sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A historia de Os Tincoãs/5

Contrariando o poeta Luiz de Camões que em seu poema épico “Os Lusíadas” asseverou que “navegar era preciso, viver não era preciso” eu precisava era viver para antes navegar naquela travessia oceânica viajando ou melhor, flutuando em mar aberto num navio pequeno.
O meu mal-estar variava entre vômitos e diarreia. Dadinho e Heraldo estavam bem. Monteiro então, acostumado a viajar diariamente na linha Cachoeira/Salvador estava alegre e fagueiro.
Corri para o WC. Cuja porta abria e fechava como aquelas de filme de bang-bang. E eu, aflito, não sabia se segurava as calças, se fechava a porta de filme de caubói...
Ao retornar para a cabine, dentro de alguns minutos apareceu um médico e eu me lembrei de que era portador de uma carta do padre Fernando para ele. Ele abriu o envelope, sorriu para mim e comentou: “Fernando é meu primo!” Então, ele prescreveu uma medicação chamando uma enfermeira. Quase nenhum médico sabe ou quer aplicar injeção ! Da segunda carta estarei me reportando depois

No segundo dia de viagem, embora com a pele na cor de um asiático, tudo transcorria muito bem. Não estava sentindo mais nada, nem mesmo os balanços do navio. Tiramos fotos, apreciamos a beleza do azul do céu juntando-se com o mar, os botos que começaram a acompanhar o navio nadando próximos à proa, afastando-se, depois.
Fundeamos em águas do Rio de Janeiro na madrugada do terceiro dia de viagem. Víamos as luzes da Cidade Maravilhosa brilhando como luzes das árvores do natal. Alguém a bordo informou que estávamos mais próximos de Cabo Frio. Pude aquilatar, então, que o nome justificava-se plenamente. Nunca senti tanto frio na minha vida!
Em terra firme , fomos recebidos por um diretor da Gravadora Continental que nos levou até o luxuoso Grande Hotel São Francisco, que ficava na Rua Visconde de Inhaúma, uma transversal da Avenida Rio Branco, onde ficava o estúdio de gravação da empresa.
O contrato que assinamos previa a gravação anual de um elepê, caso fosse de interesse da gravadora; que a nossa gravação seria através do selo MusiColor; que teríamos alguns músicos já contratados para suporte. A rigor, já havíamos combinado que seria necessário contarmos com um outro músico de cordas (Jacob do bandolim ou Waldir Azevedo), um baixista e um percussionista para tocar bongô e tumbadora. O cavaquinho de Waldir foi o escolhido.

CAPA DO DISCO ORIGINAL

No estúdio, travamos o primeiro contato com Waldir Azevedo. Ele já era um músico consagrado mundialmente, suas músicas, os chorinhos “Delicado” e “Brasileirinho” estouravam nas paradas musicais. Mas ele era uma simpatia de pessoa. Retirou o cavaquinho da capa e começou a fazer aquelas variações maravilhosas de improviso, parecendo que nos acompanhava desde os primeiros ensaios no Hotel Colombo.
O percussionista foi Rubens Bassini, tão bom que, ao término das gravações, viajou para os Estados Unidos para fazer parte da orquestra de Sérgio Mendes.
O diretor artístico era o famoso compositor Braguinha que se assinava “João de Barro”. A minha tia Iazinha que era professora de piano tinha várias partituras com valsas, sambas e marchinhas de carnaval da autoria dele que também é autor da letra de “Carinhoso” em parceria com o mestre Pixinguinha.
Braguinha solfejava uma marcha de sua autoria: “Ô, ô,ô,ô, lancha nova no cais apitou / e a danada da saudade no meu peito já chegou !” Waldir dedilhava “O Passo do Elefantinho”, seu grande sucesso, na época. De repente Braguinha chamou a atenção de Waldir e a minha também, claro, quando lembrou que estava no Maracanã na Copa de 50 e a seleção brasileira aplicou uma goleada na seleção da Espanha. O público de mais de cem mil pessoas, como por encanto, passou a cantar um antigo sucesso carnavalesco dele: “Eu...fui à touradas em Madri...” E ele arrematou: “Waldir, eu estava acompanhado da minha filha e não contive o choro. Chorei convulsivamente. Um sujeito desdentado que estava sentado perto de mim falou zangado: espanhol filho da puta, vai chorar na casa do chapéu!”
De repente chegou o maestro Britinho. Sugeriu a inclusão de “Viagem ao Infinito”, (uma versão de sua autoria), e uma música inédita chamada “Sem Ninguém” de sua autoria com letra de Fernando César. As duas músicas acabaram sendo incluídas no disco.
Estava agendado para aquele dia um encontro com o jornalista cachoeirano e ex-deputado Constituínte Manoel Paulo Filho. Era para ele a segunda carta recomendação que eu levava. Era uma carta feita por Alberto Bastos, antigo correligionário e comerciante do ramo de calçados da Cachoeira.
Paulo Filho, diretor do jornal Correio da Manhã, o mais importante jornal carioca da época, nos recebeu em seu gabinete. Primeiramente quis saber das coisas que estavam acontecendo na Cachoeira, seu amigos (alguns já falecidos), que conheceu o meu pai, Jessé, Totonho Cabeçorra (pai de Dadinho) e seu Aurélio do Colombo,(pai de Heraldo). Também conversou com Monteiro, sobretudo sobre o pai dele, Alvinho Monteiro. Finalmente, disse-nos que estava mandando parte da sua biblioteca através da ferrovia Leste Brasileiro para a biblioteca do Ginásio da Cachoeira. No dia seguinte, o jornal destacava: “Baianos invadem o Rio !” Com fotografia e tudo!
Estamos, já,no “Dia D”. O técnico veio testar o microfone pois um dos canais não estava funcionando. Era apenas um microfone e a gente se posicionava da forma de sempre. Ele comentou que estávamos tão harmonizados que não havia necessidade de aumentar ou diminuir um dos canais.
A música escolhida foi “Meu Último Bolero”. Waldir improvisou a introdução e nós começamos a cantar. O técnico interrompeu dizendo que estava sendo detectado um ruído esquisito: era Monteiro passando as páginas do jornal que ele estava lendo !
Enfim, sem mais interrupções, concluímos a gravação de primeira ! Rapaz...quando nós ouvimos as nossa vozes com aquele acompanhamento ficamos de boca aberta. Não era que a gente tinha mesmo algum talento?

NA FOTO EU APAREÇO DANDO MAL EXEMPLO DE TABAGISTA

Na próxima a gente fala da estada nossa no Rio.

Um comentário:

  1. Quantas saudades dos Tincoãs, Heraldo, Dadinho e Erivaldo Brito. O Matheus Aleluia acho que veio depois, Ouço muito falar sobre Matheus Aleluia e dos seus shows no Pelourinho.

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