sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A HISTÓRIA DE
Os Tincoãs / 3

Não se falava em outra coisa na cidade senão naquela final do programa “Escada para o Sucesso”. Uma das primeiras ajudas efetivas partiu do empresário Carlos Menezes, o amigo “Carlito do Bicho”.
Naqueles idos dos anos 60, sendo governador da Bahia o General Juracy Magalhães, o jogo do bicho não era uma contravenção, como hoje. O governo concedia a autorização a um cidadão de recursos comprovados. A contrapartida era o pagamento de uma cota do que era apurado diariamente para as instituições de caridade. Hoje, o próprio governo da União banca toda a sorte de jogo através da loterias da Caixa.
Carlito era proprietário da Empresa de Transportes Odália, então, Os Tincoãs gozaram da primazia de não pagarem passagens de ida e volta Cachoeira/Salvador.
Chegou,enfim, o grande dia. A gente não tinha a menor noção dos outros concorrentes.. Já no estúdio da TV Itapoan Canal 5, em Salvador,um artista plástico ultimava os seus trabalhos na confecção de mais um painel utilizando-se das várias matizes da cor preta. Não tínhamos a televisão em cores,ainda 
A tinta usada, ou melhor, a cola utilizada nela era de  um fedor danado! Para quebrar o natural nervosismo, virei-me para Heraldo e perguntei: “ Lau, você peidou?!”
 Dadinho estava tenso, preocupadíssimo em não errar nenhum acorde. Sabia da sua pouca prática no manejo do violão pois era canhoto, deficiência que ele superaria algum tempo depois.
O programa não tinha auditório, nada que indicasse uma reação negativa ou positiva do público. Nem mesmo o Corpo de Jurados a gente via.
Na Cachoeira, - soubemos depois -, Ernani Melo colocou na porta da rua do seu Armazém e Bar Imperial um televisor e a praça lotou ! Quase nenhuma residência cachoeirana possuía um aparelho de televisão. Servílio Barbosa (Casas Aurora) aproveitou-se inteligentemente da oportunidade facilitando no crediário e alavancando as vendas.
Na mesma noite saiu o resultado: Os Tincoãs obtiveram o segundo lugar ! Coube às irmãs Cylene e Cynara o primeiríssimo lugar.
A decisão dos jurados não foi unânime. Mesmo sem os recursos jurídicos dos famosos embargos infrigentes, a imprensa baiana se dividiu e a opinião pública ficou com os cachoeiranos.
Alguns argumentos:
  1. A interpretação em espanhol do bolero “El Reloj” não poderia ser acusada de “portunhol” uma vez que, um dos componentes (Heraldo) era filho de um espanhol,seu Aurélio Senra Bouzas,proprietário do Hotel Colombo;
  2. A beleza harmônica entre “as meninas” e os “meninos” dava um empate técnico;
  3. As “meninas” apenas cantavam, não tocavam qualquer instrumento, enquanto “os meninos” se acompanhavam.  Tocar instrumentos  é um complicador a mais, com certeza.
AS “meninas”, com as bênçãos do maestro Tom Jobim e do poeta Vinicius de Moraes transformaram-se no “Quarteto em Cy”. Os Tincoãs, devido ao vínculo empregatício de Dadinho no “Expresso Cachoeirano”, ficou com Carlos Monteiro como “empresário” sem grana para empresariar de fato. Ficaram no semi-amadorismo.
Mas, o programa “Escada para o Sucesso” acabou abrindo as portas para Os Tincoãs para apresentações na PRA4 Rádio Sociedade da Bahia, na própria TV Itapoan e em algumas boates como “O Anjo Azul”, “Cloc” (na Avenida Contorno,uma linda vista para o  mar), “”Dom Quixote” e “Tabaris”.
A “Cloc” e o “Anjo Azul” era gerenciadas por cachoeiranos mas,foi na boate “Tabaris” que eu conhecí Codó, um violonista que fez o que eu nunca vi outro músico fazer: acompanhar a artista que estava cantando e conversando despreocupadamente com o compasso!
Codó e João da Matança disputavam a primazia de ser o melhor violonista da Bahia na época. Codó me disse que João da Matança fazia feitiço contra ele!
Quase todo o final de semana Os Tincoãs tinham compromisso agendado: Club Cruz Vermelha, Bahiano de Tênis, boates etc mas,sob a alegação de terem a “necessidade de se tornarem conhecidos” pouca ou quase nenhuma grana !
Em maio de 1961 pintou um contrato com a TV Itapoan com direito a um cachê patrocinado pelo Balneário Frutos Dias (foto).
A exposição televisiva de fato ocasionou o interesse de clubes de várias cidades em contratar-nos, maioria das vezes com o pagamento de passagens e hospedagens. O argumento vocês já sabem, né? (risos)
Eu anotava tudo num caderno: datas,locais,músicas executadas... Perdi tudo! Lembro-me que estivemos em Candeias, Madre de Deus, Mataripe, Mata de São João, São Sebastião, Catu, Maragojipe, Santo Amaro, Governador Mangabeira, Muritiba, Conceição da Feira e Feira de Santana.
Em Mata de São João (ou Catú, não lembro bem), no dia seguinte depois do show, fomos recepcionados na residência do muritibano Lomba, funcionário da Petrobras (foto abaixo).

