sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Literatura de Cordel
NA GRÉCIA ANTIGA, o ensino era feito através da poesia, o que ajudava o aluno a fixar na memória o que era ensinado pelo mestre.
No Brasil, o verso, a rima, a métrica, são, em regra, características do povo do meu nordeste, na chamada Literatura de Cordel, inegavelmente uma fonte riquíssima para pesquisa linguística, sendo amplamente discutida nos meios acadêmicos, narrados em incontáveis monografias, tendo em vista a prespectiva semântica e cultural que ela encerra.
Eu adoro o estilo do cordel e até já produzi alguma coisa a respeito. Por sinal, recebi recentemente de um amigo pernambucano da cidade de Caruaru, dois dos mais recentes cordéis de José Francisco Borges. Num deles o poeta destaca o seguinte:
"Eu não gosto de escrever
Falando em crítica ou suborno,
Bom é se escrever mentira,
Com fofoca e pano morno,
A história que vende mais,
É quando se fala em corno!"
No outro livro a que me referi, o cordelista dá uma de filósofo ao descrever os diversos tipos de flatulências :
"Peido a ninguém enganou,
Para muitos peido é arte,
Napoleão Bonaparte,
Quando foi morrer peidou,
Foi lá em Waterloo
Peidou lá como ninguém,
Peido pra mim vale como
Mil vezes um bom banquete,
Parece até cacoete,
O valor que o peido tem" 
PROVAVELMENTE o primeiro poeta popular baiano no estilo cordel foi Gregório de Matos Guerra (1636-1695), advogado, apelidado de Boca do Inferno (foto), em razão dos versos satíricos que produzia, como no início do de tema "Romance":
"Senhora Dona Bahia,
Nobre e opulenta cidade,
Madastra dos naturais
E dos estrangeiros, Madre !" 
Na minha terra natal, Cachoeira, na Bahia, acreditamos que o pioneiro no estilo foi o jornalista Manoel Cardoso da Silva (1825-1880), fundador e redator de o jornal AMERICANO, cujo primeiro exemplar veio à lume no dia 30 de janeiro de 1857, na Cidade Heroica.
Na realidade, amigos que acompanham esta página, o cordelista pode ser considerado como um repórter, vez que, relata fatos ocorridos. Leiam como o aludido poeta descreve a sua terra naqueles tempos coloniais:
"Minha terra é uma terra,
Como outras terras não são,
Tem muita água, muita pedra,
Tem urtiga e cansanção,
Tem do luar belas noites,
Outras tem de escuridão".

E PARTE para a crítica social:

"Tem meninas que namoram
A quantos rapazes vêm,
Tem meninos que namoram
Que nos bailes valsam bem,
Tem bom meninos que jogam
Sem ter de seu um vintém!"

"Tem muito réu de polícia,
Muito fidalgo impostor,
Muito jumento ordenado,
Muito cavalo doutor,
Muito soldado valente,
Que treme ao som do tambor".

E assim o nosso conterrâneo prossegue, satírico, no estilo que consagrou Gregório de Matos:

"Tem famosos agiotas,
Que sem dó, o povo esfolam,
Tem patriotas de pança
Que da Pátria os bens assolam,
Tem candidatos mendigos,
Que seus votinhos esmolam".

E volta a falar da sua terra:

"Tem umas Ruas Direitas
Em forma de caracol,
Tem lamaçais onde os sapos
Entoam  seu fá-bemol,
Tem outras muitas belezas
Que não meto neste rol".

Finalizando:

"Minha terra me perdoa,
Se não vou mais adiante,
Paro, aqui, porque receio
A língua do pedante,
De algum tolo que me taxe
De poetrasto maçante". 

O poeta Manoel Cardoso da Silva faleceu aos 55 anos de idade, em o dia 28 de janeiro de 1880, volvidos, portanto, 134 anos.
Na próxima postagem, galera, a gente vai falar de um cordelista contemporâneo, "ele, o famoso Cuíca de Santo Amaro" como ele próprio se anunciava. 
Várias vezes eu o vi recitando seus versos na ponte de desembarque da Navegação Bahiana, em Salvador. Ele gostava de blefar, anunciando que publicaria em versos algum boato acontecido na Cachoeira:
"Extra! Extra!  Já está no prelo a história do lojista cachoeirano que deflorou uma menina e calou a boca da mãe dela com um corte de pano!"
Acredito que o tema é legal, então, a gente vai continuar. Até lá e bom "finde" para todos.

 

 

Um comentário:

  1. Muito obrigado! é a unica referência a literatura de cordel na cidade de Cachoeira BA na rede! obrigaado, ajudou muito para um trabalho de escola!

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