sexta-feira, 25 de abril de 2014


INFLUENCIADA pelos filmes de faroeste, a turma da minha geração adorava brincar de "artista" Empunhando um revólver de brinquedo (os meninos de pais mais abastados Papai Noel dava revólveres de espoleta) e a maioria com pedaço de madeira e um prego servindo de "gatilho", "montando" cavalos-de-flecha e a brincadeira estava feita. Era um tal de "calmoniboy!" pra lá, "calmoniboy!" pra cá...
Na brincadeira apenas um era o "mocinho", muitos teriam de ser "bandidos" e um tal de "João Branco" era o fora de lei preferido. Eu explico: o nome de João Branco aparecia em quase todos os filmes porque ele era quem fazia as legendas em português!
Certa tarde a minha madrinha e eu fomos a uma festa na pensão da dona Lulu que funcionava no sobrado onde presantemente mora a família da minha amiga Stênia. Quando chegamos já estavam por lá muitos amigos. Começamos então a brincar de "artista" improvisando revólveres com pedaços de madeira. Eu saí em perseguição de Valter, mais conhecido como "capitão". Ele se escondeu por trás de uma porta e eu falei: Calmoniboy!  "Capitão" teve uma reação inesperada; bradando "eu não me rendo!" e atirou a sua "arma" na direção da minha testa: pô!  Atingiu em cheio o meu supercilio esquerdo e o sangue jorrou pra valer!  A minha madrinha Laura e Nini de dona Lulu vieram em meu socorro e deram um jeito do sangue estancar sem ser necessário levar pontos. Dali pra frente eu desisti de brincar de "artista".
Pelo que sei os meninos de hoje não brincam mais de "artista",de mocinho e bandido. Os "de menor" em grande e considerável parte são bandidos de verdade, empunham armas de verdade, assaltam, assassinam, cometem atrocidade cientes da quase impunidade devido à legislação vigente.
Na minha Bahia, antes cantada em prosa e verso como a "terra da felicidade" a qualquer momento pode-se deparar em plena luz do dia com um assalto à mão armada, meliantes levando dinheiro do caixa de estabelecimentos comerciais, marginais de bicicleta arrancando o celular de alguém, sujeitos vendendo drogas tranquilamente. A crueldade dos marginais é tanta que já ouvi vários depoimentos de vitimas que davam graças a Deus por terem escapado com vida!
A situação chegou a tal ponto que não existe nenhum lugar no país que a gente possa classificar de seguro e tranquilo. Até mesmo na minha Cachoeira natal, chegam-me notícias de locais como o antigo Virador e o monte Mangabeira no local onde funcionou o Hospital das Crianças tonarem-se regiões dominadas por facções e boca de fumo!!!
A situação que vivemos é muito delicada e exige uma reflexão e um cuidado maior de toda a sociedade. Longe vai os tempos do "calmoniboy" da minha geração.