Os Tincoãs com o anfitrião em Mata de São João
 Dentre os presentes na casa de Lomba se encontrava o zagueiro Juvenal, titular da seleção de 1950 que perdeu o título para o Uruguai e que,depois de veterano,veio "reforçar" o time do Bahia.
Depois de algumas doses a mais de um uisque cauboi, vi o Juvenal aproximar-se de um limoeiro, apanhar um limão (claro) e mastigá-lo com casca, caroços e tudo ! Crendeuspadi !
Em Maragojipe fomos recebidos pelo doutor Odilardo Uzeda, cachoeirano de nascimento mas, segundo soubemos, não gostava da Cachoeira.O motivo eu desconheço até hoje.
 O show em si na Terra das Palmeiras foi muito participativo. Os maragojipanos sempre receberam os visitantes, sobretudo os cachoeiranos de forma fidalga.
Na comemoração do primeiro ano de fundação da Empresa de Transportes Odália, no dia 21 de abril de 1961, Os Tincoãs se apresentaram em Muritiba (foto abaixo) no Cine Popular Muritibano, presentemente Supermercado Fagundes e na própria Cachoeira onde não cabia mais de gente. 
 
OS Tincoãs em Muritiba, aniversário da Empresa Odália
Carlito, além da gratuidade das passagens da sua empresa, ofereceu um corte de tecido que o alfaiate Tinga, irmão de Dadinho transformou num smoking sob medida. Tinga era um alfaiate de mão cheia.
Um outro terno foi-nos oferecido pelo muritibano Raimundo Coêlho de Souza, gerente do Banco do Brasil em São Félix, radicado na Cachoeira e casado com a professora Glorinha de tradicionalíssima família cachoeirana.
A convite de Raimundo, Os Tincoãs se fizeram presentes num encontro do Lions Clube na Murutuba, zona rural da Cachoeira. Era um churrasco ao ar livre onde já estava rolando muita bebida. Apresentações ao ar livre e rolando bebida... Seria uma experiência nova.
Quando começamos a cantar foi um desastre. Dadinho teve a infeliz ideia de sairmos por entre as mesas... Pra quê?!  Bateram nas cordas do violão, no tan-tan que eu tocava e nas mãos de Heraldo sacudindo as maracas e esculhambando o ritmo! Hoje eu até consigo rir mas, na ocasião fiquei puto da vida. Raimundo não só se desculpou na hora como foi, depois, no “Expresso” se desculpar com Dadinho. Saudades do Raimundo Coelho, um cara muito participativo em tudo na Cachoeira. Faleceu prematuramente. Partiu para o outro lado antes do combinado.
Naqueles dias houve em Feira de Santana uma Olimpíada Colegial e Os Tincoãs se fizeram presentes como estudantes do Colégio Estadual da Cachoeira pois estava prevista uma festa de encerramento no Tênis Clube onde, em dias passados, a consagrada cantora e compositora Maisa Matarazzo havia levado uma estrondosa vaia. A alegação é que ela havia se apresentado completamente embriagada!
A apresentação nossa foi perfeita visto que, passamos a fazer um comercial da Concessionário de Automóveis do empresário Juca Dias,e semanas depois, fomos de fato contratados para fazer parte do show no Cine Timbira cujo astro principal era o consagrado Nelson Gonçalves.



Os Tincoãs no Balneário FrutosDias
Naquele domingo de apresentação do trio na TV Itapoan, recebemos um telefonema do sanfelixta Antônio Mendes empresário do ramo de discos. Mendes possuía uma grande loja no Pelourinho, em Salvador e estaria recebendo na segunda-feira a visita de um representante da Gravadora Continental. Mendes foi enfático: “Venham e tragam os instrumentos porque eu quero que ele escute vocês!”
Antônio Mendes tinha uma irmã que tocava acordon. Ele próprio tinha uma tendência artistica acentuada, contava piadas, fazia imitações e era um bom animador de auditórios.
Na segunda-feira, fomos ao seu encontro. Peerguntei pra ele se ele ainda lembrava de uma festa em São Félix quando ele foi o animador de um programa de calouros na praça Rui Barbosa e eu, ainda de calças curtas, levado pela minha tia Elzelina concorri tocando realejo e ganhei o prêmio. Mendes disse que lembrava,sim,mas,com certeza ele apenas recordava o evento.
Na próxima postagem a gente fala daquele encontro decisivo para o trio.







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