ardenô; até hoiji,não cunhicia dona Jaci,não tinha tido relações íntimas cum ela.Tive hoiji pela primeira vez.Gostei.Vou ficá freguês.Ela é uma mimosidade. É delicada até no expurça. Só peço a Deus,ao sinhô do Bonfim da Bahia que dê vida e saúde ao sinhô doutô Ardenô e a dona Jaci,essa frô que nasceu pra ser gosada pelo sinhô e pur todos os seus amigos. Tenho dito!
Dizem que,depois dessa,o doutor Aldenor despediu-se para sempre da vida pública. 



DECODIGICANDO O "BAIANÊS"
RABO PRESO - Sem cumpromisso com ninguém
TÁ REBOCADO PIRIPICADO -Espécie de juramento.
NA MOITA - Às escondidas.
DESCABAÇADA - Desvirginada
ENGRISILHA - Situação confusa,enrolada.
COURO-DE-PICA - Ficar em situação confusa,de cima pra baixo.
GATO MESTRE - Gaiato,entrão.
BREFA - Resto,ponta de um cigarro.
SUSTANÇA - Alimento de grande valor nutritivo.
RANÇOSA - Azeda,estragada.      

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