"CAUSOS" VERÍDICOS
Uma questão de FÉ

Depois de haver sido adiada, finalmente acabou sendo programada a visita do último presidente militar, o general Figueiredo à Cachoeira a fim de apoiar os candidatos do seu aliado ACM ao pleito municipal.
Com centenas de repórteres e jornalistas, Figueiredo visitou as obras de Pedra do Cavalo e pagou o maior mico; acionou as comportas da barragem que estava vazia, não havia ainda água nenhuma! O episódio merecia figurar no Guinesse book, o "Livro dos Recordes".
Meus amigos, praticamente todos os funcionários foram mobilizados. Eu e a minha saudosa Luiza recebemos inclusive credenciais  do Palácio do Planalto para atuarmos na programação e recepção da comitiva presidencial. O governador do estado, o temido "Toninho Malvadeza" convocava os seus liderados oferecendo transporte e alimentação para a choldra. Aí do deputado, prefeito,a vereador que não comparecesse. Evento com ACM tinha de ter gente na praça.
Do comício realizado na praça da Aclamação (frente à prefeitura), tenho guardada a fita K-7 gravada por Tonho Monteiro, onde Figueiredo faz um discurso de apoio aos candidatos à prefeito (Geraldo, Adjarva e Orlando Régis) e na lembrança alguns figurões da época e a versão da música "Fuscão Preto" que estava nas paradas:
"Figueiredo, você tem peito de aço!"
Vamos rebobinar a fita para os dias em que estávamos mantendo contato com as lideranças das cidades circunvizinhas. No albor daquela manhã tão linda o nosso destino era  Cruz das Almas, cidade de ruas planas, extensas e largas. Eu e Lulu caminhávamos de mãos dadas por uma dessas ruas que eu não sei o nome. Um pouco distante, do outro lado da calçada, vinha caminhando uma senhora envergando uma bela indumentaria típica da minha Bahia, trazendo nas mãos uma caixa de papelão adornada com flores e a imagem de um santo. Ela estava fazendo o que a gente chama na Bahia de "missa pedida", ou seja esmolando, angariando recursos para realizar os festejos daquele santo que representava na verdade uma divindade de seus ancestrais. Tudo é uma questão de fé.
Por falar em "fé", no momento em que estou a digitar esta matéria, veio em minha cabeça uma velha piada atribuída a um correligionário do então candidato ao governo do estado Otávio Mangabeira que assomou ao palanque, no comício, e cravou a seguinte frase:
"Com fé em Nossa Senhora da Conceição da Praia! Com fé na Senhora dos Navegantes! Com fé no Senhor do Bonfim! Então meus amigos, com todas essas "fezes" reunidas, o doutor Mangabeira vai ser eleito governador da Bahia!"
Seguíamos, então, eu e Lulu, de mãos dadas, ambos silentes a ponto de ouvirmos o chulape-chulape da anágua engomada. Deve ter sido aquele barulho que chamou a atenção de um vira-latas que aproveitou o portão de alguma casa estar aberto e deu em cima da baiana,coitada.  Ela dava uma passada e o cachorro latia: au! au! au!
Ela parava e o cachorro parava de latir. Ela continuava chulape-chulape o cachorro latia e o som reverberava:au! au! au!
Já irritada procurou com os olhos alguma coisa para a fastar o animal. Num inseperado rompante, ela passou a mão na caixa, apanhou a imagem pelo pescoço e bradou:
- Eu pico essa porra em você !

NAS ASSINATURAS facsimiladas acima, cinco exerceram a advocacia.  A saber e pela ordem alfabética:
Alexandre Alves Maciel (1)
Aloysio de Souza (2)
Fortunato da Costa Dórea (3)
Luiz Rebouças Soares (5)
Nelson Alves da Silva (6)
Helvécio Vicente Sapucaia (4) foi  titular do Cartório e Tabelião de Notas.

DICÁRIO
Esta seção não tem a pretensão de dar aula ou ensinar o português aos que acompanham o nosso blogger. De uma forma simples, objetiva, direta, a mantemos na esperança de que esteja sendo útil a alguém.
Veja como aplicar o PORQUE, POR QUE, PORQUÊ e o POR QUÊ.
PORQUE - É uma conjunção causal ou explicativa. Exemplos:
"Não fui ao cinema porque optei por assistir um filme em casa."
"Ela não apareceu ao encontro porque ficou adoentada."
"Pô, cara, ligue o ventilador porque voltou a fazer calor!"
"Alguém está em casa,sim, porque a janela está aberta!"
PORQUÊ - Com o acento circunflexo (chapeuzinho) na letra "e". É a forma substantivada que vem sempre antecedida dos artigos "o" ou "um". Exemplos:
"Gostaria de saber o porquê da sua precipitada decisão."
"Você poderia esclarecer o porquê para isso tudo?"
POR QUÊ - Também com o circunflexo e é usado apenas no final de frases. Exemplos:
"Parou, parou por quê?!"
"Você não leu a matéria sobre o professor Renato, por quê?"
"Eu não sei por quê mas, a verdade é que o Flamengo tornou-se campeão carioca deste ano!"
POR QUE - Sem o circunflexo, é usado em formas interrogativas diretas ou indiretas. Exemplos:
"Por que você não apareceu?"  (Pergunta direta)
"Gostaria de saber por que você fugiu!" (Pergunta indireta)
Vamos complicar mais um pouco: a forma acima pode ser substituída por, por qual, pela qual, e, no plural, pelos quais e pelas quais. Exemplos:
"Eu sei das dificuldades por que passei (pelas quais)
 Ou quando houver aa palavra motivo antes, depois ou subentendido. Exemplos:
"Desconhecemos os MOTIVOS por que o projeto foi adiado." (Pelos quais)
"Não sei por que motivo ela não veio ao meu encontro!" (Por qual)

 

 
Curiosidades da Bíblia
A palavra imortal aparece na Bíblia apenas uma vez,e, se encontra na carta de Paulo a Timóteo, capítulo primeiro versículo dezessete:
"Assim, ao Rei Eterno, imortal, invencível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos, Amém!" 
 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O Dia da Renúncia 

POR simpatia e amizade eu fazia parte do grupo político do deputado Raimundo Rocha Piris, - Pirinho -. Fui seu paciente no consultório que ele abriu no Edifício Hilda na vizinha cidade de S.Félix, na Bahia, depois seu colaborador espontâneo nos projetos esportivos que ele implantou quando prefeito da referida cidade, e, finalmente, seu eleitor nas ocasiões em que ele disputou (e venceu) como candidato a Deputado Estadual.
Estava participando de uma reunião na casa do professor Álvaro Lima Freitas quando foi aventado o meu nome para compor a chapa  Arena 3 a fim de concorrer a uma vaga na edilidade da minha terra natal. Diante dos elogios, acabei sendo atingido pela flecha da vaidade que atinge os postulantes políticos. Mais tarde, quando cheguei em casa caí na real: Meus Deus - pensei - , no que fui me meter? Bancário não era uma função simpática, o povão considerava como uma classe elitizada. Como vou conseguir votos? O primeiro passo estava óbvio: conseguir a adesão da maioria dos meus familiares. Isso não me faltou. Os amigos também não me faltaram e eu quero destacar dois dos mais saudosos e que saíram comigo batendo de porta em porta pela periferia: Lourival Melo - Lourinho - e Astério Góes, meu colega e compadre.  Eu mesmo não tinha prestígio político algum.
O autor aparece assinando o livro de posse
 Empossado Vereador, arregacei as mangas e comecei a trabalhar. Ao final do exercício do ano de 1971 já havia produzido 23 Requerimentos, 10 Moções, 19 Indicações, 07 Projetos de Lei, 02 Projetos de Resolução, 03 Emendas Aditivas, 02 Emendas Substituitivas e 01 Emenda Supressiva. Os três últimos referentes aos Orçamento municipal.
Imbuído da função de homem público, mantinha um relacionamento fraterno com todos os companheiros da Câmara, com o prefeito eleito, com o padre da paróquia Monsenhor Fernando Carneiro (meu compadre), e com o poder judiciário na pessoa do juiz da comarca dr.Joaquim José de Carvalho Filho (foto).
 Aliás, e por oportuno, encontrando-me com o doutor na Gruta Azul, fiz a seguinte pergunta:
- Meritíssimo, eu sei o significado da palavra porém, juridicamente, qual o significado de o vereador "prestar um serviço relevante à comunidade?"
E ele me deu uma resposta surpreendente de "relevante":
- Se o Edil cometer uma infração goza o privilégio de uma cela especial! Bela primazia.

A Câmara reunida na sessão do 25 de Junho de 1971
Em abril do ano de 1972 o assunto político da cidade era a eleição da nova Mesa Diretora da Câmara. Eu já exercia a 1ª Secretaria. Fui surpreendido com o convite do grupo do então prefeito Ariston Mascarenhas para ser o candidato para ocupar a presidência da Casa. Mais uma vez a flecha da vaidade me atingiu em cheio. Fiz uma análise da situação, auscultei alguns vereadores e não consegui obter de Ciro Mascarenhas (ligado ao ex-prefeito Julião) o seu voto. Isso daria empate e pelo Regimento o meu adversário, o ex-prefeito Stênio Henrique de Burgos ganharia a parada por ser mais idoso. Ari me tranquilizou assegurando que o vereador titular, Roque Cardoso Nonato retornaria de S.Paulo em tempo. O vereador em questão havia ido até São Paulo para se ordenar padre da Igreja Brasileira.
No dia aprazado para a realização da eleição da Mesa, o então presidente da Câmara. Geraldo Simões Santos, não permitiu que o titular assinasse o livro de presença e votasse. Protestei embasado no próprio Regimento Interno: o pedido de licença, não importava a quantidade de tempo pedido cessava diante da presença do requerente. Deu empate porque o substituto Ciro Mascarenhas votou. Peticionei e ingressei em Juízo.
Vida que segue. No mês de maio, em virtude de o Banco estar recebendo uma visita de um inspetor não compareci a uma sessão. Estava em casa me aprontando para jantar quando batem à porta o presidente em exercício Stênio Burgos acompanhado do amigo comum Gérson Torres. Não quiseram entrar. Fomos até a esquina onde não havia ninguém,estava deserta a rua. Stênio me informou que o vereador Roque Nonato havia entrado com um Requerimento solicitando a liberação do salão nobre para a solenidade de sua ordenação sacerdotal e foi aprovada. Comentei que não havia nada de irregular mas, o experimentado político vislumbrava problemas. Apanhou no bolso do seu paletó um telegrama assinado pelo governador do estado condenando o ato da Câmara e que fora chamado para se apresentar no Comando Militar do Exército em Salvador. Estávamos em pleno regime ditatorial. Vocês recordam que Stênio havia sido constrangido com uma prisão injusta, arbitrária e sem respaldo legal de um mandado judicial ? Leia o artigo sobre o golpe militar que foi postado neste blog. 
Que haveria de ser o autor do imbróglio? Não demorei em obter a resposta. No dia seguinte,a pessoa da qual eu suspeitava estava em pé na porta da igreja da matriz; era o padre Fernando!  Quando eu ia passando ele deu com a mão. Ele cumprimentava as pessoas de um jeito que parecia que estava dando adeus!  Ele insistiu. Fui ao seu encontro. Ele estava bastante irritado, rosto vermelho, repetindo aquele ruído característico de quem está tentando limpar a dentadura. Foi direto ao assunto;
- Você sabia que a Câmara cedeu o salão pra aquele descarado se ordenar?
Com bastante calma eu argumentei:
- Sabe, Vigário, o senhor me desculpe mas eu, embora ausente da sessão por motivo de trabalho, não vi nenhuma irregularidade, o local é cedido para eventos de pessoas que não fazem parte da edilidade...
E ele inopinadamente:
- Vou ,mostrar pra vocês (no plural) que vereador é merda!
Então eu retruquei:
- Peraí, Vigário, o senhor está atacando um poder constituído!
E ele confirmou:
- Vou mostrar que vereador é merda! 
Fiz uma comparação enquanto ele dava as costas e se dirigia à sua residência:
- O senhor não aceitaria se eu dissesse que o clero é uma merda!
A confusão estava formada. Eu estava disposto a lutar até o fim. Era uma questão de honra em defesa de uma Câmara empapada de tradição e de luta através da história.
Fui informado que Stênio foi pressionado. Apresentou-se em Salvador no comando do Exército. Na sessão plenária daquela semana, ele tentou colocar o Requerimento novamente para nova apreciação.Tratava-se naturalmente de  "matéria vencida", já apreciada e deliberada com a sua aprovação. O que poderia ser feito, uma "saída honrosa", seria o próprio vereador entrar com uma nova petição alegando qualquer coisa e abrindo mão do seu direito líquido e certo, fazendo uma desistência.
Quando terminou a sessão, Stênio disse que queria falar comigo em particular. Disse que a Arquidiocese de Salvador estava também empenhada, o governador, e o comandante do Exército, que todos os vereadores seriam chamados e que eu, em particular, ainda seria demitido do banco. Fiquei indignado.
No dia seguinte viajei pra Salvador e pedí guarida ao Jornal da Bahia na pessoa do jornalista Lopes Cunha que havia sido apresentado a mim em tempos passados pelo meu primo Clóvis Maciel. O jornal fazia oposição ao governador ACM. Imediatamente mandou a reportagem até Cachoeira à procura de Stênio que negou a pressão embora estivesse em seu poder com o documento comprobatório! A minha estratégia de defesa foi-se por água abaixo, fazer o quê?
Na sessão do dia 30 de maio, o vereador Roque Nonato protocolou o seu pedido de desistência. Pela ordem pedi para fazer um pronunciamento. Fiz um breve resumo histórico da Casa de reconhecida heroicidade, que eu não temia represálias, que não estava defendendo naquele momento o direito do colega mas da própria instituição. Os colegas, todos, não tiveram tal compreensão, infelizmente. Se tivessem aceito a minha argumentação, hoje, quando comemoramos 50 do golpe militar, a Câmara da Cachoeira estaria sendo alvo de reportagens pelo seu ato de bravura, ratificando o acontecimento histórico do 25 de junho de 1822.
Pedi licença e ausentei-me do plenário por alguns minutos. Redigi a minha renúncia e fiquei impedido de falar com clareza as razões do meu ato.
Meses depois, a ação que eu havia ajuizado foi julgada. Eu estava certo. A Câmara teria de realizar nova eleição. Todos os atos praticados foram nulos inclusive a minha renúncia. Ignorei. Caso retornasse passaria a ideia de que eu desejava era a presidência da Casa e não a defesa e a honra de pertencer ao poder legislativo da minha terra.
Daquela geração de jovens políticos, posso destacar os vereadores Romário Costa Gomes (advogado e jornalista), Antônio Moraes Ribeiro (administrador com formação em turismo tendo se destacado em projetos na Bahiatursa), o próprio Roque Cardoso Nonato (Bispo da Igreja com notável trabalho desenvolvido na área educacional) e, pouco depois, o vereador Roberval Gomes formado em agronomia.






