quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A historia de Os Tincoãs/7

  Quando me propus a escrever sobre a formação original de Os Tincoãs, de como tudo começou, estava plenamente consciente de que estava fazendo uma autobiografia. Com os dois companheiros já falecidos, a minha liberdade de expressão esbarrou na privacidade e no respeito à memória deles.Posso asseverar para vocês, sem nos aprofundarmos em detalhes mundanos, guardadas as devidas proporções, sem sermos um Justin Bieber da vida, as garotas faziam de tudo para namorar a gente. É verdade que as moças do meu tempo não davam. Algumas encubadas davam,sim, no entanto, jamais fizemos orgia, sexo grupal, drogas, homossexualismo etc. Quando a Gravadora Continental deixou de arcar com as nossas despesas de hospedagem no Hotel Brasil, fomos nos alojar numa “república” para homens num sobrado de dois andares e um terraço amplo, no final da Rua dos Andradas. A proprietária era uma senhora antipática de origem portuguesa.

Naquela “república” residiam cerca de trinta rapazes de várias partes do Brasil que vinham tentar a sorte no Rio de Janeiro. Um alagoano de nome Ruberval e um outro do Piauí chamado Brígido formado em contabilidade eram os dois mais próximos.
Ruberval certa feita apareceu com uma carteira de cigarros da China. Dadinho se interessou. Eu pensei que, quem sabe, pudesse adquirir um realejo moderno.
Era noitinha quando fomos até a praça Mauá. Fomos andando porque a “república” ficava pertinho.
Em lá chegando, vinham pela calçada dois marujos cujo navio estava fundeado na baía da Guanabara. Ruberval os cumprimentou num inglês caricato com sotaque nordestino parecendo o comediante Falcão.
De repente meus amigos,tchan,tchan,tchan ! Saindo do nada, apareceu um fusquinha preto com aquela luz vermelha piscando no teto e a tenebrosa sirene; era a polícia!
Mostramos a Carteira de Ordem dos Músicos e do nosso interesse de intercambiar cartões postais, não havia nada de contrabando. Como a Rádio Nacional estava ali pertinho, a região era frequentada por artistas, o gentil policial liberou-nos porém, com o “desconfiômetro” de todo o policial, acompanhou-nos à distância com as luzes apagadas, até à entrada da “república”
O outro amigo mais chegado, o Brígido, era formado em contabilidade. Rapaz...o cara era o sósia prefeito do ex-presidente da República General Eurico Gaspar Dutra! Feio pra cacete! Mas tinha o coração bondoso. Tinha um apetite da zorra porém o seu paladar era nulo a ponto de não reclamar o açúcar que a gente colocava no resto de feijão e sal no doce de abóbora e ele vupt! E nem chiava!
Finais de semana na “república” era um drama. A proprietária fechava a porta de entrada do salão de refeições que dava acesso aos banheiros. Sem que houvesse combinação prévia, o mictório passou a ser os vasos de planta que ela tanto amava. Enquanto isso, providenciaram cópia da chave e a portuguesa não teve outro jeito senão deixar a porta da copa aberta com o cuidado de cercar a geladeira com correntes grossas e quatro cadeados Pado que nem o famoso mágico Houdini abririam!
Os nossos finais de semana, quando não tinham apresentações, começaram a ser preenchidos com convites dos conterrâneos radicados no Rio. Estivemos em várias residências. Lembro-me que passamos um domingo na casa da família de China, funcionário dos Correios da cidade de São Félix. Carlinhos Monteiro foi noivo de uma irmã de China quando ela foi telefonista em São Félix. Matamos a saudade da boa feijoada baiana.
Outra visita muito agradável passamos no seio da família Estrela. O patriarca, Arlindo Estrela, de boa memória, recordava da Cachoeira, dos seus amigos, da sua padaria que levava o nome da família e onde ele mandou colocar uma estrela no passeio.
O velho Arlindo falou de um filho que não estava presente: Edgar ! Um cachoeirano que foi o primeiro a regulamentar o trânsito da Cidade Maravilhosa.
Margarida Duarte, lembrou-se dos tempos em que ela cantava no coral da igreja da Matriz e cantou ladainhas e tantum ergo porém,quando quis cantar a Jaculatória de N.S.do Rosário a voz embargou e ela se debulhou em lágrimas.
Lembro-me também que foi abordado na ocasião a doação do Solar Estrela para a Paróquia da Cachoeira o que efetivamente ocorreu.
A convite de Waldir Azevedo e para divulgar o disco, fomos a um programa que ele tinha na Rádio Mundial que ficava na Rua Chile, uma transversal da Avenida Rio Branco.
Fui apresentado e bati um papo com o dono da emissora Alziro Zarur, fundador da “Legião da Boa Vontade”
De baixa estatura, fala mansa, olhar penetrante, fiquei com a impressão de que estava tentando adivinhar os meus pensamentos. Ainda bem que ele não conseguiu porque em dado momento eu fiquei pensando que, na Bahia, a turma chamava a kombi de “Jesus está chamando!” frase que ele sempre pronunciava em seus programas de evangelização.
Estivemos num programa de grande audiência da Rádio Globo (FOTO) 


