segunda-feira, 11 de novembro de 2013

OS TROTES
NA DÉCADA de sessenta, crianças, eram apenas poucas dezenas de telefones instalados na cidade da Cachoeira, na Bahia, que funcionavam da seguinte forma: o sujeito retirava o telefone do gancho, pegava a manivela e...vruummm! Vrummmm! Quem atendia era uma telefonista. Na realidade era ela quem fazia as ligações que eram tão demoradas que se fossem para Muritiba, por exemplo, era melhor pegar a Marinetti (microônibos) de César Surdo.
Além das “linhas cruzadas”quando a gente ouvia duas pessoas conversando, algumas ligações não escutava nada. Se a ligação fosse para a vizinha São Félix, se os interlocutores falassem alto, era só correr para a orla. Com a propagação das águas do rio Paraguaçu, com um certo esforço, fava para se ouvir perfeitamente.
Sabe, galera, já naqueles tempos existiam os zoadores que adoravam fazer os outros de bobo, pegavam o telefone para passar trote. As vítimas prediletas eram os comerciantes da praça.
O espanhol Aurélio Bouzas, pai do meu saudoso companheiro de Os Tincoãs, Heraldo, era de uma irritabilidade e impaciência conhecidas de todo o mundo na cidade. Lembro-me, por oportuno, que o saudoso Didi da Bahiana o imitava nos shows que fazia e o público caia na gargalhada.
Certo dia, estando no seu Hotel Colombo, de onde raramente saía, quando o telefone tocou?:
  • Seu Aurélio?
  • Si !
  • É seu Aurélio do Colombo?
  • Yo dixe no? Yo dixe si, SI !
  • O senhor tem sardinhas em lata?
  • Si! Tiemos.
  • Solte as pobres da bichinhas, marvado !
De outra feita:
  • Seu Aurélio, penico de barro dá ferrugem ?
  • Pergunta a su madre que es una puta mijona !!!!
E batia o telefone encerrando a ligação com um conhecidíssimo palavrão genuinamente brasileiro: “Pueira !”
Eram quase dez da matina e cinco trotes com a mesma pegadinha sem graça quando Jorge Carteiro (dspois Jorge da Arara) apareceu entregando a seu Aurélio um monte de correspondência. Uma epístola em ´particular chamou a sua atenção; era de Pontevedras, na sua Espanha, onde ainda moravam alguns familiares. Aquela carta, enfim, veio alegrar o seu coração. Saiu do balcão e como a sua residência era contígua ao hotel,com a carta em punho foi pelo passeio assobiando para a sua esposa. Já em baixo da janela ele falou:
  • Nicinha ! Ô Nicinha!
Quando dona Nicinha apareceu na janela, naquele exato momento, o serviço de alto-falantes Vozes da Primavera começava a sua “primeira programação do dia” E ele aumentando um puco a voz:
  • Nicinha! Recebi cartas de Espanha...
E ela,coitada,devido o alto-falante não conseguia escutar:
  • O quê?
  • Recebi carta...
  • Recebeu o quê?
E ele já irritado começou a gritar:
  • Recebi cartas. Mandaram beijos pra você e pras crianças...
  • O que é que tem o Hospital das Crianças?
Ai foi demais né gente? Seu Aurélio foi à loucura para delírio da turma que ficava batendo papo na porta da Navegação Bahiana:
- Mandou beijo pro gatos, pontapé pras crianças e tapas no seu ouvido surda de mierda !

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