sexta-feira, 17 de maio de 2013

                                                              BEIRA DO CARVÃO

PROFESSORA AIDIL ARAUJO LIMA


Era no quintal, á beira do fogão a carvão que ela arrancava o seu sustento. Cedinho, acendia o ardor, abanava até virar chama. Botava água do café no fogo, descia para o riacho, tirava a roupa, assim como se despia para fazer amor, ansiosa pelo prazer da água fria em seu corpo quente de acender o carvão. Vestia-se contentada, subia a ladeira com uma música alegre no pensamento. As mulheres iam chegando, esquentava a chapinha na brasa, quando atingia o ponto certo, pegava os montinhos de cabelos crespos e os esticava, transformando em liso. A mulher esticada olhava-se no espelho e sorria satisfeita, pagava e ia embora de cabelos acalmados. Quando o marido chegava ela parava tudo e, ia servi-lo. Era louca por ele, já brigou na rua e tudo, com ciúme de mulher. Ele nem afrouxou a briga, pior que isso a surrou em casa novamente. Ela amanheceu com o olho parecendo pintado de roxo. Envergonhada mentiu as clientes que escorregara no banheiro. Olharam-se em silêncio, num sinal de saberem o acontecido. Ninguém entendia porque ainda gostava desse homem. Parecia que era coisa feita. – De outra mulher não era. Conjecturavam. Só podia ser praga da mãe dele. Mulher ciumenta; queria o filho só dela. Certo dia ele bateu na rua, sem mentiras que escondesse a verdade, amanheceu sem graça quando as mulheres foram profundo na casa, umas iam espichar o cabelo, outras passar o tempo em conversa descabida da vida de ninguém. Uma amiga verdadeira lhe aconselhou largar esse traste. Ela não queria conversa, gostava dele sem explicação de finalidade. Então a amiga a levou num terreiro sagrado, o orixá da justiça iria lhe proteger das chimbas de seu macho. Foram à tardinha, o sol já enfraquecia quando chegaram. 




Lugar cercado por árvores consagradas, forte energia, sentiu paz inesperada, desejo de beijar a terra que gera coisas benditas. Transportou-se entre cachoeiras, árvores bem antigas, nem teve medo quando avistou Xangô, orixá da justiça. Tentou uma confidência, ele interrompeu e disse: seu marido te espanca e você o ama cada dia mais, vá lá entender mulher que gosta de maltrato. Ele disse: não se avexe não minha filha, que darei um jeito, ele ficará manso que nunca mais te levanta nem um dedo. Voltou ao corpo, aliviada. Nesse mesmo dia ele chegou esbravejando, correu para cima dela, um trovão veio lá do céu, era o machado de Xangô fazendo justiça. O seu braço doeu, e percebeu partido. O olhar espantou de medo e de dor. A mulher lhe acudiu, cuidou dele, lhe deu seu amor submisso e tolerante. Ele ficou curado, nunca mais levantou a mão para maltratar. Suas mãos só se movimentavam em seu corpo a fazendo delirar, não de febre de doença, mas de amor satisfeito.

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