sábado, 6 de abril de 2013

GENTE PAGODEIRA
                               DE PAI PARA FILHO

PARA melhor conhecer o nosso personagem do "causo"de hoje, permitam-me apresentar-lhes o seu pai,o médico José Abílio da Silva Teixeira,"doutor Zezinho",médico querido da Santa Casa de Misedricórdia da Cachoeira durante muitos anos.
O saudoso senador pela Bahia e também médico, Ruy Santos,no seu livro "Teixeira Moleque",(Livraria José Olympio Editora-1960),nos apresenta, um perfil e as diabruras do seu colega de faculdade.
Um dia,o pai dele,vindo para Salvador fazer compras,encontrou-se com um também estudante de medicina que o inqueriu sem maldade:
" - Ah,então o senhor é o pai do Teixeira Moleque?!
O velho Raulino nem disse sim,nem disse não. Ficou meio confuso,atrapalhado,fechou a cara e procurou se despedir.Mais tarde,encontrando o filho,interpelou-o:
- Então,seu Zezinho,que história é essa de Teixeira Moleque?
O Teixeira deu uma gargalhada:
- Bobagem,meu pai. Brincadeira dos colegas.
- Não senhor. Isto é uma coisa muito grave. Imagino o que  senhor não anda fazendo por aí".Claro que o velho conhecia a fera.
O autor do livro nos fala do professor Paulino"um cirurgião notável que não faltava às aulas impunha respeito e não ria pra ninguém".E prossegue a sua narrativa:
"Uma tarde, porém, quando o mestre,respeitável e respeitado,cruzava o Terreiro,em direção à Faculdade,os colegas de Teixeira intimaram-no:
- Você vai puxar,agora mesmo,as orelhas do professor Paulino.
Teixeira levantou-se rápido para atender:
- Uma cerveja de aposta.
Deu então uma volta apressada pelo jardim e acompanhou de perto o velho mestre.E,mal o professor Paulino pôs os pés no primeiro degrau da entrada,Teixeira segurou-lhe as orelhas.
- Como vai este canalha?
O professor voltou-se rápido,o guarda-sol em punho para a reação.Alunos correram à porta. Teixeira lançou-se de joelhos aos pés do mestre:
- Perdoe,professor Me perdoe. Eu pensei que era o Artur,um amigo meu..."
Não obstante a molequeira,Teixeira tornou-se médico,médico respeitável da Santa Casa de Misericórdia da Cachoeira onde era chamado, - conforme dissemos no inicio - de doutor Zezinho. Apesar de ainda brincalhão com os amigos,nada fazia lembrar o Teixeira Moleque. E não havia necessidade porque o seu filho,Tertuliano o superou em tudo,até com a novidade de dar pitacos nos discursos alheios,objetivando desconcertar o incauto orador. E conseguia. Contavam os antigos que,certo 25 de Junho,data do maior significado histórico da cidade,no coreto que se armava bem em frente da prefeitura,Zacarias,que gostava de se exibir em todas as solenidades em que se fazia presente,soltava o verbo:
-  Da minha pequena propriedade em Conceição da Feira,desloquei-me,elegante e fagueiro,para "vim" falar ao povo irmão cachoeirano.
E, foi aumentando o tom de seu discurso com indisfarçável emoção,apontando para o prédio histórico;
- Foi ali,Senhores,que os nossos avoengos,com denodo e coragem indomável,enfrentaram o jugo do colonialismo português.
E,apontando mais uma vez para o prédio da prefeitura:
- Senhores: o prédio que ali vedes...
Sabe quando dá um branco no sujeito? Isso acontece até no improviso de oradores mais experientes. Zacarias angoliu seco e repetiu:
- O edifício que alí vedes...
Tertuliano arrematou:
- É de pedra e cal!
O povo na praça caiu na gargalhada, enquanto a Minerva tocava aquela musiquinha ligeira de término de discurso. Zacarias desceu do palanque puto da vida.
Outra interferência do Tertuliano de que eu tenho notícia se deu no mesmo local. O professor primário,Loureiro,fã incondicional do nosso poeta maior,Castro Alves,de quem ele não só sabia de cor a maioria dos sonetos,mas,o imitava até na enorme cabeleira alvoraçada pela brisa que soprava da maré enchente. O professor discursava com imagens retóricas bem a gosto da época:
- Caminhando nas planícies e cumeadas da vida,por essas plagas distantes,por esse mundo sem fim...
Tertuliano fez a rima:
- Cala a boca cabeleira de saguim!
Diante da gargalhada geral,o professor perdeu a esportiva e mandou uma "banana":
-  Tome !
Tal gesto foi imitado,anos depois,pelo conterrâneo Pedro Erivaldo (Cabeção) quando o então governador ACM desfilava na Cachoeira.



DECODIFICANDO O"BAIANÊS"

Saguim - corruptela de  sagui,espécie de pequenos macacos.




 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário