sábado, 18 de maio de 2013

         Argumento convincente

AO ABORDAR em Datas Cachoeiranas uma das vindas do Circo Nerino,acabei me lembrando de um acontecimento digno de figurar nos "causos" que vimos contando,na realidade,cronicas de uma época que vivenciamos. O meu filho caçula e xará,Brito Filho,Tinhó,certeza feita,quando ainda morávamos na Vila Residencial em Muritiba,ao ouvir-me contando um "causo" hilariante me veio com essa:
- Pai...eu tenho saudade desse tempo que eu não vivi!
O Circo Nerino estava armado na área do campinho da avenida Ubaldino de Assis.Além das peças teatrais levadas à cena,o "coringa" da trupe era Roger Avanzi,filho do seu Nerino,dono do circo .Roger era músico,tocava trompete. Era ciclista de rara habilidade. As "partidas de futebol"disputadas na arena do próprio circo com dois ciclistas uniformizados de Cruzeiro (Cachoeira) e 2 de Julho (S.Félix) levavam a platéia à loucura.
Roger também substituiu o seu pai na figura do palhaço Picolino.Este,por sua vez,cunhou um bordão que toda a cidade repetia:
- Caaachorro! 
Isso acontecia quando ele ficava surpreso com alguma coisa que o seu partner dizia. E,quando o mesmo partner falava que tinha "uma coisa para lhe dizer"Picolino enlouquecia:
- Diga logo! Diga logo! Diga looooogo !
Como é sabido,em todos os espetáculos circenses acontece um momento que a patuleia batizou de "encher linguiça",ou seja,um instante em que se apresenta um artista de menor expressão. O do Circo Nerino era protagonizado pelos cantores Levi Branco e Bob Lúcio. Nomes artísticos,claro.
Levi Branco,com uma voz anasalada cantava o bolero Marta:
- "Maaarta,en suas claras pupilas / Freme nueva aurora de amor!"
E o Bob Lúcio cantava um dos primeiros sucessos do nosso Gilberto Gil:
-"Entra em beco,sai em beco / Há um recurso,Madalena..."
Eu e Dadinho,velho amigo e companheiro do trio vocal "Os Tincoãs" havíamos optado por assistir ao filme "Serenata em Acapulco" da Pelmex, onde acontecia uma participação do trio "Los Trés Diamantes" cantando "Vereda Tropical".  Beleza!
Dadinho era fã do crooner do trio cujo nome não se sabia. Ele então o apelidou de "Baltazar" por achá-lo parecido com o centravante do Corinthians,na época.
Vimos caminhando nas proximidades da casa de Valdir de Gegeu junto ao bar "O Sucesso",de Dadinho,quando ouvimos alguém chamando.Adivinhem quem? Tchan,tchan,tchan,tchan... Acertou que pensou nos dois cantores do Circo Nerino. Ficamos no aguardo.Eles se aproximaram. Levi Branco e falou:
-  Boa noite! A gente tá querendo fazer uma serenata,hoje,aproveitando esta lua linda.Viemos conversar com você,Dadinho para nos acompanhar ao violão.
Dadinho foi rápido no gatilho:
- Bateu na porta errada,magnata ! (Dadinho gostava de chamar as pessoas assim). Vocês já procuraram Didi da Baiana ou Porto,Antônio Porto?
Levi respondeu:
- Didi estava trabalhando na bilheteria da Navegação Baiana. "Seu" Porto não aceitou,então a gente veio procurar você.
Resolvi dar o fora. Dadinho,então,passou a bola para mim:
- MAGNATA ! (Chamou-me em voz alta porque já havia dobrado a esquina). Você que está subindo a Rua da Feira,leve os dois amigos até a casa de Cachico!
 E lá fomos nós subindo a rua Ana Neri enquanto os dois iam confabulando o roteiro que eles pretendiam seguir e as moças que pretendiam conquistar. Como vocês sabem que eu sou um cara discreto não revelarei os nomes. Eles faziam planos e eu com os meus botões pensava: "Ah,Dadinho filho da puta!"
Eu tinha a noção onde Cachico morava.Subimos a ladeira do Monte.Encontramo-nos com Claudinho e ele informou:
- É no "correio" onde Adálio (pai de santo) morou !
E mostrou-se curioso diante dos artistas:
- Pensei que o prego* que deu não ia ter circo.
Um dos rapazes respondeu que não teria problema para a companhia.
Seguindo a orientação do Claudinho descemos a ladeira por trás da igreja. Chegamos,finalmente. Bati à porta. Um infeliz de um cachorro da vizinhança quebrou o silêncio com seu latido reverberante e ensurdecedor

