sexta-feira, 1 de novembro de 2013


MEMÓRIA
O Terno das Críticas

CAPA DO LIVRO DE CACAU NASCIMENTO
Os que testemunharam ou participaram vão balançar a cabeça concordando comigo, enquanto a galera dente de leite vai ficar sabendo que, durante os festejos de Nossa Senhora da Ajuda saia às ruas da cidade, no último dia dos embalos, o “Terno das Críticas” , cujos autores intelectuais eram o locutor que vos fala e o saudoso professor Renato Queiroz.
Renato lecionava no Colégio Estadual da Cachoeira, era professor do idioma francês, dotado de uma inteligência incomum além de uma cultura geral de causar inveja. Era, também, de uma mordacidade incrível. Adorava brincar com a polissemia vocabular, com as palavras de duplo sentido, trocadilhos e jogos de palavras. Eu dava os meus pitacos e ele aprovava sorrindo. Aprendi muito com ele enquanto fazia as charges para ilustrar as tabuletas.
O terno saía do Bar O Sucesso de Dadinho e como foram várias as vezes, sem obedecer a ordem cronológica, vamos relembrar algumas:1) O prédio escolar Ana Nery encontrava-se em completa ruína. Na charge com o desenho da referida escola o seguinte dístico: Ontem heroína, hoje é ruína !
2) A CIMPASA, uma empresa de beneficiamento da mandioca, construiu em Belém, um tanque de água na empresa com um tubo de sustentação de fino calibre. Todo mundo que passava dizia: Vai cair quando encher de água ! E não deu outra. A charge com um tanque (com boca tremendo e rosto assustado) trazia a seguinte frase: “Me segura senão eu caio!”
O mais curioso é que alguém, na saída do terno,entregou a um mascarado a referida tabuleta e o dito cujo era Laudílio Melo,diretor da empresa.
3) Manoel da Silva Lobo, então gerente da Companhia de Energia Elétrica da Bahia, promoveu na quadra do Montezuma uma festa inesquecível reunindo o Cuba Jazz e o Gwelpan Bossa (falaremos deste grupo na história de Os Tincoãs). Por algum motivo que desconhecemos, houve um pequeno desentendimento na portaria entre Manoel e Nelson, ambos Lobos embora não parentes. Como o critério era de não perder a piada, a tabuleta exigia dois lobos num ringue de boxe e a legenda: “Proibiram as brigas de galos. E a de Lobos?” Renato não saía no terno. Ficava aguardando a saída em frente ao Bar de Dadinho com um cigarro na boca e o palito de fósforo sendo esfregado nas mãos. Aproximando-se dele, o amigo comum Gildo Lobo disse-lhe que teve ímpetos de tomar a tabuleta e rasgar. O professor Renato olhando para ele disse o seguinte “Erivaldo pensou a mesma coisa, então pintou uma réplica numa placa de zinco da Coca Cola!” Claro que foi mentira!
  1. Uma turma de formandas do Ginásio resolveu comemorar as diplomações com um piquenique na fábrica de dendê da Opalma, no Iguape. Algumas mais assanhadinhas resolveram tomar banho numa queda de água. Como não tinham levado roupa de banho o jeito foi banharem-se com as roupas íntimas. A charge erótica continha a frase: “O piquenique da Opalma não deu dendê !”
No “baianês” não dar dendê é não deu problema.
  1. O prefeito era Julião Gomes. Com aquele coração bondoso não negava a rural da prefeitura a ninguém, sobretudo para a primeira dama, minha madrinha,Laura. Na ocasião, Nelson Gonçalves fazia muito sucesso com a música “A Deusa do Asfalto”. A piada já estava pronta: o desenho de uma rural com a chapa da prefeitura rodando no asfalto e o dístico “A deusa do asfalto”.
  2. Foi feita uma denúncia de que havia desaparecido um anjo do altar lateral da Igreja da Ordem Terceira. Denúncia comprovada. O desenho com um anjo voando do altar e a inscrição: “Na falta de anjos de 1ª e 2ª ordem, levaram o anjo da ordem terceira!” Foi recolocado no altar no dia seguinte em que o terno saiu às ruas.
  3. Depois de empossados e participado de algumas sessões da Câmara de Vereadores, Francisco Silva (o Chico da Padaria) e Alexandre (cobrador da Desportiva)tiveram o mandato cassados. Dois bonecos em frente à prefeitura com os balões contendo as seguintes legendas: “Chi, com essa lei perdemos a colher de chá!” O outro respondia apontando: “Está ali, Xande!'
Como não poderia deixar de ser, muitas da curtições eram envolvendo coisas da vizinha cidade irmã de São Félix. Coisas como “São Felix já tem rodoviária,agora só falta Papai Noel dar os carros!”
O velho e saudoso poeta Luiz Gonzaga Dias nas páginas do seu “Correio de São Félix” minimizava as vitórias da seleção de futebol da Cachoeira no campeonato Intermunicipal que tinha como um dos artilheiros Alberto Reina, Bebeu, nascido na referida cidade.
Para que haja um melhor entendimento,observamos o seguinte: a letra S (esse) no Nordeste tem o som de (si) e o R (erre) tem o som de (rê )!
A tabuleta com um sujeito fumando um cigarro com uma piteira e usando um bonezinho (como Luiz sempre andava) estava o seguinte:
É U. Q. A
É. U. Q. S (si) V
U. P. T. R (rê)
A. S (si). D. R (rê) T !
Já ia esquecendo: o poeta detestava ser chamado pela alcunha de Luiz PETERÊ !
A minha saudosa amiga Zilda Brito, funcionária da Caixa Económica Federal da Cachoeira, encontrando-me na rua foi falando queixosa:
  • Xará ! Seu terno fica esculhambando a minha terra!
Eu evitava fazer qualquer comentário depois que o terno recolhia mas, não poderia deixar de esclarecer a ela que a brincadeira era preferencialmente com a coisa pública e só se brinca, afinal, com quem a gente gosta.
E como ela continuava irredutível, lembrei que muito pior é um chamado “Terno do Barricão” que sai nos festejos de Senhor São Félix com o nome em letras garfais das senhoritas que não casaram. O nome dela era um dos !
As interpretações das críticas nos preocupava bastante. Certa feita, Jorge Freitas, o saudoso Jorge da Arara apareceu de última hora. As tabuletas tinham sido distribuídas. Como ele estava com uma saia muito rodada e tinha colocado dois balaios presos no seu traseiro, escrevi o seguinte com um desenho de uma caveira e dois ossos entrelaçados: “Perigo; 100 mil volts!”
No dia seguinte alguém comentou com ele o seguinte:
- Jorge, aquela com a professora Dedé Onofre estava ótima !

Nenhum comentário:

Postar um comentário