sábado, 21 de setembro de 2013

A HISTÓRIA DE
                            Os Tincoãs

Marquei com o sol um encontro na praia de Copacabana hoje, bem cedinho, logo na sua chegada , neste sábado, munido de uma caneta e um bloco de anotações, objetivando escrever sobre o trio vocal do qual fui um dos fundadores: Os Tincoãs.
Eu estava tranquilo mas o mar nem tanto. Uma brisa suave chegava até a mim trazendo aquele aroma que nos levou até a velha Bahia de Todos os Santos.
A praia ainda estava deserta, ou quase. Quando em vez um corredor solitário. Nenhum barraqueiro, nenhum banhista, nem mesmo os incômodos vendedores de tudo deram o sinal de vida.
A primeira lembrança que se nos ocorreu daquele ano de 1961, quando o trio foi contratado pela Gravadora Continental para gravar um elepê aqui no Rio, foi exatamente dos saudosos companheiros Dadinho e Heraldo. Morando na Rua dos Andradas, no centro, deslocávamos até aqui, para “pegar uma praia”, nas segundas-feiras, o dia da semana em que os artistas descansam e podem ficar livre do assédio dos fãs inconvenientes.
Foi num 11 de setembro que os anos não trazem mais, - como disse o poeta -, que eu ouvi pela vez primeira um grupo vocal. Era o dia do aniversário da minha tia Iazinha., professora de piano. O grupo era de alunos e alunas do antigo Colégio Industrial da Cachoeira, cujo diretor era o professor Salvador da Rocha Passos, nosso vizinho e amigo da família Soares.
Na minha lembrança do referido grupo, além da música “Chuá,Chuá!” ficou Nadir Santos (Didi Zoião) tocando acordeon, Antônio Porto (que era professor de artes, tocando violão) e Hermano Silva, (autor da música “E por falar em saudade” cuja letra é do mestre Vinicius de Moraes). Não lembro mais de ninguém.
Ainda menino de calças curtas acompanhei a minha madrinha que foi comprar uns aviamentos na loja “A Mascote” de propriedade do seu Nelson Lôbo.
Na vitrine estava exposto um realejo. Por simples intuição, vez que já estava no terceiro método de piano, conhecia bem as escalas menores e maiores, disse que eu sabia tocar aquele instrumento. Como era de uma franqueza sem limites, seu Nelson foi logo adiantando:
  • Laurinha não vai lhe dar um realejo pra você jogar num canto qualquer !
A minha madrinha quis me testar:
  • Você está certo, Nelson! Vamos tirar a prova real.
E chamou a balconista, uma moça chamada Nilza, filha de seu Carlito Neves:
  • Nilza; pegue aquela gaita pra ver se ele é capaz de tocar mesmo.
E eu toquei de primeira a “Asa Branca”. O primeiro a me aplaudir foi exatamente o seu Nelson que ficou do meu lado:
  • Laurinha, se não quiser pagar agora, depois você passa aqui e acerta !
E eu levei pra mim a minha “Pátria Formosa” um realejo de um som trêmulo lindo. E foi exatamente tocando aquele limitado instrumento de escala cromática que, na adolescência, aproximei-me dos músicos e seresteiros da época.
Os meus tios Deoclaciano (Dió) era músico da Minerva e Beline compositor e arranjador de blocos das festas populares, desfrutavam de real prestígio na cidade, de sorte que, todo mundo me considerava um “músico natural”.
Os grandes tocdores de violão do passado, Sobral e Guilherme Magalhães estavam aposentados, com a morte de seu pai, Diógenes Guimarães (Didi da Bahiana), formava com Antônio Porto os violonistas mais solicitados.
Comecei a andar com Didi. Com ele fui certa feita a Rua da Feira na casa de Deraldo Relojoeiro. Alí ouvi encantado o “Flor de Abacate” de Jacob do Bandolim executado por Deraldo (bandolim), José Cândido (cavaquinho), Didi da Bahiana (violão) e Roque de Sobral (violão de sete cordas). Que Grupo de Chorinho maravilhoso !
Naqueles tempos, a música e o ritmo caribenho (bolero, mambo, cha-cha-chá) tomavam contas das emissoras. O bolero mexicano nos filmes da Pelmex incrementaram entre os cachoeiranos para formarem trios vocais no estilo dos Los Panchos.
Eu e Bise em foto recente na Cachoeira
Foi na Rua Albino Milhazes que eu participei de um ensaio do que eu considero o primeiro trio vocal cachoeirano, cantando em portunhol mas, melodicamente apreciável. Era composto por Didi da Bahiana, Bise (foto ao lado) e Gesí, funcionário da Companhia de Energia Elétrica.
Didi da Bahiana no Cuba Jazz
A formação daquele trio não foi adiante. Didi da Bahiana (foto) fundou, então, o “Trio Caçula” com Dadinho (1ª voz), Ulisses (Mião, 2ª voz) e ele próprio no violão e fazendo a terceira voz.
Algum tempo depois Mião partia aqui pro Rio a fim de seguir carreira militar, chegando a ser campeão mundial de pentalto. Em seu lugar entrou Vandecock Nascimento, apelidado de o “Verdugo” e, também, “Boneco de Ferro”.
Numa excursão do “Trio Caçula” (Dadinho,Vandercock e Didi) para a cidade de Cruz das Almas eu fui tocando realejo como componente da trupe que tinha o locutor Gilberto Braga, (o “interlocutor Brraaagqa” como ele se anunciava) e o animador de auditório, meu amigo Roberto Herval Lopes (foto), o

