terça-feira, 30 de abril de 2013

O saudoso memorialista cachoeirano Francisco José de Mello(Chiquinho Mello)foi um dos mais profícuos colaboradores de o jornal,"A Ordem"que circulou na Cachoeira nos anos oitenta.É da sua lavra o artigo abaixo que relembramos pelo seu conteúdo histórico.
                                     O DIA "D"
FRANCISCO JOSÉ DE MELLO
Manhã do dia 8 de maio de 1945.
Explodiram edições extraordinárias nas principais emissoras de rádio do país,noticiando o fim da Segunda Guerra Mundial: "Atenção! Atenção! A Alemanha  acaba de assinar sua rendição incondicional. A guerra acabou!"
Era uma sensação de alívio para todos.A nuvem negra passava.Desaparecia a ameaça de domínio e escravização do mundo pelo nazismo.
Em instante,o povo aflui às ruas empunhando bandeiras brasileiras,e canta hinos e marchas patrióticas:
"Nós somos da Pátria a guarda/Fiéis soldados,por ela amada/Nas cores da nossa farda/Rebrilha a glória,fulge a vitória!"
Uma massa compacta ia crescendo,se avolumando,e todos de braços dados,vibrando,irmanados,continuavam cantando:
"A paz, queremos com fervor/A guerra s´nos causa dor/Porém,como a Pátria amada/Foi agora ultrajada,lutaremos com fervor". 
A última estrofe do hino foi alterada para lembrar o ultraje sofrido pela Pátria com o afundamento dos navios brasileiros e a participação da FEB na luta contra as forças totalitárias.
 A massa se locomovia.As janelas das casas abriram-se alegremente saudando os manifestantes.Senti-me contagiado pelo entusiasmo de todos e sai,também.
 De repente, ouvi uma voz que me deixou alarmado.Uma voz ressoou na multidão:
Mussolini e Hitler tinham adeptos em S.Félix e Cachoeira
"Vamos pegar o chefe Integralista,o Quinta-Coluna que chegou a preparar uma lista dos que seriam executados em Cachoeira depois da vitória nazista!"
A voz que comandava era de Manoel,mais conhecido como "Casaca Vermelha",estivador conhecido de todos,e que,de repente,assumia a liderança daquela massa e clamava por vingança contra o traidor da Pátria!
Eu vi a turba enfurecida,cheia de ódio,partir para a Pitanga,cantando hinos patrióticos.Tive receio do que poderia acontecer diante da expressão resoluta no rosto daquela gente.Talvez houvesse linchamento!
Um empregado do homem avisou-o a tempo e ele fugiu com toda a família,saindo em trajes íntimos,abandonando a casa às pressas. A turba não encontrou resistência para a invasão,pois,os moradores haviam abandonado tudo desordenadamente.Houve uma verdadeira destruição na residência do chefe Integralista.
Lembrei-me da tal lista,onde constava,também,o nome do meu pai,de um dos meus irmãos e o meu. Eu era um dos condenados por antecipação,pelo meu repúdio ao totalitarismo germânico. A concepção do militante integralista era de que,quem não era um deles,era contra eles.
A massa,vendo frustrada sua ação punitiva,dirigiu-se para o Monte. Iriam pegar o alemão gerente da Suerdieck. Também não o encontraram. Houve saque,depredações,e a casa do alemão ficou arrasada!  
Na vizinha São Félix,outro grupo fazia a caçada ao espanhol Daniel Fernandes,que tomava parte nas cervejadas dos alemães da Danemann,quando algum navio brasileiro era torpedeado. 
O espanhol,apavorado,foi parar no telhado do sobrado onde funcionava seu bar. Não conseguiu escapar,e foi arrastado de lá. Dizem que levou muitas bordoadas chegando a "ensopar" as calças. 
Depois seria a vez do Clube Alemão na Avenida Salvador Pinto,onde o quebra-quebra não popou nem o piano que foi jogado pela janela do clube. Houve destruição total! 
Oito de maio de 1945,um dia mesclado de alegria ,arroubos patrióticos e de um desejo de revide,recalcado pelo temor do esmagamento das liberdades democráticas,de instalações de uma ditadura fascista,quando tudo parecia perdido.
Manoel "Casaca Vermelha",um pacato estivador,corpulento,vibrante,apaixonado pelo Botafogo Futebol e Regatas,da cidade do Rio de Janeiro,seu torcedor fanático. Foi ele o líder,o cabeça da maior explosão de massa agitada.Ele parecia um herói vingador de filme americano.
  
 

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