Por fim,uma voz feminina de dentro da casa perguntou:
- Quem é ?
Respondi:
- Sou eu,Erivaldo Brito,filho de Ester. Eu queria falar com Cachico.
Demorou um pouco e a porta da casa se abriu. Era o próprio Cachico,envolto numa grossa capa colonial que veio nos atender:
- Diga aê,rapaziada! 
Fui direto ao assunto:
Cachico;você naturalmente conhece estes dois artistas do Circo Nerino,não é mesmo? Eu estava com Dadinho quando eles me abordaram dizendo que pretendiam fazer uma serenata,hoje,aproveitando esta beleza de lua! Disseram que queriam contratar o melhor violonista, o bamba* da cidade e eu falei:Cachico! Trouxe,então eles aqui. 
A cantada,modéstia à parte,foi bem dada mas,Cachico manteve-se firme:
- Olha,filho de Jessé,você é pedra noventa* mas,eu tive hoje um dia de cão,tossindo pra caramba,com febre...Peguei até o Guru-Guru* e fui até me consultar no hospital da Santa Casa.
E o Bob Lúcio tentou argumentar:
- Olha seu Catito !
Foi interrompido pela mulher do próprio,que se encontrava presente aguardando naturalmente o desfecho:
- Cachico !
- O senhor não vai cantar, - disse Levi Branco - ,vai apenas nos acompanhar em dois ou trés lugares aqui mesmo em Cachoeira. 
Cachico resistia:
- Eu sou pau casca* ! Igual ao tio dele,Beline, (apontando pra mim),eu adoro um pagode* mas hoje não vai dar!
E a sua mulher reforçava o argumento:
- Vê se você toma tenência* na vida,rapaz,vai sair com esta friagem?
Já estávamos indo embora quando Bob Lúcio  jogou a última cartada:
- Seu Catito,a gente não ia deixar de dar um agrado ao senhor,pagar um cachê...
Meteu a mão no bolso e apanhou uma cédula de cem cruzeiros,daquelas vermelhas com a esfinge de Pedro II. Meninos e meninas: por pouco os olhos de Cachico não saíram de orbita.E ele falou:
- Como não é coisa que demore,vou "panhar" a viola e "vambora"!
Foi,sem dúvida um argumento convincente E precisa mais?
 DECODIFICANDO O "BAIANÊS"
Este apêndice dos "causos" tem por objetivo relembrar e/ou esclarecer o leitor sobre o modo de falar.Tem sido do agrado de todo mundo.Como disse o poeta"o tempo não para".Hoje,por exemplo,as mulheres tipo Gisele Bündchen,lindas mas,seriam consideradas no meu tempo como magricelas,Caga-Sebo,um passarinho que também sumiu. Vamos decodificar as expressões usadas no presente "causo":
PREGO - Blecaute,falta de energia.

BAMBA - Palavra de origem africana. Significa exímio,muito bom.

PEDRA NOVENTA - As famílias gostavam de brincar uma espécie de Bingo. As pedras eram retiradas do bogle e cantadas de forma peculiar: "Pau e bola! (10)","Dois patinhos na lagoa! (22)","A idade de Cristo! (33). E opessoal ía marcando as cartelas com caroços de milho. A pedra de maior valor era a noventa.

GURU-GURU -  Ônibus que circulava na cidade,sobretudo nos dias de feira livre.

PAU CASCA - Positivo,sincero.

PAGODE - Brincadeira

TOMAR TENÊNCIA - Ficar alerta,tomar cuidado.








 


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