e no maior programa de auditório do Brasil na ocasião: o “Programa César de Alencar”!
CESAR DE ALENCAR
No referido programa cantamos o bolero “Dolores”, de Jair Amorim,que estava em segundo lugar nas paradas de sucesso.
Naquele programa, nos bastidores, presenciei Elen de Lima ficar puta da vida com Orlando Dias, (“minha serás eternameeente/ será só teu o meu amor”) um sujeito cheio de pantomina que a beijou na boca quando ela entrou no palco!
VICENTE CELESTINO

Vicente Celestino conversava com João Dias, um cara que apareceu imitando Francisco Alves. O autor de “O Ébrio” falava entusiasmado com a reação do público cachoeirano onde esteve se exibindo em duas sessões!
E prosseguimos no lobby, “catituando” como se dizia antigamente o disco. Numa tarde, fomos nos apresentar no Country Club para um grupo de mulheres norte-americanas com ajuda de um intérprete. Era uma apresentação chamada de “preliminar” porque o artista principal era Jorge Veiga
Quando eu era menino cansei de ouvir Jorge Veiga, chamado de “o caricaturista do samba” cantando nos alto-falantes de “A Voz da Cachoeira”. Tê-lo ali ao vivo, parecia um sonho. Ele era simpaticíssimo. Contou-me que, havia se apresentado certa feita em Nova Friburgo no Sanatório Militar, uma unidade para internamento de pessoas que sofrem de qualquer deficiência respiratória. Os promotores do show ficaram preocupados porque não tinham contratado um apresentador. Jorge Veiga então falou: “Não se preocupem, eu mesmo me apresento!”

Quando as cortinas se abriram ele atacou como de praxe: “Atenção aviadores do Brasil! Vós que estáis voando nos céus do Brasil ! Aqui quem vos fala é Jorge Veiga direto do Galeão” e coisa e tal. E ao terminar o blá-blá-blá ele se dirigiu ao público presente: “Boa noite senhores tuberculosos!” Foi uma silêncio danado. Ele fingiu que não havia dito nada e começou a cantar.
Naquela “preliminar”, sabendo de antemão que era para um público estrangeiro, programamos “Adeus Amor” (uma adaptação de um estudo de Chopin), “Serenata” (tema de Schubert) e, para finalizar, “Sobre o arco-íris” (Over the Rainbow) muito aplaudido e bisado porque a melodia por demais conhecida porque fazia parte da trilha sonora do filme “O Mágico de Oz” estrelado por Judy Garland. Acertei em cheio.
Aproveitem o final de semana prolongado mas não deixem de acessar o nosso blogger.

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