sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A historia de Os Tincoãs/6

Nem bem havia começado as gravações, surgiu um pequeno problema: nenhum de nós era filiado à Ordem dos Músicos ! A solução foi rápida e caceteira; filiamo-nos.
As gravações transcorreram normalmente. Os arranjos vocais que fizemos até para músicas inéditas foram elogiadas pelo maestro e por Waldir Azevêdo.
Sugeri para que Heraldo fizesse o solo de “Amargo Regresso” e ele saiu-se muito bem. Além de fazer uma segunda voz muito segura, Heraldo poderia, sim, fazer o solo de outras canções, enquanto eu e Dadinho faríamos algumas variações vocalizadas. Isso não traria nenhum prejuízo, não obstante Dadinho ter mais experiência vez que, era crooner do Conjunto Melódico Parguaçu substituindo Mequinho, um excelente intérprete solo.
Terminado o período das gravações, a Continental concordou em pagar mais um mês de hospedagem no Rio. Pelo valor liberado, (não esqueçam que éramos quatro, contando com o “empresário” Carlinhos Monteiro), tivemos de procurar um hotel mais barato. Fomos parar no Hotel Globo que não era superior ao Colombo do pai de Heraldo. O Hotel Globo ficava na Lapa, local da boémia carioca como continua sendo até hoje. Lembro-me que, junto ao hotel, exista a fábrica da Cervejaria Antárctica.
Monteiro conseguiu dois contratos de breve temporada: o primeiro numa boate que eu não guardei o nome. Ficou apenas um episódio curioso: logo na primeira noite, assim que entramos na boate, Dadinho ficou impressionado com um afro descendente tocando saxofone tenor. Falou espantado para mim: “Magnata (ele gostava de chamar os amigos assim): Não é possível, magnata, aquele cara tá tocando igualzinho ao Bob Fleming !!!!
Deu-se um intervale e ele aproximou-se do músico, um sujeito tranquilão e muito simpático. Dadinho se apressou: “ Rapaz! Eu tenho um disco de um saxofonista americano (foto) que você imita igualzinho!!!
O músico abriu o maior sorriso deixando à mostra uma dentição perfeita, dizendo a seguir: “Sou eu mesmo! Meu nome é Moacir Silva. O meu produtor disse que se eu usasse o meu nome e a minha foto o disco iria encalhar, por isso criou o nome artístico de Bob Fleming. Coisas de brasileiro”.(foto)
O segundo contrato foi para figurarmos num musical tipo chanchada no Teatro Jardel que ficava na Avenida Atlântica em Copacabana.
O diretor musical era o conhecido compositor João Roberto Kely, autor de “Praça Onze”, “Cabeleira do Zezé” e “Se a canoa não virar”, dentre outros sucesso carnavalescos, se bem que, na época, estava estourando nas paradas de sucessos com a música Boato na voz de Elza Soares: “Você foi a mentira que deixou saudade / Todo boato tem um fundo de verdade...”
Kely era um sujeito muito legal. Tornou-se fã de Os Tincoãs. Ria quando eu o achava semelhante fisicamente com o pintor conterrâneo Dante Lamartine. Ele escolheu a música Serenata e fez uma versão para a sua marcha rancho Praça Onze que sei cantar até hoje.
A parte humorística estava a cargo de um comediante famoso, na época: Colé ! Tio de Dedé Santana (do grupo Os Trapalhões), Colé contava piadas e fazia uma paródia abordando temas da atualidade que o público correspondia com sonoras gargalhadas.
Conversei com ele que eu poderia escrever uma introdução para mexer com o emocional da platéia e ele consentiu. Fundamentalmente Colé deveria se apresentar cabisbaixo, trôpego, cara triste...Ao se aproximar do microfone ele deveria falar compassadamente, voz embargada, dizendo que o papel de comediante era muito ingrato, porque nem sempre o que transmitia era o que trazia no seu íntimo. Dizia, então, como corolário o seguinte: “Tenho uma notícia de fôro íntimo para comunicar aos senhores: eu vou cantar!!”
Como tínhamos as manhãs livres, fomos conhecer os pontos turísticos da cidade (foto no Cristo Redentor) 
sem descuidar de arrumar um outro local porque o disco finalmente saiu e a gente passaria a se manter por conta própria. A Continental não moveu uma palha no sentido de marketing. Consideraram que um artista que tem um disco gravado tem as portas abertas para o mercado. Lêdo engano. Se a vida artística fosse fácil desapareceriam os cantores de banheiro.
Mudamo-nos para uma “República” de uma senhora portuguesa na Rua dos Andradas, uma verdadeira Torre de Babel com gente (rapazes) do Brasil todo!
Voltem na próxima! Bom “finde” para todos.


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