segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A historia de Os Tincoãs/ final

O MEU COMPADRE Grinaldo Salustiano dos Santos, Dadinho, antes de trabalhar no Expresso Cachoeirano de Carlinhos Monteiro, foi aprendiz de ourivesaria de Manoel Mateus Ferreira, o mestre Neco Ourives.

A sua musicalidade foi transferida geneticamente do seu pai, Totonho Cabeçorra, músico da filarmônica Minerva Cachoeirana, de quem Cassemiro Conceição, Caçote, dizia ter aprendido aquele tempero rítmico misturando a batida dos atabaques africanos provocando aquele frenesi das massas nos embalos das festas profanas de Nossa Senhora da Ajuda.

Dadinho foi crooner do Conjunto Melódico Paraguaçu, substituindo Mequinho, e, depois, em Porto e seu Conjunto. Ainda na primeira fase de Os Tincoãs, Dadinho  conseguiu reunir o melhor e mais harmonioso conjunto de baile que a Cachoeira presenciou, o Gwelpan Bossa, nome composto com as iniciais dos integrantes. Grinaldo (Dadinho), além de crooner tocava violão que aprendeu com enormes dificuldades (por ser canhoto e contando com a má-vontade do "professor" Didi da Baiana), Wandecock no baixo de cordas, Eraldo que era o outro crooner e tocava maracas, o baterista era o Luís (Jeep), Antônio Porto na guitarra e violão eletrificado,e, por fim, no acordeon, Nadir Santos, o Didi Zoião.

O formidável conjunto contava ainda com o concurso de dois excelentes músicos da corporação da Polícia Militar da Bahia: o trombonista Igaiara e o saxtenorista Roberto que além de tocar no estilo do músico norte-americano Stam Getz, tocava triolim no Trio Elétrico Tapajós de Salvador. Chegou a tocar num trio elétrico armado por Gileno, em Muritiba, no aniversário da Radiovox.

Mateus  Aleluia Lima, meu amigo Têca (foto), companheiro dos Corais da Matriz e de Nossa Senhora da Conceição do Monte, meu substituto no trio, seguindo a tradição da família, formou-se em pedagogia, chegando a lecionar em Taperoá, na Bahia, antes de dedicar-se inteiramente à carreira artística.

A sua formação acadêmica permitiu com que ele, num trabalho meritório, remontasse a sua pesquisa resgatando o idioma quimbundo arcaico que foi objeto de pesquisa até em Angola, devido ao interesse do Ministro de Cultura daquele país. Devido a esse fato, explorando a chamada "música de raiz", o conjunto cachoeirano fez várias aparições em musicais da Globo e até João Gilberto, o "Papa da Bossa Nova", conhecido na MPB pela sua rabugice, gravou o Cordeiro de Nanã !

Quando o pecuarista Benedito Dourado da Luz (foto) foi juiz da festa do Orago da Cachoeira, ele e o ex-padre Tontom fizeram um desafio para que eu inscrevesse uma equipe para participar de uma Gincana. "Você não diz que é bom conhecedor da história da Cachoeira? Faça uma equipe e participe da Gincana". Topei. Formei um grupo (do qual participava a minha filha mais velha, Erilêda) dando o nome de Equipe Nico.

Armou-se um coreto em frente à matriz. Após cada noite da novena, sob o comando do ex-padre Tontom de saudosa memória, as perguntas eram formuladas e teriam de ser respondidas na bucha. Sem problemas até aí. Ao final, distribuíam-se as tarefas a serem cumpridas na noite seguinte. A minha equipe vinha disputando palmo a palmo com outro grupo que contava com o apoio declarado e informal de vários professores, inclusive o Escrivão do Civil, Antônio Ferreira. 

Na última noite, a tarefa era levar até o coreto o aluno mais velho que estivesse comprovadamente inscrito e estudando no município. Pensei o óbvio, o que toda a cidade tinha conhecimento. A aluna era a velha professora leiga dona Escolástica, a Dona Maçú, que morava naquela rua por trás da Igreja do Monte e que no momento não recordo o nome.

