sexta-feira, 19 de abril de 2013


                                             FRONTEIRA DA MISÉRIA
Aidil  Araujo Lima
 TINHA DIAS  que acordava cantando um lamento triste. Era a saudade que crescia no seu peito, doía tanto, que as lágrimas escorriam de lá do fundo, de lá bem longe, adormecendo a dor lentamente. Saudade de seu menino. No dia que ele nasceu viu nos seus olhos o brilho de um grande doutor. Ela trabalhava, trabalhava de tudo que a vida lhe dava. Fazia cocada, lavava roupa de ganho, limpava casa alheia esquecida das canseiras, pagava os estudos de seu menino, suando para ele um novo destino. Foi toda animada matricular seu filho na escola de freiras, as mulheres lhe olharam de cima abaixo, lhe diminuindo, ignorando o seu pedido. Ela ficou em silêncio, chamou Nanã, o orixá, no pensamento, ela intercedeu com seu Axé. As freiras cederam sem entender esta mudança de pensamento. Intimidadas por uma força invisível, aceitaram o menino.  

 Ele se encantou com as palavras, esquecia os lamentos amanhecidos da mãe, as letras eram músicas, juntavam-se e reparavam a solidão, tecendo com seu fascínio a infância de receio do nada. Atravessou fronteiras. Conheceu países, diferentes pessoas, outros sonhos. Reconheceu-se distinto, distante dos aproximados. Virou diplomata, andava no meio dos brancos. Deslembrou-se negro. Perdeu a memória ancestral, esqueceu-se até das coisas sagradas, ligou-se nas coisas vadias. A mãe tornou-se uma lembrança aleijada. Desde que partiu só veio uma vez, ficou desconcertado no meio daquele povo de santo. Nunca mais voltou. Ela às vezes demorava-se na dor, desviava a sua atenção de ser rejeitada por quem saiu de dentro do seu corpo suado. Esquecia a mágoa, e sexta feira ia à igreja cheia de ouro, lembrava até mãe Oxum, de tanta beleza. Comovida, de joelhos, agradece silenciosamente a travessia da fronteira de miséria de seu menino

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