segunda-feira, 24 de junho de 2013

O poeta maragojipano Osvaldo Sá em o seu livro Vala dos Meus Dias,(Editora Odeam - 1985),nos trás gostosas lembranças infantis dos festejos  juninos do passado,da família dos Torres,engenhosos na arte de fabricar balões que não eram proibidos na época,até porque não existiam refinarias de petróleo na  época e muito menos consciência ecológica. Leia, à seguir a  crônica intitulada
      Cataporas,S.João,balões dos Torres
Em mês de junho,creio que em 1913,as cataporas marcaram-se o corpo com as suas erupções. Asilaram-me os meus pais,em seu quarto,que era arejado,com três janelas,duas olhando para a rua e,outra, no oitão ao sul.  Vestido de camisola branco,quando não dormitava,punha-me a garatujar,fazendo no papel,garotos empinando arraias em traços caricatos como só as crianças sabem fazê-los; coqueiros,com indivíduos marinhando-lhes os troncos; casas desniveladas,sem prumo,com um bicharoco qualquer à porta,ou,senão,a apreciar gravuras de livros e revistas adrede colocadas de maneira que me proporcionassem distração.  Naqueles dias, já melhor avaliava quanto é bom a liberdade,a rua,o quintal,a conversa de brinquedos com alguns amiguinhos.
Ainda convalescia à véspera de São João.No quarto,entretido às vezes pela voz do meu pai,contemplava,por uma das janelas,os balões que se iam nos ares,uns triunfantes,subindo; outros,esgotada a bucha de aguarrás, claudicavam,flácidas e bambos,lento descendo,que eram,nas ruas,disputados por chusma de moleque em correrias,cada  qual mais ansioso,de mãos ávidas em agarrá-los como trofeus de afanoso torneio.
Houve anos em que muito me divertia,queimando traques japoneses,que vinham perfeitamente arrumadinhos,envoltos em papéis vermelhos com letras e vinhetas douradas,de longos pavios,trançados,e pistolas, e vulcões,e  um artifício que se denominava "Relâmpago", que ao inflamar emitia clarão semelhante,em miniatura,ao meteoro de que tomara o nome. Eram fogos importados do Japão. Muito bom e bonitos,inclusive as "Sortes" que minhas irmãs ganharam,certo ano,do tio César,irmão do meu pai,funcionário da Alfândega. Além do voto de felicidade em verso,traziam elas,no bojo,graciosa tetéia. 
De vez,um grupo de rapazes,ao qual se incluiu Júlio,meu irmão mais velho,iniciara-se no feitio de dois balões enormes,com sete ou oito metros de altura,arranjados  unicamente com papel de jornais. A boca era um aro de barrica,e o preparo deles ocorreu em andar,desabitado,de sobrado defronte à nossa casa,onde posteriormente se instalara um laboratório da Emulsão Jonas.
Um dos balões,foi longe,pelos ares fora,com vivório da assistência heterogênea que assistia à decolagem,mas o outro não resistiu à subida,inchava e murchava,logo que saiu das mãos cautelosas dos rapazes,o fogo atingiu o papel e foi aquela disparada de gulosas labaredas,sem tempo de socorro,enquanto a molecada maltrapilha,parte infalível de espectadores em tais cenas públicas,irrompia em assuada forte,de  vaias,fiaus,longe ecoando acanalhadamente. 
Se o destino falasse,que diria então a sua filosofia? quanto a sorte desigual dos dois balões,trabalhados na mesma época,pelas mesmas mãos,com a mesma perícia e a mesma afeição.Mas o destino é mudo como os deuses...
Todavia o que mais me empolgou naqueles dias de junho,foi o requinte dos balões que a perícia dos Torres apresentava às gentes do velho bairro. Moravam eles no Bângala, e eram  moços,estudantes uns,outros já formados,mas todos famosos pelo gênio folgazão e inventivo. Tornaram-se,enfim,conhecidos de toda a Bahia,na cidade há 70 anos que,com dificuldade e demora,de bonde,se ia até o Rio Vermelho. Oito irmãos,sete homens e a mulher chamava-se ;Alice,que se casou com o notável pintor Presciliano Silva. De alguns,recordo-me dos nomes: Oscar,Mário,Otávio,Enoque.
Foram um encanto os seus balões,trabalhados com arte,engenho e originalidade. Eram criações engenhosas de delicadeza tal,que tocavam de entusiasmo os espectadores,e três imagens daquelas peças leves e efêmeras como de sonhos,ficaram-me inapagáveis na reminiscência. Uma cruz,toda negra. Uma galinha pedrez,de cabeça encarnada.. Um frade,com as vestes características e rosto expressivo. Tudo eram balões que subiam e desaparecia nos ares deixando a gente com vontade imensa de continuar,por longo tempo,apreciando-os,admirando-os,boquiabertos. 

Balões largados durante o dia,porque dignos de beleza panorâmica da cidade e do azul dos céus,e para que melhor agradassem aos olhos de quantos se movimentavam para vê-los como se surgissem de fantasia do próprio São João,contente de sua festa luminosa.
Comentava-se a calma com que os Torres conduziam os seus balões,defendendo-os ao sopro rijo do vento,às vezes,a fim de que o fogo da bucha não se comunicasse ao leve papel,antes da ascensão deles e todos ali presentes,se manifestavam,mentalmente interessados pelo êxito das graciosas naves daqueles festejos juninos que  o tempo levou. Era o largo da Palma,o campo da espetaculosa demostração de  arte e lindeza.
Ah! meu São João,como me deslumbravam os seus fogos multicolores,as suas luzes faiscantes nos meus dias de criança,e como são belas as festas,bem mais felizes,quando a gente ainda veste camisolinhos brancos!




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