sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A historia de Os Tincoãs/4

Fomos,então,ao encontro do "mangangão" da região Norte/Nordeste da Gravadora Continental na loja de electrodomésticos e discos do amigo Antônio Mendes, no Pelourinho,em Salvador.
Após as apresentações de praxe, sem mais delongas, pegamos os instrumentos para mostrar a nossa arte. Ele ouvia silente. De repente a loja se encheu de gente, gente que prestigiava a cada música com aplausos generosos. De repente ouvi entre os presentes um sujeito falando para o outro: “Já vi estes rapazes cantando na televisão!” O outro respondeu: “Os meninos são bons meu chapa!”
O "mangangão"se pronunciou,finalmente: “Gostei,Mendes!”
Depois da apresentação, na conversa, ficamos sabendo das regras da gravadora: hospedagem no Rio enquanto durassem as gravações; o percentual sobre a vendagem dos discos: escolha de mais alguns músicos para nos acompanhar na gravação; os boleros teriam de ser na versão em português e preferencialmente inéditas; as passagens de ida e volta teriam de ser por nossa conta,e,finalmente,teríamos de levar umas trinta músicas para que o Diretor Artístico fizesse a opção das “mais vendáveis comercialmente”.
Na realidade caríssimos leitores, o repertório do trio não alcançavam as 12 de um elepê normal àquela época. Partimos para a luta, mesmo porque, dois dias depois que retornamos à Cachoeira,recebemos o comunicado de que deveríamos estar no Rio na segunda quinzena do mês de agosto. Faltava um mês,exato!
A notícia da viagem para o Rio e a gravação de um disco passou a ser o assunto que toda a cidade comentava: “Rapaz, Os Tincoãs vão viajar para o Rio de Janeiro e vão gravar um disco!”
Então,platéia,houve uma espécie de mobilização geral. O gerente do Cine Glória, Osmundo Araújo autorizou a realização de um matinal com a renda para o trio, a Desportiva do Paraguaçu realizou um bingo dançaante cuja renda auferida foi de dois mil e tantos cruzeiros antigos.
Com toda a diretoria e falange feminina reunida reverenciando Os Tincoãs, Dadinho, que teve sua proposta de sócio recusada pelo clube, pode compreender que, expressar o seu sentimento cantando, era a única forma de quebrar barreiras impostas pelo preconceito racial.
Conseguimos alguns contratos para os fins de semana, além da TV Itapoan. Na boate Anjo Azul, cujo gerente era um cachoeirano, conheci Evandro Castro Lima, baiano conhecido nacionalmente porque participava dos bailes do Municipal com fantasias de luxo. Era homossexual assumido mas,segundo diziam,era bom de briga. Foi lembrado, inclusive que, em dias passados, ele havia passado pela boate e não pode entrar. A alegação era que 'a boate estava reservada exclusivamente para os marinheiros norteamericanos comemorrem o Dia da Independêwncia deles”, Evandro entrou na marra. Convidado para sair recusou e o pau comeu! Evandro cobriu a porrada na marujada!
A direção da Leitalves estava promovendo uma campanha de marketing a fim de popularizar as cigarrilhas por ela produzidas. O presidente era, também, presideente da Navegação Bahiana. Os Tincoãs foram contratados para participar de dois programas. Ganhamos as passagens de graça no navio José Marcelino que fazia a linha Salvador/Rio de Janeiro.
Naquele tempo, a viagem de navio era a mais confortável, durava “apenas” três dias! Ah, e de ônibus? No mínimo uma semana enfrentando uma estrada esburacada e poeirenta. Vamos, então, de navio, porque já disse o poeta que navegar era ´preciso!
Eu pretendia pedir demissão do meu trabalho da prefeitura no último momento. Na ocasião estava como Escrivão Ad-hoc. O delegado era o ferroviáriio aposentado Ursulino Bras, um homem simples e de coração bondoso. Gostava de usar a palavra “celeuma”, uma espécie de bordão,sobretudo quando surgiam querelas e briguinhas de vizinhos.
