sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"CAUSOS" VERÍDICOS

             Um "conflito" inusitado

Durante um bom tempo da minha vida, o domingo era o melhor dia da semana; não havia aula nem deveres de casa e eu podia jogar meu baba (1) pela manhã no adro da igreja do Monte, comia a feijoada feita por Iaiá, e, na parte da tarde, ia assistir o matinê do CTC, como a gente chamava carinhosamente o Cine Teatro Cachoeirano.
A minha madrinha, Laura, fazia chantagem benfazeja; o gozo de tal benefício dependia do meu comportamento durante o loooongo da semana. Qualquer vacilo lá vinha a ameaça:
- Você ficou bangolando (2) o tempo todo, não fez o dever que a professora Walda passou... Não vai pra matinê !
Carácolis, meu ! Como é que eu podia perder a volta na próxima ? (3) Seria o fim do mundo ! 
Naquele domingo eu estava liberado porque no anterior eu levei o segundo cartão amarelo e peguei a suspensão automática. Minha madrinha, coitada,  é que estava sem grana, mais dura do que anágua de mãe de santo. Eu até a escutei  falando em casa:
-  Dona Ecméia pediu pressa pra entregar o vestido, adora uma bolacha quebrada (4) e só paga Deus sabe quando!
Não deu outra:
- Veja se Nenzinha arruma um dinheirinho pra você ir pra matinê!
Nenzinha era a minha tia Odete, uma criatura incrível e boníssima para os sobrinhos filhos de Jessé e Beline. Ela trabalhava na "Pharmácia Régis" e,no intervalo para o almoço e na saída do trabalho, ia aplicando injeções em domicílio a fim de aumentar a a sua renda.
Com a grana no bolso voltei pra casa a fim de trocar de roupa. Noooova recomendação:
- Veja como é que você vai se comportar; Iaiá teve um trabalho disgramado a fim de engomar esta calça, não vá ficar pegando picula nem se espojando pelo chão! 
O show do matinê começava quando abria a bilheteria. Dona Vivi, tadinha, cercada por todos os lados, ouvia a garotada pedindo aos berros:
- Dona Vivi me dá uma meia! (5)
- Dona Vivi ! Dona Vivi!
E os engraçadinhos mais depravados e bem ensaiados:
- Dona Vivi...
E o outro:
- ada!
- Dona Vivi...
- ada !
Naquele domingo eu fiquei na minha, não queria levar cartão amarelo. Não levei nenhum Gibi pra tocar e evitei chupar picolé do bar de seu Urbano.
Quando terminou a matinê, vim com Tó e outros amigos de infância pela orla fluvial, sentindo aquele cheirinho agradável de maresia das marés de "malço" que os cachoeiranos e sanfelixtas conhecem bem.
Depois que passamos pelo prédio escolar Montezuma, no Jardim Grande, estavam vários meninos atirando uns nos outros cocô de cavalo que havia sido deixado aos montões por um grupo de ciganos que ali acampara Levei um porradão bem no meio das costas!  Então, resolvi entrar na briga enchendo os bolsos de "munição" e...vupt! vupt!   Fui, também, atingido várias vezes...
Esquecí meus caros da recomendação expressa da minha madrinha que estava na porta do sobrado quando eu cheguei:
- Meu Deus ! O que foi que aconteceu ?
E foi logo pegando na minha orelha enquanto eu tentava explicar:
- Foi a guerra, dindinha !
E ela surprêsa:
- Que guerra, menino ?
E eu tentando explicar o inexplicável:
- A guerra de cocô !
DECODIFICANDO O "BAIANÊS"
1 - Baba: futebol
2 - Bangolando: Sem ter o que fazer, atôa na vida. Parece-me ser uma palavra oriunda do africano bangulê, uma dança com sapateados e palmas. 
3 - Volta na próxima: Continuação de um seriado.
4 - Bolacha quebrada ; Pechincha 
5 - Uma meia; meia entrada


  

 



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