quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Literatura de Cordel/2
 Dos trovadores populares da Bahia, dos tempos que podemos, ainda, chamar de modernos, José Gomes (1907-1964), de codinome Cuíca de Santo Amaro, (foto) embora tivesse nascido na capital do estado, era soteropolitano, portanto, foi um dos mais festejados.
Cuíca de Santo Amaro, que o famoso romancista baiano Jorge Amado chamou de "Trovador da Bahia", era cordelista de corpo e alma. Anunciava e vendia os seus trabalhos em pontos estratégicos de Salvador, sobretudo na ponte de desembrque da Companhia de Navegação Bahiana.
Sabedor de boatos e escândalos que circulavam nas cidades da Cachoeira, São Félix, Muritiba e Maragojipe, Cuíca de Santo Amaro costumava blefar anunciando que estava no prelo um livro assim,assim...Segundo línguas maldosas, os implicados costumavam "molhar a mão" dele para que o trabalho não viesse à lume.
Como a geração do poeta não teve o privilégio que a minha teve de poder namorar no escurinho do cinema, (que saudade), ele era um crítico implacável, como veremos a seguir:
"Todos sabem que o cinema
É antro de perdição,
Faz o sujeito assassino,
Faz o sujeito ladrão,
É um livro onde as donzelas
Aprendem a prostituição".
 E ele, então, até de forma bem humorada, encerra, assim, o seu "causo" em forma de cordel:
"A luz então acendeu.
Uma cena interessante
No cinema apareceu,
Você sabe meu leitor,
O que foi que aconteceu?"

"Quando interrompeu
No cinema a projeção,
Uma linda Normalista
Com um grande caldeirão,
Estava com o guarda-chuva
De um estudante na mão."

"O pobre estudante
Ficou todo envergonhado,
Guardou o guarda-chuva
Que já estava quebrado,
E saiu lá do cinema,
Completamente molhado".

Conforme dissemos no capítulo anterior, o Nordeste brasileiro é um grande celeiro de poetas e cantadores. Até hoje. O maior de todos, sem dúvida, é o Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002) que adotou como pseudônimo o nome de sua cidade natal: Patativa do Assaré (foto)
O seu primeiro livro publicado em 1956 levou o título de "Inspiração Nordestina" e o último em 2001 com o título de "Ao pé da mesa". Como vimos, Patativa da Assaré trabalhou até um ano antes de morrer.
Autor de várias letras para músicas que fizeram sucesso na MPB, de métrica perfeita, não bria mão, entretanto, de vercejar como legítimo matuto como segue:
"Sertão, arguem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Purquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistero,
Ninguém sabe decifrá,
A tua beleza é tanta,
Que o poeta canta, canta,
E ainda fica o qui cantá!" 
Eu era muito amigo do casal dona Nita e Francisco Elias da Silva, o Chiquinho do Caixão, naturais de Caruarú, no agreste pernambucano, ,eram, ambos, cordelistas de primeira.
Eu ía passando pela porta da sua Funerária na Rua das Lojas (Ruy Barbosa), quando ele deu com a mão me chamando.Me mostrou um velho caderno de anotações, queria fazer alguns versos tendo como tema a eleição municipal. Prometi pra ele que viria no sábado para dar alguns pitacos.
Conforme combinado, fui até o sobrado onde eles moravam, um sobrado contíguo ao da filarmônica Minerv e que, lamentavelmente desabou no ano passado.
Chiquinho apanhou o velho caderno. Observei logo de primeira que a idéia dele era falar dos candidatos que não lograram êxito. O nome que eu sugeri ele aceitou: "O Livro dos Derrotados"
Nqueles tempos, crianças, existiam as cédulas de papel, a contagem era voto a voto, aquela agitação de candidatos, fiscais, impugnação de votos e de até secções eleitorais.
Dentre os candidatos eternos, José Maria do Trânsito, no meu enfoque, era o mais hilário. Teríamos, pois, de começar por ele:
"No dia da eleição,
Logo que chegou a urna,
Zé Maria apareceu..."
E nós ficamos repetindo a última frase como a procurar a rima. Dona Nita, passando pelo corredor, deu a solução:
"como uma onça na furna!"
Fiz uma cópia em letra de fôrma com alguns desenhos ilustrativos. O prefeito Julião pediu emprestado, quando fui pegar de volta ele alegou que havia emprestado ao professor Aldérico. A solução seria o caderno de anotações de Chiquinho que também acabou sumindo!  Na minha memória ficou apenas a seguinte sextilha:
Até mesmo o protestante
Dessa vez se apresentou,
Com os seus três candidatos
Para ser Vereador:
Sinô, Adjarva e Chiquinho,
Foram três cortes direitinho
Dado pelo eleitor!

