segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"CAUSOS" VERÍDICOS
Os ratinhos do Tarcílo 

QUANDO EU FUI nomeado para trabalhar na prefeitura, na primeira gestão do prefeito Julião Gomes dos Santos, (meu primeiro emprego formal), saído da adolescencia, eu era um cara abusado, chegado a uma esculhambação, a uma "molequeira sadia" no dizer do meu saudoso compadre Valdir de Gegeu.
E fui encontrar na Prefeitura antigos e rabugentos funcionários, fora um senhorzinho também de cabelos grisalhos chamado Tarcílo, pai de Guiguiu, músico da filarmônica Minerva e Osmar que dirigiu a ambulância da Santa Casa, lembram?
Naquele ambiente taciturno da Prefeitura daquela época, Tarcilo fazia a diferença com o seu bom humor e eu, levado por ele, naturalmente, aprontei tantas que o secretário da prefeitura, João Gualberto de Carvalho Filho (Jonga), já que não podia me demitir  (a minha madrinha, Laura, era a primeira dama do município), resolveu desfazer a dupla dinâmica com a minha transferência para a Delegacia como Escrivão ad-hoc.
Sempre feliz da vida, Tarcilo adorava tirar onda com outros dois antigos funcionários: Genobaldo Farias e dona Odília Marques. Com Genobaldo, ficava palpitando em tudo, sobretudo no  de jogo do bicho.  Várias vezes Genobaldo chiava: "Vá pra merda, Tarcilo ! Por que você não joga?" E ele ironicamente respondia: "Porque eu não sou tesoureiro!"
Certa feita, ao brincar mais um vez com Genobaldo, Tracilo ouviu o seguinte: "Hoje eu não tô pra bincadeiras, tô com a cabeça inchada de problemas!" Na saída, quando Genobaldo tentou enfiar o chapéu na cabeça o danado não entrou de jeito nenhum!  É que Tarcilo encheu o forro do chapeu com jornal e na maior cara de pau disse: "É, Genó, agora eu acredito que a sua cabeça está inchada mesmo!"
Genobaldo caiu na asneira de dizer para dona Odília que necessitava tomar algum remédio para esquecimento, e Tarcilo providenciou acelerar o processo, escondendo coisas que o pobre coitado havia deixado em determinado lugar, como o guarda chuva, por exemplo.
Dona Odília também se queixava de precisava tomar algum fortificante. Eu ví Tarcilo apanhando muitas pedras roliças usadas para prender papel e colocar na capa de chuva da pobre coitada. Desprevenida, ao apanhar a capa...pumba! Bateu forte no assoalho enquanto Tarcilo, sorrindo, dizia: "É. Odília, você tá fraquinha que dá gosto!"
Dona Odília mantinha um sapato na repartição sob a alegação que "detestava calçado molhado!"  Retirava o que vinha da rua colocando-o para enxugar próximo à janela. Eu a vi reclamando que seus sapatos não estavam enxugando e o autor eu já havia deduzido até que o flagrei com um canequinho dando o seu jeitinho.
Chateada por estar fazendo muitos empenhos para os festejos do Carnaval, dona Odília reclamava e chegou a discutir com Tarcilo sobre o "dinheiro jogado fora para um bando de moleques ficarem pulando com o bucho cheio de cachaça" e acrescentava: "não se brinca mais como antigamente, detesto carnaval!"
Para surpresa geral, ao término do expediente, quando dona Odília foi saindo para o almoço e abriu a sua sombrinha, milhares de "confetes", pedaço de papel retirados dos perfuradores cobriram a sua cabeça enquanto ele esbravejava: "Velho palhaço!"
E Tarcilo, feliz d vida: "Você não disse que não gostava de carnaval?"
Carlinhos Monteiro apareceu no Expresso com uma novidade trazida de Salvador: um cocô de massa!  Tão perfeito que até aparecia alguns caroços de feijão. Levei emprestado para pegar Tarcilo, na prefeitura. Cheguei cedo, peguei o falso cocô e coloquei no segundo lance que dá acesso à prefeitura com o pedaço de papel higiênico e um pouco de água para fingir urina. Quando ele avistou a cena, soltou um muxoxo e foi apanhar a vassoura e um apanhador. Quando ía iniciar  a "limpeza" eu abaixei dizendo, "passa pra cá o meu cocô!"  Da surpresa inicial, aquela passou a ser a brincadeira favorita de Tarcilo. Colocou no salão da Câmara para aporrinhar dona Naná e Zinho, na gaveta de Genobaldo, e no salão do Juri dizendo para Sinô: "Acho que foi o doutor Franklin!".  Doutor Franklin de Souza Carneiro, irmão do senador Nelson Carneiro, era Juiz de Direito da Comarca.
Certa feita eu estava no gabinete quando Tarcilo entrou com uma bandeja do cafezinho. Ficou em pé esperando, esperando, enquanto o prefeito, Julião, conversava com a xícara na mão. E Tarcilo impaciente: "Toma jogo,Julião!"  E o prefeito na dele, já conhecia Tarcilo. Depois que ele se afastou, Julião comentou: "Tarcilo pens que eu sou idiota! Depois que eu reclamei que o café estava frio, ele só me trás depois de ferver até a xícara!"
Eu já estava trabalhando na delegacia quando fui fazer um visita a ele, na Prefeitura, não obstante de quando em vez, juntamente com Adilson Nascimento ir até à residência dele pra jogar dominó. Encontrei o velho Tarcilo discutindo com  dona Odília. Ela, pedindo a minha atenção, afirmava: "Velho mais idiota, fica trazendo resto de comida de casa, segundo ele pra dar aos ratinhos!"
E ele, com aquele sorriso irônico: "Se os ratos grandões estão soltos por ai e ninguém persegue, deixem em paz os meus ratinhos!"
Tarcilo, um personagem inesquecível.





 

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