sexta-feira, 3 de maio de 2013

         O ASSUNTO DO DIA

Logo nos primeiros anos em que o Colégio Estadual da Cachoeira formava novos professores,praticamente em toda a cidade era aquele clima festivo,afinal,era um filho ou uma filha "deplomado",bastando,apenas, fazer um curso de datilografia para se  capacitar a um emprego público,no caso de não querer enfrentar o magistério,nos tempos em que ser casado com uma professora era sinal de status social: "fulano é marido da professora!"
 Os pais que dispunham de mais um dinheirinho mandavam Manolo fazer um álbum de fotografias com os neo-formandos e o pessoal do Corpo Docente.
Então,my friend (como gostava de dizer o cambista Darinho),da ponta da Calçada ao Tororó,por mais modesta que fosse a família,não poderia faltar ânimo para comemorar com festas animadas por uma radiola comprada em Tio Popó, Também rolava uma cervejinha,refrigerantes,doces variados e o licor feito em casa com as cachaças "Saracura" e Tira Prosa" engarrafadas por Edgar Teixeira Rocha. Ah,ia esquecendo: e o tradicional bolo em formato de um livro aberto com cobertura de glacê.
A fim de alicerçar amizades e ninguém se sentir discriminado,formavam-se grupos de amigos que se deslocavam de casa em casa. Em um dos grupos de "ginasianos" encontrava-se,dentre outros Moracyr Bello (nome fictício) na prazerosa maratona gastronômica.
O grupo de Moracyr já estava se dando por satisfeito quando alguém lembrou da professora Josefina (nome fictício),uma formanda muito querida por todos, porém,morando no alto do Tororó...Alegando cansaço Moracyr tentava justificar:
- "Negada" eu não vou. Estou cansado pra porra! Daqui do Caquende eu volto. 
Quiseram saber,democraticamente,a opinião de todos, Alguém perguntou:
- E você,Zé da Peida, o que é que você opina?
E ele:
- Eu não "apino"  porra nenhuma! O que a turma "dixer"eu topo! 
Mesmo com aquela abstenção,Moracyr foi voto vencido. Acabou cedendo aos apelos e foi.
A casa no alto do Tororó estava pintadinha de novo.Lá dentro tinha mobília,uma geladeira apelidada de "elefante branco" com a tradicional estatueta de um pinguim em cima, e a radiola. Ah,a radiola ! Quando chegaram a mesma já estava funcionando a todo o vapor. Parecia que havia uma boa discoteca formada pelos elepês "bolachões" comprados na mão de Kiko Bubu na "Casa Aurora".  E tocaram boleros do Trio Irakitan:
"Aqueles olhos verdes/Translúcidos,serenos/Parecem dois amenos/Pedaços de luar..."
Gregório Barios:"Bésame/Désame mucho/Como si fuera esta la noche/La última vez..."
E acelerando um pouco o ritmo o festejado Miltinho,precursor do estilo de cantar que consagrou atualmente o Zeca Pagodinho:
"Você mulher/Que já viveu/Que só sofreu/Não minta/Um triste adeus/Nos olhos seus/A gente vê/Mulher de Trinta..."
Então,alguém encarregado do som colocou um disco de Raul Seixas:
"As vezes você me pergunta/Por que é que eu sou tão calado/Não falo de amor quase nada/Nem fico sorrindo ao teu lado..."
Moracyr ficou emocionado.Era fã incondicional de astro. Aliás ele possuía uma semelhança física enorme com o seu ídolo. Criava cabelos e barbicha e se vestia de modo semelhante.
Como era de costume das famílias da época,os donos da festa reservaram estrategicamente um quarto da casa para se estocar as bandejas de frios e doces. Assim,quando as bandejas da sala de visita iam se esvaziando eram prontamente repostas.Deixar todo o estoque à disposição era correr um risco desnecessário de tudo se "evaporar" de repente!
Acontece que,aquele quarto era exatamente  onde se alojava o vovô da casa. Ele gostava  de dormir cede e acordar mais cedo ainda. Todas as vezes que a necessidade obrigava alguém entrar ali o velhinho estrilava:
- Merda,cocô e bosta! Não consegui,ainda,pregar olhos! Tô "ficano" azucrinado!
 E,mais uma vez,quando o quarto se abria:
- Tô "ficano" "cum"a gota-serena com as gaitadas !
E o pesoal procurava confortá-lo até que as entradas no quarto não eram mais protestadas.
Colocaram na radiola um disco de The Beatles:
"So how could I dance/With another (ooh!)/Standin'there?"
 Moracyr começou a dançar sozinho no meio da sala. Ele adorava Rock and roll e queria mostrar as suas habilidades. Rebolava as cadeiras freneticamente,subia e descia como "na boquinha da garrafa"atual.

Então,plateia,para surprêsa geral o velhinho apareceu.Apareceu e partiu feroz pra cima de Moracyr:
Fora da minha casa seu desmilinguido bode mal-cheiroso dos infernos!
O pessoal da casa veio em socorro de Moracyr,coitado,parado no meio da sala,sem ação:
- Desculpa,colega; o vovô está senil,não sabe o que está dizendo,implico com tudo e com todos.Por favor não nos leve a mal.
Dali pra frente o nosso personagem recolheu-se ao fundo da sala com um olhar distante,braços cruzados,pensando lá o quê? Debruçado na janela olhava o firmamento. Como disse o poeta, parecia ouvir estrelas. Um dos seus amigos se aproximou tentando consolá-lo mal contendo o riso:
- É isso mesmo meu caro,poderia ter acontecido com qualquer um de nós!
E ele;
- É...mas foi comigo! Você acha que eu sou nenhum otário? E olha que eu não tava querendo "vim" pra essa porra! Você quer saber o que é o pior? Amanhã a cidade vai "tá" cheia de que eu sou um Gorgota !
E o colega que estava e outros que se aproximaram:
- Nada,rapaz,fique tranquilo que não vai haver gozação contigo,foi uma coisa chata pra todos nós.
De novo alguém entrou no quarto e o velhinho ainda resmungando:
- O fuleiro já se picou?
Foi demais para Moracyr Bello que falou alto:
- Dá vontade de entrar dentro do quarto e baixar a porrada naquele corno velho!
Foi uma gargalhada geral. Até os donos da casa não se contiveram. 
De manhã cedinho,mal os primeiros raios de sol se refletiam no Paraguaçu, o episódio passava a ser o assunto do dia.
DECODIFICANDO O "BAIANÊS"
AZUCRINADO - Aborrecido,irritado.
GOTA-SERENA - Muito enraivecido,irado.
GAITADAS - Gargalhadas
DESMILINGUIDO - Pessoa bastante magra.
GORGOTA - Ingênuo. Corruptela de o  "Mártir do Gólgota".
FULEIRO - Pessoa sem valor,inexpressivo.
PICOU - Retirou-se,foi-se embora.





 
 



                                                                                   
 

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