 “Alemão Bulangê” ou, “o afilhado de Brin Filho” como ele se anunciava. Brin Filho era um radialista da PRA 4 Rádio Sociedade da Bahia muito famoso na época.
Saimos da Cachoeira de tardinha, depois da chegada do navio. Didi era funcionário da empresa, dai o “sobrenome” da Bahiana. Pegamos uma “Marinete” (ônibus) para uma viagem de mais de uma hora numa estrada cheia de buracos. Não existia asfalto, ainda.
Fomes recebidos em Cruz pelo antigo operador do Cine Teatro Cachoeirano, Renério, técnico em eletrônica, proprietário de uma loja de eletrodomésticos e gerente do Cine Glória local. Foi ele o contratante.
Depois do lanche, fomos logo para o cinema a fim de ajustar a programação. Dentre os números que eu ía tocar lembro-me de “Montanha Russa” uma marcha que fazia muito sucesso na voz de Ivon Curi.
Depois da exibição de uma película, o show propriamente dito. Muitos plausos. Depois, fomos dormir dentro do próprio ônibus que iria sair cedinho no horário do navio. Não me lembro quanto foi o cachê que Didi me deu.
Dadinho tinha um ouvido bem apurado mas, não tocava nenhum instrumento. Resolveu pedir a Didi pra tomar umas aulas. Teve de enfrentar uma dupla dificuldade: ele era canhoto e a má vontade de Didi ! Deu-se, então, o rompimento musical e o “Trio Caçula” sucumbiu.
Eu cantava , no Coral nas festas da igreja do Monte, Matriz e do Carmo. Conhecia todas as vozes das Missas, Tanto Ergo,Ladainha,Ave Maria,Te Deum, tudo em latim.
Didi da Bahiana convidou-me para compor um trio com ele e Heraldo. O nome do grupo era “Trio Os Namorados”. Fizemos algumas apresentações no serviço de alto-falantes “Vozes da Primavera” de propriedade do ferroviário Elias Cardoso de Jesus, mais conhecido pela alcunha de “Paco-Paco”.
Por seu turno, Dadinho havendo a adesão de Heraldo, fazia “experiências” com Waldecock, Wilson Pigmeu e Gilberto Braga
Certa tarde, Dadinho e Heraldo cantavam em dupla o bolero “Yo tengo un pecado nuevo”, grande sucesso do “Trio Los Panchos” e eu resolvi entrar fzendo a terceira voz:
  • Ai, cariño !
    Yo tengo un pecado neuvo
    Y quiero pecar contigo !
Dadinho parou e gritou entusiasmado: “È isso aê, magnata !”

O trio era harmonioso não apenas na vocalização. A "briga" foi só brincadeirinha.
Dai pra frente não mais largou do meu pé. Partimos pra comprar os instrumentos que foram comprados, todos, no Armarinho de Gilberto Santos, em São Felix. Primeiro um pandeiro que Porto transformou num tantan e as maracas. O violão custava caro! Heraldo pegava as coisas no Hotel Colombo, de seu pai e a gente ia fazendo rifas. Mesmo assim, nunca conseguíamos a grana. Heraldo pegou um anel de ouro com três diamantes encravados e ele deixou empenhado com Ari Chambão. Compramos,enfim,o violão. No dia do vencimento,Ari alegou que tinha passado do dia, então, Poporrô, que estava no balcão interferiu e ele devolveu o anel.
Numa certa noite de ensaio no “Expresso Cachoeirano” onde Dadinho trabalhava, surgiu a idéia de darmos nome ao trio. Na minha opinião não queria que se iniciasse com o nome “trio” tal. Apresentei o nome “Os Tincoãs”. Dadinho perguntou-me: “Que diabo é tincoãs?!” Dei-lhe a explicação: 'é um pássaro amazônico com uma lenda muito bonita'.
Colocamos os nomes sugeridos em três pedaços de papel e pedimos a um garoto que passava em direção ao Caquende. Feito o sorteio saiu: Os Tincoãs !
Dai pra frente começamos a ensaiar um repertório calcado num trio mexicano menos conhecido no Brasil: “Trio Los Três Diamantes”
Nos finais de semana saíamos cantando em serenata pelas ruas da cidade. Meu ponto preferido era nas Sacramentinas onde a minha namorada era internada.
Heraldo na Ponte Nova e Dadinho no Caquende.
Nas serenatas, acompanhadas por muita gente, participavam Bebeto (no bongô), Wandecok (cantando “Bronzes e Cristais”) e Carlinhos Monteiro (“Meu Mundo Caiu”) ambas as músicas de Maisa Matarazzo.
Certa manhã entávamos ensaiando no Hotel Colombo quando o engenheiro Raimundo, idealizador e construtor da TV Itapoan, que ali se hospedava, sempre, parou para escutar um pouco. Ele namorava uma moça da familia Shinckie de São Félix.
Então Raimundo falou: “Vou inscrever vocês para participarem do programa “Escada para o Sucesso”. Tal atração reunia os melhores calouros do estado e era dirigido e apresentado por Sebastião Neri. Seria um primeiro e definitivo teste para uma futura carreira artística. Dadinho não era um exímio violonista, tinha dificuldades inerente a um canhoto mas, o vocal era impecável.  
A história de Os Tincoãs estava apenas começando.
Heraldo,Dadinho e eu,formação original de Os Tincoãs. Carlinhos Monteiro apareceu como "empresário" do trio.






Um comentário:

  1. Legal fazer história e contar tão bem esta história para nós. É bom lembrar que temos um Tincoãs!

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