sexta-feira, 19 de julho de 2013

MEMÓRIA
Felisberto Gomes - Briô - 

Nos idos de 1896, por iniciativa do cidadão João Antunes, vinha à lume um semanário que levava o nome da cidade: "A Cachoeira". Funcionaria muitos anos até depois da mudança do regime monárquico para o republicano.
Muitos anos se passaram, então, numa quarta-feira, dia 18 de abril de 1934, voltaria a circular um novo jornal com o nome de "A Cachoeira", de propriedade do médico e líder político regional Dr. Augusto Públio Pereira, que era deputado estadual,à época.
Compunha o quadro redacional do referido jornal, Cajueiro de Campos, Francisco Andrade de Carvalho (Francino), advogado Nelson Silva, Dr. Artur Nunes Marques, Cândido Vacarezza, Hermes de Assis Costa e Sapucaia Sobrinho. Na tipografia e revisão, Antônio Loureiro de Brito (Jessé) e assistência técnica de Stelito Nazareth. Felisberto Gomes (Briô) era um jovem aprendiz, ainda.
Na minha pré-adolescência passei a conhecer melhor a Briô,  o comerciante, o esportista devotado que fundou no dia 7 de setembro de 1947 a Associação Cultural Real Atlético, o Secretário da Desportiva, da Liga de Futebol, da Câmara de Vereadores etc.
Na década de 60, deu-se o rompimento de parte do grupo do doutor Augusto Públio contrário à nova candidatura do ex-prefeito Anarolino Pereira, irmão do deputado, formando-se, então, a chamada "Coligação" tendo como candidato Julião Gomes dos Santos que havia sido eleito Vereador com a maior votação até então.
A "Coligação" era composta do deputado João Mendes da Costa Filho, Francisco Andrade de Carvalho (Francino,ex-prefeito), José de Carvalho Mascarenhas, Edgar Rocha,João Gualberto de Carvalho Filho (Jonga), Robustiano Pontes, Evangivaldo Silva, Domingos Miraldo Costa e, dentre outros que no momento não estou a lembrar, figurava o padre da paróquia Fernando de Almeida Carneiro.
O jornal "A Cachoeira", tendo como redator-chefe o professor Pita, fazia uma campanha sistemática calcada em xingamentos pessoais, o que hoje chamamos de "politicamente incorreto". O alvo principal era o então Cônego  Fernando Carneiro.
Aquela era minha primeira eleição em que eu votaria. Julião namorava a minha madrinha Laura Soares. Como todo adolescente, entrei de cabeça na campanha, inclusive criando o bordão "um tosta conta um milhão, para prefeito Julião !" Percorríamos as ruas da cidade num velho Chevrolet dirigido pelo motorista muritibano Joãozinho e o serviço volante era de Gileno Amado Dias.
Certo dia, quando Dr. Públio estava reunido com professores e outros funcionários estaduais em um dos salões do Colégio Estadual da Cachoeira, o carro parou bem em frente e eu passei a ler um texto não sei se de autoria de Francino ou Jonga:
"Chega de tanto Pereira !"  E continuei mandando brasa. Soube, depois, que, algum "quebra faca" do deputado pensou em me dar umas porradas mas,o fato é que, a minha madrinha me chamou e me transmitiu o seguinte recado:
- O doutor Augusto me pediu pra eu mandar você na casa dele, que ele quer falar com você.
Eu fui. Era um domingo. Na sala de visitas onde o Dr. Públio morava estavam lá o professor Salvador da Rocha Passos, Poli, Linda Sala...não lembro se tinha mais alguém. 
De repente chegava o deputado trajando um pijama branco de listras azuis. Trazia à mão um exemplar de "A Cachoeira" daquele domingo. Acendeu um cigarro sem filtro e dirigiu-se até onde eu estava. Deu uma tragada e foi soltando aos poucos a fumaça, enquanto dizia:
- Pedi a Laurinha que mandasse você aqui porque, na eleição passada, para a minha surpresa, recebi alguns votos em Santa Luzia, uma homenagem do nosso conterrâneo Aloísio Maciel, Zito, seu primo, que é Coletor ;estadual ali. Pensei numa retribuição a Zito, então, com a morte do seu pai,Jessé, pensei em nomear você para os Correios e Telégrafos.
Pediu a alguém que anotasse os meus dados pessoais, enquanto ele, lendo as manchetes do jornal, falou como que aborrecido:
- Já mandei avisar a Felisberto (Briô), que pare com isso !Estes xingamentos, esta campanha sistemática contra o padre, só está prejudicando a campanha !
Apesar da inexperiência de neófito na política, alguma coisa me dizia que, o objetivo do encontro era colocar "Uma mordaça" em mim e,depois, passar alguns "recados". Como colorário, ao despedir-se de mim, mandou um recado:
- Diga a Laurinha que o meu voto é sagrado, que eu conto com ela !
Na realidade, grande parte dos xingamentos eram redigidos pelo professor Pita. Briô não era inocente mas não se pode atribuir "a campanha burra" a ele unicamente.
Mesmo depois da campanha o jornal "A Cachoeira" continuou vivo, sem qualquer espécie de ajuda, muito menos da prefeitura ganha por Julião. Briô mantinha o seu semanário de uma forma ou de outra registrando os fatos, as notas esportivas, os nascimentos, os nascimentos, os óbitos, eifim, a memória da cidade.
O jornal com uma centenária impressora, funcionava na parte térrea de um sobrado na Praça da Aclamação. Briô colocava dinheiro do próprio bolso. Então, amigos, veio uma enchente do Paraguaçu. Grande parte do acervo virou lama ! Felizmente ele separava números dos jornais e remetia-os para o Arquivo Público do estado e para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Felisberto Gomes, Briô, meu saudoso amigo e discípulo do meu pai, por tudo o que realizou e deu de si pelos clubes sociais, pelo futebol, pela própria Câmara de Vereadores e pelo jornal "A Cachoeira" que manteve por quase meio século, não merecia jamais figurar na Galeria dos Cachoeiranos Esquecidos.




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