sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

 Literatura de Cordel/3
ENQUANTO MOREI na Cachoeira,e, até mesmo na Vila Residencial de Muritiba, no mês de abril, eu era invariavelmente requisitado a fim de elaborar um "Testamento de Judas". Poucos sabiam serem da minha autoria. Não havia como negar pois se tratavam, sempre, de pessoas amigas. Dois deles, da década de oitenta, fiz com cópia. O primeiro, do ano de 1983, ( e lá se vão exatos 21 anos), a pedido do meu amigo Mário Codorna. Para os que já estão na Glória, como diria a minha saudosa mãe: "estou falando da matéria e não do espírito!" Escolhi as quatro sextilhas  abaixo a fim de não encompridar o papo.

                               Aquela baga de charuto,
                               Escondida no bordel,
                               Deixo com muito prazer,
                               Pro compadre Juliel,
                               É ele vai mandar brasa
                               Quando for pra Santa Casa,
                                Desempenhar seu papel.
De todos os meus amigos,
Tenho especial carinho,
Pelo querido primo-amigo,
Conhecido por Bolinho,
Pra ele usar no Ginásio,
Deixo pra você, Gildásio,
A minha cueca de linho.
                               Moacir e Balainho,
                               Boa dupla já se vê,
                               Que anda jogando duro,
                               Botando pra derreter,
                               E como Felipão aposta,
                               Deixo com ele a Proposta
                               Pra voltarem à EBCT !
Carneirinho amigo velho,
Professor e beletrista,
Vou deixar um bom presente,
Vou dar somente uma pista,
Não sou homem de mutreta,
Será um par de baqueta
Pra ele que é baterista.
O outro "Testamento" foi do ano de 1985, a pedido de Augusto Régis, foi mais elaborado porque eu bolei um tribunal de juri com vários personagens. Vamos falar apenas da parte testamenteira onde não se falava de ninguém individualmente, segundo idéia de Augusto.
Meu velho Dicionário,
Terá uso, afinal,
Será logo destinado
À Câmara Municipal,
Que tem gente inteligente,
Mas uns precisam urgente
   Entrar logo pro Mobral.
                                              Para a Voz da Primavera,
                                              Deixo um disco de Dikal,
                                              E um outro do Tim Maia,
                                              De comunicação legal,
                                              Aquela guitarra velha,
                                              É para o Trio Primavera
                                              Embalar o Carnaval.
Para a Navegação Bahiana,
Que daqui já se picou,
Levando consigo o navio
Que muita saudade deixou,
Faço um apelo veemente,
Retorne, imediatamente,
As viagens à Salvador.

Porém, amigos, quando Augusto leu os originais, pediu-me que incluísse "figurinhas carimbadas" da Cachoeira. E ficou assim:
Adeus velhos companheiros,
Poporrô e Zeca Preta,
Adeus Jorge da Arara,
Que sabe de muita mutreta,
Adeus Grupo do Chorinho,
Que guardo com muito carinho,
Aquela saudosa retreta.
                                                   Adeus Zequinha Mandú !
                                                   Meu primo Vandinho Cabeção,
                                                   Adeus, Kiko !  Adeus Maranga !
                                                   Adeus Thuri meu irmão!
                                                   Adeus turma da cachaça,
                                                   No Inferno a gente traça,
                                                   E vai curtir de montão!

Volto a repetir que, na época, nenhum dos "agraciados" reclamou, ninguém ficou ofendido. Portanto, não estamos ofendendo a imagem de ninguém.
Dentre os cordelistas cachoeirano, abrimos um destaque especial para o saudoso amigo advogado Raimundo Rodrigues dos Santos, o insuperável Raimilan .Ele era a figura a quem os franceses chamam de bon vivant, ou seja, um cara de bem com a vida.
Lembram-se de um "causo" que eu contei aqui, de uma Quadrilha Junina, com todo o pessoal se vestindo de homem ou mulher? Ele estava vestido de mulher, com peruca e tudo. E foram dançar na casa do doutor Joaquim, Juiz de Direito da Comarca. Com medo de ser reconhecido pelo Meritíssimo, Raimilan virava sempre o rosto pra parede, até que Mateus arrancou-lhe a peruca e o doutor Joaquim, surpreso, perguntava para a sua esposa: "Margarida, não é o doutor Raimundo?!"
Eu estava com Dadinho em Salvador, quando nos encontramos com ele, que falou que iria buscar o seu Karmann Ghia que estava sendo "ajustado". Conhecendo a história de que ele ao ser abordado pelo amigo Ceguinho perguntando onde ele iria, e ele informou que "era ali e acabou levando Ceguinho pra Itabuna,(essa história carece de confirmação se chegou a tanto), arrumei uma desculpa e agradeci a carona. No dia seguinte, Dadinho estava uma arara. Conseguiu chegar na Cachoeira quase ao amanhecer. Raimilan veio parando em tudo que era barzinho!
Então, queridos, Raimilan era assíduo colaborador de A Ordem, jornal do qual eu era Redator Chefe e editor até que resolveu se candidatar a Vereador. Os versos de cordel a que ele intitulou de "Diagnóstico Errado", na época (1980), não podia publicar hoje o faço com desculpas ao puritanos de plantão.


O médico foi visitar
Na enfermaria, um doente,
Ficou muito comovido,
Com pena do paciente.

Vendo que não tinha jeito,
Porque tava todo inchado,
revelou logo o segredo:
"Você tá desenganado!"

"Seu desenlace é fatal,
É com tristeza que eu vejo,
Aproveite e vá dizendo,
Qual seu último desejo?"

"Doutor não me leve a mal,
Sei que é uma besteira,
Mas,eu desejo é dar uma
Chupada na Enfermeira"

O doutor levou um susto,
Quase que ficou demente,
E depois saiu correndo,
Levando tudo na frente.

Se espantou porque sabia,
Que a Enfermeira era crente,
Mesmo assim falou com ela,
Para atender ao doente.

"Que é isso, seu doutor?!"
Disse a enfermeira, irada,
"Que é que o senhor tá pensando?
Eu sou uma moça honrada!"

"Mas, é só uma vezinha,
Disso ninguém vai saber,
Faça essa caridade,
O coitado vai morrer!"

"Que pedido absurdo,
Que caridade que nada,
Eu não posso fazer isso,
Eu hoje estou menstruada!"

Depois de muito pedido,
Depois de muita zuada,
A Enfermeira, finalmente,
Concordou em ser chupada.

Quando foi no outro dia,
O doutor foi logo lá,
Para ver o seu defunto,
E o Óbito assinar.

Chegando na enfermaria,
A enfermeira encontrou,
Ela foi logo dizendo:
"Seu doente já sarou!"

O homem já tava alegre,
Mostrando bastante forte,
Nem parecia aquele
Que tava à beira da morte.

O doutor disse espantado:
"Você não ia morrer?
Não esperava neste mundo,
Mais me encontrar com você!"

O homem falou pra ele:
"Só que o senhor não sabia,
Eu não tinha AIDS, não,
O meu caso era anemia!" 

Que saudades do Raimilan! Na próxima postagem a gente pretende encerrar a série, tá certo? Bom final de semana para todos!




 








     

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