quarta-feira, 5 de março de 2014

Memória Carnavalesca
NESTA QUARTA-FEIRA de cinzas, o Rio ainda amanheceu cantando e as ruas da Cidade Maravilhosa cheia de encantos mil coberta de lixo devido a greve dos garis que não botou o seu bloco nas ruas. E eu que gostava tanto de você, carnaval, no rescaldo dos festejos, cheguei a praia para ver o sol nascer com a minha cadeirinha debaixo do braço e o inseparável bloquinho de anotações. É nele que eu rascunho o que me vem à mente. Tudo rapidinho enquanto não aparecem os retardatários. Breve tudo estará dominado pelas pernas, coxas, peitos e bundas, enquanto os vendedores de tudo não dão sossego:
- Coca Cola, Mate Leão, Guaraviton!
-  Empada, Queijo Coalho, Picolé da Moleka. Criança não paga...quem paga é o pai da criança!
Nas asas da minha imaginação, voltei aos tempos em que eu adorava o carnaval da minha terra natal, Cachoeira, na Bahia. Revivi o primeiro trio elétrico, um dos pioneiros do interior do estado, num palanque armado em frente da Barbearia de Vardinho (depois Cabana do Pai Tomás), na gestão do prefeito Stênio Henrique de Burgos. O grupo era composto por Caruso, Didi da Bahiana e Zé Cândido (violões e cavaquinho eletrificados), e os barbeiros Chiquinho e Chocolate na percussão.
Me lembrei que a gente ficava rodeando o jardim em frente ao Hotel Colombo ouvindo o alto-falante Vozes da Primavera, jogando lança perfume nos peitinhos virgens das meninas.  Na molecada a gente jogava no olho. Quem não usava óculos de galalite, (percursor da matéria plástica), tava ferrado.
Recordei dos blocos ensaiados pelo meu tio, Belini, do Trança Fitas, do Samba de Roda  de Dalva, da Batucada de Osvaldo (Sapo Engraxate) e de foliões como Sangue Azul e Trator com aquelas fantasias exóticas utilizando papelão e folhagens. De dois camaradas que vinham de Muritiba. Um deles dava um show especial equilibrando uma garrafa de cerveja na cabeça e o outro era seu Olavo, o professor Pardal da Região com o seu carro de pau.
Me lembrei de haver desfilado com a minha namorada usando camisas iguais.Eram brancas com uma vistosa fita rigor do lado esquerdo. Ou direito? Não vem ao caso.
Recordei as minhas irmãs Lilita e Dira fantasiadas de índias. Lindas. Participei, também de um bloco chamado Superstição com Nelsonita, Carmitinha, Luiz, Arlindo Tinoco e Valfredo Sales. Desenhei ferraduras, trevos, pé de coelho etc que eram recortados no feltro e costurados nas camisas. Nunca mais saí em bloco nenhum, só de careta no Terno das Críticas na festa da Ajuda.
Rememorei a feliz iniciativa das diretorias da Desportiva e da Atlética de São Félix permitindo que seus associados frequentassem seus bailes, e do assoalho da Desportiva que trepidava perigosamente e ninguém parecia se preocupar com um fatal acidente. Do bloco da pesada formado por Zeca Santana, Lourival Melo, Domingão, Salu e doutor Claudiano que impedia a aproximação de intrusos na pequena área onde brincavam as suas esposas. Os doutores Aurelino Serafim e Agnaldo Sampaio a tudo assistiam em mesas reservadas.
BAILE DE CARNAVAL NA DESPORTIVA - Na foto,Lourival Melo, Poli e Manoelzinho


Recordei da Orquestra de Amâncio cujo crooner era Morenito. Escondidinho num canto com o microfone na mão, cantava a tristeza da Jardineira, da perna de pau do pirata, Alalaôôôô, das duas polegadas a mais da Marta Rocha, da cabeleira do Zezé,...Se a canoa não virasse ele chegava lá e pedia um dinheiro aí! Mas, o  salão pegava fogo quando corria, corria a lambretinha para ver o meu amor.
Eu lembrei do maior porre que eu tomei na vida. Era um licor de umbu. Havia brigado com a minha namorada, pedi bandeira branca,amor e ela nem tchum!  A Turma do Funil que eu resolvi acompanhar me levou até o banheiro do Caquende e eu acabei apagando no jardim ao lado da prefeitura e acordei na pensão da dona Lulu que ficava naquele sobradão da praça da Aclamação com a rua Ana Neri. Acordei a noitinha. Nini me contou, sorrindo, que Judite, uma velha devassa que dizia palavrão, me deu banho e vestiu em mim um calção de Didi Zoião.
Eu lembrei da caretice da Desportiva que impedia o ingresso de rapazes que usassem o short dois dedos acima do joelho, mas o pessoal usava uma toalhinha de rosto para enxugar o suor e, disfarçadamente, cheirar lança perfume. Nunca trive coragem. Os namorados eram vigiados. Beijo na boca nem pensar.
Uma semana depois, quando seu Antonio porteiro do cinema trazia a revista O Cruzeiro a gente ficava frustrado ao ver aquelas mulheres gostosas com as coxas de fora, trepadas no cangote dos homens no baile do Municipal. Aquilo é que era carnaval no meu enfoque de adolescente cheio de tesão.
No mais amados e amadas, guardo na memória a serpentina que ela me atirou, e o confete colorido da saudade, e a Colombina que eu amei e fui correspondido.


 

 

 

 
 

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