No dia, fui ao encontro do meu saudoso amigo Antônio Dantas Pereira, o "major", Ele era fundamental para que funcionasse o meu plano B. E ele se apresentou diante da Comissão Julgadora enquanto a dona Maçú, coitada, era apalpada, empurrada, amassada, quase liquidificada para se definir não sei mesmo por que grupo.

Na hora da minha equipe, lá estava o "major" Pereira de terno completo, paletó e gravata. Apresentei o comprovante de que ele havia pago a matrícula para o curso de datilografia da professora Raimunda, que funcionava em uma casa na Rua Ana Neri. Não havia como impugnar como queria o grupo que estava na frente, porque a tarefa exigida era de o aluno mais velho, não especificava o curso. Tarefa cumprida, portanto.  O restante ficou por conta do "Major" Pereira que surpreendentemente pegou o microfone e fez um discurso veemente, falando que "era perseguido na sua terra natal" e que "sonhava em fazer o curso de datilografia, viabilizado pela alma generosa do meu amigo Erivaldo Brito"

Em a noite seguinte, missa festiva, final da procissão e a entrega dos prêmios. No coreto já se encontravam Dadinho e Badú, componentes de Os Tincoãs (foto) para um show que seria o colorário, o fechamento com chave de ouro daquela belíssima festa.  De repente, verificou-se  um reboliço e uma sensação estranha de curiosidade tomou conta não apenas dos que estavam no coreto. Todos estavam ansiosos para ver e ouvir Os Tincoãs em sua nova fase. Não demorou e veio a inquietante notícia que havia acontecido alguma anormalidade envolvendo Mateus. A ingestão de algum alimento - creio eu -, deixou o Mateus na lona. O prático em farmácia, Salustiano (homônimo de Dadinho, que curioso) ,veio com a notícia que acabou com a esperança de todo o mundo: "Mateus não tem a mínima condições de cantar esta noite!"

No coreto todo mundo dava pitaco. Benedito e Tontom vieram em cima de mim. Eu era uma solução viável, afinal, já tinha feito parte de grupo. Olhei pra Dadinho e ele, como naquele episódio do show que Elias Paco-Paco entrou em cena e que eu contei aqui, tentava aparentar tranquilidade dedilhando alguns acordes. A solução estava comigo mesmo que tivesse sido um simples gesto cordial da parte dele. Tinha de agir com racionalidade. Fui enfático. Mesmo que o repertório programado fosse aquele do meu tempo,- disse -,jamais seria irresponsável em aceitar o convite sem ter dado um ensaio sequer. E conclui: Os Tincoãs não é um trio, apenas. Dadinho e Badu ou Dadinho e Mateus ou que sejam incluídas mais pessoas ao grupo, não deixam de ser Os Tincoãs. E eu estava profetizando porque Dadinho e Mateus gravaram um disco em dupla (foto acima).

Assim, meus amigos e diletas amigas, por ironia do destino, na última apresentação de Os Tincoãs em sua terra natal, enquanto Dadinho e Badú cantavam, eu estava no mesmo coreto como um espectador de luxo, consciente daquele momento histórico.

Finalmente, queridos, depois de haver transferido o meu domicílio para o Rio de Janeiro, num telefonema que recebi da Cachoeira, soube do boato do falecimento de Dadinho. Ele e Mateus, por exigência comercial, permaneceram em Angola. Eu estava como diretor comercial e de programação da AM Radio Boas Novas.  Escrevi para o vice Cônsul da República de Angola no Rio, doutor João Diogo Fortunato e sua excelência respondeu-me confirmando a infausta notícia. Encerro aqui, portanto, a minha história de Os Tincoãs do qual fui um dos fundadores e testemunha ocular portanto. Agora, como diziam os velhos contadores de histórias, "entrei por uma porta e saí por outra, rei meu senhor (no caso,Mateus), que me conte outra".

Feliz 2014, galera e muito obrigado por acompanhar o nosso blogger.

 

 

 

 


 

 



 

 


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