sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A historia de Os Tincoãs/8


A boa notícia do início da semana era que a temporada de encerramento das atividades do Teatrinho Jardel iria prolongar-se um pouco mais. Estava, pois, garantida a grana para pagamento das mensalidades na “república”. Éramos quatro, afinal, Carlinhos Monteiro apesar do esforço, da boa-vontade e da pose de empresário, era calvo e andava de terno,não dispunha de grana para de fato empresariar, promover uma viagem do trio ao exterior como havia acontecido com o Trio Irakitan.
Os Tincoãs na Rádio Globo. Monteiro de terno e gravata.
No Teatrinho Jardel, um dos integrantes da equipe tirado a compositor andava importunando Dadinho. Esse é um tipo de problema que todos os artistas enfrentam e têm de administrar.
Enquanto Dadinho estava afinando o violão ele atacou: “Solta um Ré grande ai, baiano !” E começou a cantar a sua nova composição:
Só no bambolê / É no bambolear / Menina me diga se é no bambolê / Que você mexe todo o dia / Dia e noite sem parar./ Na praia de Copacabana / Minha nega me chamou pra ver o bambolê / Meteu-se dentro do troço / E a dona do troço zangou pra valer / E uma turma de curiosos fez logo uma roda / E aplaudiu como o quê / Só no bambolê / É no bambolear...” (etc)
O compositor chamava-se Pedro (não lembro mais de que) e morava na Mangueira. De tanto insistir, e como ele providenciou um carro, lá fomos nós até lá certa noite depois do espetáculo. Recebemos um tratamento especial e, no meio de sambistas, cantamos os nossos “bolerins” sob o olhar atento de um senhor com um nariz de coloração esquisita a que Dadinho comparou com o do flautista Menininho, que nos acompanhava no Coral do Monte, filho do maestro Tranquilino Bastos. O cidadão era o Cartola! (foto acima
Devido à recepção ao que sugerimos que o comediante Colé (foto ao lado),  fizesse em cena, ele próprio perguntou-me se tinha uma outra ideia. Disse pra ele que poderia fazer alguma coisa. No dia seguinte levei o script e ele aprovou. Era mais ou menos assim:
A cena se desenrolava num consultório médico. Os personagens era ele (doutor Cláudio) e uma atriz boazuda de nome Cláudia (a enfermeira Cláudia) que nutria por ele uma paixão enorme mas ela a tratava com o maior respeito: “dona Cláudia!”
Aquele mulheraço de um metro e oitenta, popozuda, rebolante e ele “dona Cláudia “ pra lá, “dona Cláudia” pra cá...
De repente ele sai de cena com uma recomendação:
- Dona Cláudia, a senhora manda buscar o prontuário, telefona para o laboratório pedindo os exames e apronta os atestados que tenho de assinar
E ela cheia de charme:
- Xá comigo doctor !
Logo depois ela se dirige ao público:
- Meu Deus, sou gamada por esse homem e ele nem tchum ! Não tenho ideia do que possa fazer para chamar a atenção dele...
Ai uma pessoa do teatro infiltrada no meio da plateia gritava:
- Tira a roupa !
E ela incentivando o apelo e fingindo inocência:
- Vocês acham que vai dar certo ?
Aí a plateia vinha abaixo:
- Tira a roupa! Tira a roupa! Tira a roupa!
E ela manhosamente começava a fazer o que as mulheres sabem fazer muito bem, ao som de uma música francesa. E ia tirando peça por peça, sem pressa até ficar apenas de calcinha e sutiã. E a turma querendo mais!
Quando terminava o strip, Dr. Cláudio (Colé) entre em cena cobrando as tarefas da enfermeira sem perceber que a moça estava quase despida. E ela vai forçando a barra, anda em volta dele, rebola, senta-se à mesa, cruza as pernas retira os óculos, balança a cabeça e ele a interrompe?
- Dona Cláudia!
E ela virando-se para a plateia:
- Até que enfim, graças a Deus!
E ele com voz de gay :
- Como a senhora ficou diferente sem óculos !
A participação de Os Tincoãs no espetáculo era cantar o bolero Serenata,e, ao final do espetáculo, junto com todo o elenco, cantar uma nova versão de Praça Onze, feita pelo próprio autor, João Roberto Kely (foto):
Esta é Bananal do Tito Manso / De exaltar eu não me canso / Terra boa como o quê / Venha, que Bananal fica tão perto / Espera de braços abertos / Uma visita de você / Aqui não passa avião / Aqui não passa lotação / Aqui é sempre carnaval / Pois a alegria é geral !”
Alguém teve uma ideia e lá fomos nós procurar o comediante Zé Trindade, baiano de Maragojipe. Parece-me que foi na Mayrink Veiga. Era um programa de variedade ao vivo. Fiquei impressionado com o potencial vocal de Jamelão (foto) cantando “Folhas Mortas” acompanhado pela orquestra regida pelo maestro Cipó.
Depois do show, encontramo-nos com o comediante Zé Trindade. Ele comentou que estava concluindo os trabalhos ´para inaugurar um restaurante de sua propriedade e cuja especiaria seria comida baiana. Se a gente quisesse aparecer pra dar uma canja...
Em busca de apadrinhamento, encontrei-me com os rapazes do Trio Nordestino que também havia gravado um disco: “Na Bahia tem / Inaugurou já tem / Televisão de baiano / Não é janela de trem!” e mais; “Tu tá cumeno vidro? / Não, pai, tô chupando pedra d'água...”
Eles me disseram que foram procurar Luiz Gonzaga e o rei do baião foi curto e grosso: “Meu filho: estou procurando quem me ajuda!”
O comediante Zé Trindade
A vida artística, gente, embora pareça fascinante, o cara tem de ralar e ter uma boa dose de sorte. Sou testemunha de muita gente de talento que não foi pra canto nenhum.
Na volta a gente conta como conhecemos Hebe Camargo (que não dava selinho, ainda) na extinta TV Tupi, o diretor artístico Gilvan Chaves, a TV Continental e o “Almoço com as Estrelas”.

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