Como funcionário das obras da barragem de Pedra do Cavalo, implantamos um mensário que a peãozada adorava. Não me lembro se cheguei a publicar mas, tenho a cópia guardada de uma narrativa de minha autoria em parceria com o engenheiro Vittorio Serafin, envolvendo um engenheiro chamado Jonas Santo Sé, conhecido por ser sovina. O título dos versos era "O barato que sai Karo"
Cinco obras que eu me lembro,
Do Pará, Minas, Bahia,
Pernambuco, Piaui,
Meia aposentadoria,
Usando o mesmo sapato,
Em qualquer hora do dia.

Até a lata de lixo
Aguardava a sua vez,
Pedindo o velho sapato,
Do início ao fim do mês,
Pensando "mas que pão duro,
Parece até português!"

Pedidos não foram poucos,
Dos meninos e da mulher,
"Homem jogue isso fora,
Faça isso, tenha fé,
Só assim você acaba
Calos e bicho do pé".

Nada disso adiantou
Pois naquele mesmo dia,
Chegou cedo ao trabalho,
Coisa que nunca fazia.
Foi direto consultar
A Área de Tecnologia.

Procurou de imediato
A um especialista
"Me especifique uma cola
Que todo esforço resista,
De flexão a flambagem,
De qualquer tipo de pista".

Uma lista de produtos
O amigo logo fez,
Araldite, Colmafix,
Sikadur, Quarenta e três,
Super Bond e outras colas,
Num total de dezesseis!

Sikadur Quarenta e três
De mais fácil aquisição,
Foi então o escolhido,
Naquela ocasião,
Primeiro por ser barato
E de fácil doação.

Tudo certo e resolvido,
Já com o produto na mão,
Dirigiu-se então pra sala,
Com muita satisfação,
Pensando consigo mesmo,
"Não vou gastar um tostão!"

Entrou e fechou a porta
Por receio e precaução,
De ele ser interrompido,
No meio da aplicação.
Avisou pro Secretário,
"Não quero interrupção".

O trabalho ficou pronto,
Em menos de uma hora,
"Agora é só esperar
Tempo que a cura demora,
Já pensou se eu vou na onda,
E jogo o bichinho fora?"

Eram só 15 minutos
O que o produto pedia
Para completar a cura,
Com máximo de garantia,
Entretanto ele esperou
Duas noites e um dia!

Passado o tempo da cura
Disse "agora é só testar,
Dou três pulos e uma carreira,
E se ele aguentar,
Amanhã cedo já posso,
Vir com ele trabalhar".

Chegou na sala encontrou
Uma grande confusão,
O teto cheio de abelha,
Muita formiga no chão,
Tentou pegar o sapato,
Foi ferroado na mão.

O leitor ainda não sabe,
Que em certa ocasião,
O produto foi trocado,
Antes da aplicação,
Em vez de cola botaram
Muito Karo com limão.

O Karo juntou abelhas,
No solado e no cordão,
Indo e vindo atrás dele,
Formigas e formigão,
Unidas formavam filas,
Roendo até o dedão!

E a gente vai parando por aqui, porque fiquei cansado de digitar e não quero cansar vocês para ler.  Na próxima postagem tem mais!
 

 






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