Quando fui para o ensaio, Dadinho me chamou no fundo do Expresso onde ele trabalhava para me dizer que, na noite anterior, ele e Heraldo ao passarem pelo brega, acabaram se metendo numa confusão. Acontece que o sujeito foi à delegacia e deu queixa. Não poderiam deixar de comparecer.
Quando eu cheguei nà delegacia eles já se encontravam por lá. Inclusive o queixoso.
Entrei na sala e fiquei esperando o delegado que não demorou. Chegou mascando o seu inseparável charuto e me cumprimentou: “Então seu Escrivão, o senhor vai nos deixar né mesmo? Soube que o trio que você canta com o filho de Totonho Cabeçorra e seu Aurélio do Colombo vai pro Rio. Rapaz... Jessé (meu pai) ía ficar orgulhoso de você”.
Eu disse que os dois estavam na antessala juntamente com um queixoso. “Queixose de quê?” ele perguntou. Então ordenou que entrassem na sua sala enquanto eu limpava a barra dos dois amigos: “Sabe seu delegado; muita gente pensa que a gente aqui fica enfiando peido em cordão, que aqui não se trabalha, qualquer besteirinha trazem pra delegacia!” Ele ouvia calado com o charuto apagado rodando na boca. Lembrei-me da palavra chave: “Qualquer coisinha e ficam arrumando celeuma!” O homem deu um pulo da cadeira e, com dedo em riste foi pra cima do queixoso: “O senhor está criando celeuma? Tá criando celeuma?” E concluiu: “Os dois rapazes podem ir embora e o senhor fica aqui de molho para aprender a não criar celeuma!”
Estamos, já, no início do mês de agôsto. Das musicas vocalizadas e com arranjo se não estou enganado, tínhamos “Tu me acostumaste”, “Serenata”,”Adeus Amor”, “Amargo Regresso”, “Sabe Deus”... Ah, eu tinha escrito uma letra para “Le Lac de Come” e sabia uma versão feita para o “Nocturne de Chopin – Op 9 n° 2” Ambas não foram gravadas. Ultimamos o cha-cha-cha “Lua de Mel em `Porto Rico” e a versão de “Meu último bolero” com a providencial ajuda do fotógrafo Manolo.
Naquela ocasião o trio Los Panchos lançou um bolero muito bonito chamado “La hiedra”:
Passaro desde aquel ayer/Ya tantos años/Dejaron en sus gris correr/Mil desengaños/ Mas cuando quiero recordar nuetro pasado/Te siento cual lá hiedra ligada a mi.../Y asi hasta la eternidad te sentirê”...
A letra,enfim,era de facílima tradução. O que pegava era a tal de la hiedra. Que diabo seria la hiedra? Não tínhamos as facilidades da Internet de hoje. Heraldo pediu socorro ao espanhol Araújo, casado com uma tia sua . No ensaio ele surgiu com a novidade: “Araújo disse que era uma espécie de viado!” Cai na gargalhada e cantei a versão: “mas quando quero recordar nosso passado, te sinto como um viado!!!”
Hiedra é a nossa conhecida “Era”, uma planta trepadeira.
Finalmente, galera, chegou o grande dia. Na véspera saimos da Cachoeira porque tínhamos, ainda, uma aapresentação da TV Itapoan.
Depois do programa um Opala do ano nos aguardava, na Federação, para uma apresentação na mansão de Agenor Pita Lima que explorava o jogo do bicho em Salvador. Acompanhava o trio uma rencada de cachoeiranos que sempre aparecia onde quer que a gente se apresentasse.
OS TINCOÃS VIAJANDO PARA O RIO
Na mansão de Pita Lima estava a linda moça chamada Ylma Gusmão que tentava a vida artística. Já havia se apresentado inclusive na parça Inácio Tosta em São Félix,num evento em frente ao Bar Antartica. Tinha beleza para ser atriz de telenovela mas, não existia.ainda,novela na televisão.
Não sei quanto foi a contribuição que Agenor Pita Lima deu para ajudar-nos na viagem.
Dia seis de agosto de 1961, o “José Marcelino” deixava o cais de Salvador com destino ao Rio de Janeiro (foto)
Rapaz, o mar tava brabo! Seria uma festa para os surfistas atuais.Só em pensar enquanto estou digitanto cheguei a ficar mareado! Vou tomar uma aguinha. Não é vapt! Vupt! Mas a gente volta.
Bom “finde” e obrigado por acompanhar a noss história.


Um comentário:

  1. Ola gostaria saber em qual album foi gravado Lua de mel em porto rico .
    muito obrigado!
    abraços!

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