segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A historia de Os Tincoãs/11


ESTAVA MUITO DIFÍCIL conciliar a arte musical com a realidade da vida. A maioria dos convites para apresentações vinham sempre com a mesma desculpa: “o trio precisa ficar conhecido!” “Tem de divulgar o disco!”
Pintou,finalmente,um pequeno contrato por parte de um apresentador de rádio, um tal de Sílvio (não lembro o sobrenome) que promovia um concurso de beleza chamado de “Miss Koleston”. Das apresentações que fizemos, lembro-me de que cantamos na rua Concelheiro Galvão, da quadra do Olaria,em Bariri.
Como o cachê além de pouco atrasava, abandonamos o projeto antes que o prejuízo fosse maior.
Meus amigos,como são explorados e ludibriados os artistas, mesmo os já consagrados! 
Carlinhos Monteiro queixava-se de ter abandonado suas atividades no “Expresso Cachoeirano” que herdara do seu pai Alvinho Monteiro. Dadinho não mostrava qualquer preocupação porque o seu bar “O Sucesso” estava sob o controle da sua noiva, depois esposa, Ivone. Heraldo era o que chamamos de “cuca fresca”. Seu pai, Aurélio, consolidado no ramo de hotelaria, não deixava lhe faltar nada! Quanto ao locutor que vos fala, estava desempregado, havia pedido demissão do emprego da prefeitura e acho que foi uma alívio pra muita gente, porque eu havia discutido com o tesoureiro e comprovado que ele possuía em seu armário, uma caixa de sapatos cheia de vales de dinheiro que ele emprestava, naturalmente da prefeitura e cobrando juros, inclusive de vereadores, na época. Não tinha a menor idéia de como recomeçar com a responsabilidade de pai de família.
O problema residia na volta do Rio de Janeiro. Voltar como se até para a nossa manutenção já estava o maior perrengue? Vendemos um gravador  e Monteiro conseguiu vender seu revólver.
Fomos procurar Natinho (de quem já falei quando abordei o tema futebol) e ele acenou com a possibilidade de liberar as passagens de ônibus até Belo Horizonte. Natinho era gerente da empresa que funcionava na Rua México, mas o destino final era a capital mineira.
Nem sei mesmo hoje como é que foi mas, Monteiro descolou vagas num bimotor dos Correios e nós embarcamos. Depois de algumas escalas, chegamos finalmente a Salvador. Já era noitinha quando embarcamos na Empresa de Transportes Odália com destino à terrinha. Chovia bastante na Cachoeira de ruas mal iluminadas e vazias de gente. Já em casa, sem ao menos trazer um presentinho pra ninguém, pude carregar a minha primogênita que eu havia deixado com poucos meses de nascida. Mal havia jantado, ouvi o serviço volante do meu dileto e saudoso amigo Gileno anunciando e tocando uma faixa do disco:
"Vamos passar a lua de mel em Porto Rico/ Vamos gozar do calor do sol que aquece o mar!" 
No dia seguinte e nos que se seguiram, o bar de Dadinho sempre estava cheio de gente curiosa, todo mundo queria saber sobre futebol, Cristo Redentor, Copacabana, Maracanã, tudo tão distante àquela época e, digo mesmo, inacessível para a maioria das pessoas.
As emissoras de rádio da Bahia começaram a tocar o disco. Grande número de invejosos, até os que se diziam amigos, começaram a esculhambar o trio: “Os três culhões!” “Vai ficar mesmo no último bolero!” “Dadinho já era um negro metido a besta!”
Viramos alvo de piadistas pobres de espírito que deveriam se orgulhar de três rapazes que de um modo ou de outro não incomodava ninguém, ou melhor, divulgava a cidade em cada apresentação que fazia. A inveja...
Como consolo, naqueles dias tão aperriado por saber que amigos tão chegados e até um que eu havia oferecido um disco de graça, era um dos maiores gozadores, comecei a ouvir a voz inconfundível do velho grapiúna e cachoeirano pelo coração Adilson Januário do Nascimento através do serviço de alto-falantes da “Radiovox”. Não era ainda uma emissora.
Adjotene, de tantas jornadas radiofônicas, anunciava a hora certa. Quando eu estava na locução, gostava de dizer “na terra de Teixeira de Freitas” ou “Ana Neri” ou “dos Irmãos Rebouças” ou de Maria Quitéria”. Adilson então anunciou:
  • A Relojoaria de Aloísio Mendes informa a hora certa : na terra de Os Tincoãs são dez horas e tantos minutos !
Não foi por vaidade não, gente, mas, aquela homenagem espontânea me tocou a sensibilidade e eu fui pela orla do rio Paraguaçu em prantos. Sentei-me num banco no “Faquir” e logo surgiram alguns amigos. A desculpa que eu arrumei foi jogar a culpa num “lacerdinha” uma espécie de inseto que atacava as folhas de ficus, plantas que existiam em quase todo o jardim. Quando o tal “lacerdinha” caía no olho de alguém...
O professor Carlito Pinto Brito esteve no bar de Dadinho e prometeu arrumar alguns shows. Levou grande parte do meu acervo particular de fotografias apesar da minha resistência porque Dadinho argumentou que seriam devolvidas e “o que se deve guardar é dinheiro!”
O primeiro contrato para uma apresentação em Feira de Santana foi mal-sucedido pois os contratantes apenas deram as passagens e hospedagens.
Eu já estava aguardando um contato com Barbudinho para um emprego no Sindicato da Petrobrás, devido a um trabalho que eu fiz quadrinizando uma história de Nestor Buarque de Holanda que esculhambava a “Aliança para o Progresso”
Antes disso, meu cunhado Odilardo de saudosa memória, conseguiu com que eu fizesse um teste para o Banco da Bahia e eu fui esbarrar em Candeias, uma das cidades mais caras do país devido aos “petroleiros” como se chamavam os trabalhadores da Petrobras.
A minha vida artística, por óbvios motivos deixou de ser uma prioridade e eu só podia cumprir contratos de finais de semana. Meninos, quando o trio se apresentava num especial da TV Itapoan, no dia seguinte, sem exagero algum, a maioria das clientes (do sexo feminino, otário),só procuravam o caixa em que eu trabalhava. Os colegas ficavam morrendo de inveja.

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