sexta-feira, 14 de março de 2014

 RECORDAÇÕES
O mestre Renato Queiroz / 4
NÃO TIVE O PRIVILÉGIO de ter sido aluno de Renato. Tudo o que sei foi o que ouvi ao longo dos anos, até do próprio Renato.  Ele não foi um professorzinho de ginásio qualquer. Em matéria de ensino, quer da língua francesa,do vernáculo ou de outra disciplina qualquer, ele desenvolveu uma técnica de comunicação que tornava as suas aulas movimentadas, recheadas de generosas doses de bom humor, incentivando, também, a pesquisa em casa sobre a temática abordada em aula. Merecia ter uma escola municipal com o seu nome. Fica a sugestão.
Certa feita, recebi um recado dele. Fui procurá-lo. Ele dava aula num colégio de ensino fundamental nas proximidades do cemitério. Ele queria a minha ajuda para confeccionar um boneco que seria queimado como Judas, no Rosarinho. E ele me disse brincando: "Souza (irmão dele), providenciou tudo... só falta o Judas!"
Fiquei esperando o término da aula. Era o dia 20 de julho de 1969. Renato falava para a garotada sobre a chegada do homem à lua, da Apolo 11, do astronauta Neil Armstrong. Como era do seu feitio prosseguia  a aula com a seguinte pergunta: "Já pensaram se fosse um astronauta brasileiro?"  E ele mesmo respondia: "A Charanga da Minerva estaria na rua e o povo cantando o Tonho e o Zé já foram à lua, aê-pá-pá-pá!" Deu por finda a aula com muita propriedade dizendo que as grandes descobertas, as mais espetaculares invenções da humanidade, não passavam de simples utopias antes que fossem efetivamente concretizadas.
São muitos os "causos" do Renato professor do Colégio da Cachoeira. Ah! ía esquecendo: foi ele o autor do escudo que até hoje os alunos carregam nas camisas até hoje.  Por uma questão de espaço, ficarei apenas com dois. O primeiro, aconteceu num dia de prova mensal. Renato chegou em sala de aula perguntando se alguém tinha dúvida sobre a matéria. Fingiu que ía distribuir as provas. Dirigiu-se então para a turma e fez uma proposta que poderia adiantar a matéria se todos estivessem seguros. Dirigiu-se ao primeiro e perguntou: "Você estudou? Que nota você esperava tirar?" O aluno foi modesto: esperava uma nota seis! Renato pegou a caderneta e anotou. Meninos, dali pra frente ninguém esperava nota menor do que nove! Quando toda a classe foi atendida, Renato deu aula normalmente.
No final do ano, Renato chegou na sala de aula e anunciou: "Turma, vocês vão vibrar de alegria. O assunto da prova é aquele mesmo que todo o mundo tirou nota boa!" Resumo: a classe inteira foi pra recuperação.
O outro caso requer uma explicação para os mais jovens. Naqueles tempos, o papel pautado da prova era pago pelo aluno. Uma aluna alegou que não tinha dinheiro no momento e ele disse que aquilo não era motivo pra ela não fazer a prova. Quando chegou o dia da entrega com o resultado, a aluna percebeu que tinha tirado nota três e quando Renato perguntou pelo dinheiro ela deu uma enrolada. Renato não entregou a prova dela. Quando cobrava o dinheiro do papel pautado a moça dizia é hoje,é amanhã...Já de saco cheio, Renato abriu a sua pasta e falou pra moça: "Não vai pagar?" Rap! rap! rap! e vupt! atirou na cesta do lixo.
No final, ao ver no boletim a nota três, a moça, juntamente com o seu pai, foram reclamar na diretoria. A moça dizia que tinha tirado nota oito, que Renato rasgou a prova porque ela não havia pago o valor do papel pautado. O pai, indignado, encarou Renato dizendo "como é que o senhor faz uma coisas dessas por causa de míseros centavos?!" Meteu a mão no bolso e pagou. Renato, fazendo cara de surpresa falou calmamente que estava achando impossível de ele ter feito aquilo. Abriu a pasta e a prova estava lá com a nota três! Renato havia rasgado uma folha de papel qualquer. Tentar fazê-lo de besta era uma tarefa dificílima.
Quando o Colégio Estadual implantou o Curso Madureza, (atual Supletivo do 2º grau), Renato ficou responsável  por uma das turmas. A mais problemática, por sinal. Como a aula era no turno da noite, grande parte da turma enchia a caveira no Bar de Aldovandro que ficava bem em frente ao estabelecimento de ensino. O locutor Betinho Braga ao ser chamado ao quadro negro virou-se para a carteira vazia e perguntou: "Você que me derrubar? Eu vou passando e você bota a perna preu cair?!"
O outro aluno de destaque era o "major" Pereira que inclusive morava na mesma rua. O "major" já havia arrumado uma discussão com Aldérico, professor de Geografia e concluiu dizendo que enquanto o professor conhecia só por causa do livro, ele iria visitar tudo pessoalmente. E o fez, enviando ao professor cartões postais dos locais visitados.
Conversando comigo, Renato falou que fazia de tudo para ajudar o "major" mas estava ficando difícil. Na prova, ele pedia ajuda aos colegas em voz alta. O colega respondia e ele não conseguia ouvir. O colega então mandava a pesca por escrito e ele não conseguia ler!
A todos Renato recomendava o hábito da boa leitura. Afirmava que era burrice quem usa da própria experiência para assimilar o conteúdo das matérias quando a lógica recomendava valerem-se, também, das experiências de outros colegas.
Um bom final de semana. Na próxima postgem a gente encerra o assunto.
 



 
 
 

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