quarta-feira, 3 de abril de 2013


Aidil Araújo Lima


                     Portal Mágico
Nunca matou cobra, sapo, nem bicho algum. Sempre que um deles atravessava o  caminho, ela desviava o corpo, deixando-o seguir. O respeito pela natureza era tão sagrado que aplaudia a lua quando o dia se ia, e o sol quando o dia chegava. 

 Esta emoção era própria da sua natureza de filha de santo. Ela conversa com cobra como se fosse gente, invoca Oxumaré, orixá da continuidade, recebe seu Axé, fala com a cobra e ela obedece. Faxineira numa escola, carregando nas costas a família inteira, é o único sustento. Triste sina essa das mulheres negras, a de ser o sustentáculo da família. Homem seu não tinha. Namorava quando sentia vontade, assim que o dia despontava mandava o sujeito embora. Não queria ter a mesma sina da mãe que morreu tão nova de tanta pancada que levou do pai, e a pobre não largava esta vida maldita, parecia até que gostava. Um dia a vida cansou dessa desdita e levou sua alma lá pra Oxalá, o corpo da mãe ficou largado, sem vida sem nada. Dos gringos ela não gostava, eles até humilhavam, oferecia dinheiro como se seu prazer fosse vendido. Gostava era dos negros e quando eles a pegavam no samba, se seu corpo arrepiava ela queria continuar. Foi numa terça-feira. A comadre chegou cedo, toda vestida de branco, não era nem sexta-feira, nem dia de boitá, sentiu um desassossego no peito querendo logo saber o que é que há. A comadre lhe disse, seu irmão foi morto por policial, foi um tenente que até negro era, e o confundiu com bandido. Ficou em silencio com as dores caladas. Vestiu a roupa branca, saiu esforçando os passos e, foi pro Terreiro de Candomblé, as irmãs de santo seguiram em procissão acompanhando seu pranto mudo. Ajoelhou-se e conversou com Nanã, falou do portal mágico, lhe disse do irmão, a cabeça confusa, sem saber se ele nasceu ou se morreu, sem entender direito, ele era vivo confundido com marginal por ser negro, devia ter se libertado desta vida apartada da sorte. Então, pediu que ela ajudasse nessa passagem para vida ou para a morte.

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