 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

HOJE É MUITO FÁCIL o sujeito dizer que é de esquerda, esculhambar a ditadura que foi implantada no Brasil no ano de 1964, e, se possível, colocar no seu curriculum que foi perseguido e banido do país, ou foi preso político nos chamados "anos de chumbo" e até faturar uma graninha. Naqueles dias...
Na realidade, crianças, o que se via era a omissão, o silêncio, o colaboracionismo da grande imprensa (Diários Associados e depois Rede Globo), juristas, religiosos, entidades de classe e da própria sociedade. Assim, queridos, algumas narrativas e depoimentos que temos lido e assistido, nem sempre bate com a realidade dos fatos.
Na década de sessenta, além de pertencer ao grupo original de Os Tincoãs, ingressei nos quadros dos funcionários do extinto Banco da Bahia. Eu era um jovem idealista que amava os Beatles e os Rolling Stones e vivia o mundo de verdades próprias.
Bancos sempre foram execrados, símbolos do "capitalismo selvagem" Então, influenciado por colegas sindicalizados, sobretudo o meu cunhado Odilardo, fui envolvido na "luta de classe", afinal, conforme diziam em família, tive um tio chamado Jessé Loureiro de Brito que pertenceu ao Partidão, era jornalista e foi assassinado no Rio, além de um primo carnal chamado Clóvis Maciel que panfletou e esteve na Juventude Comunista na luta nacionalista de o  "Petróleo é Nosso!"
Conheci a obra de Karl Marx, o intelectual alemão fundador da doutrina comunista e outras obras adquiridas ou emprestadas. Adepto do pragmatismo considerei que tudo não passava de um sonho utópico, bastava dar uma olhadinha na história do nosso país cujo DNA indicava as quarteladas militares conforme veremos abaixo:
No dia 25 de novembro de 1889 Deodoro e outros acabaram com a monarquia;
Em 1° de novembro de 1930, com a deposição de Washington Luiz, Getúlio Vargas assumiu o poder ditatorial que durou quinze anos. Ele voltaria ao poder através do voto popular. Para evitar novo golpe militar, suicidou-se em 24 de agosto de 1954.
Daí pra frente, com o respaldo dos então governadores Carlos Lacerda (Rio), Ademar de Barros (S.Paulo) e Magalhães Pinto (Minas Gerais) o Exercito participava ativamente da política e queriam impedir a posse de João Goulart. Com a renúncia de Jânio Quadros (que queria também dar um golpe), Goulart era o presidente constitucional mas, era considerado pelo pessoal da direita e pelo Exército como "fraco, ingênuo e altamente influenciável".Os grupos políticos de direita e da esquerda, na verdade não faziam uma defesa da democracia. Só os ingênuos não sabiam de que lado viria o golpe.
Legalista, favorável às reformas apregoadas por Jango, foi, talvez por causa desse meu posicionamento que eu era considerado de esquerdista. Participei de apenas uma reunião na casa do ferroviário conhecido por Dê cuja residência era colada ao prédio onde funciona o Centro Espírita Obreiros do Bem. Lá estavam a esposa de Dê, Ananias Aragão, Luiz Raposo, Rodrigo e uns quatro cidadãos da zona rural. Era essa a "célula cachoeirana". Saí convicto da não existência de uma liderança, de qualquer estratégia (falava-se na "Liga Camponesa" liderada por Francisco Julião) e pronto!
Frequentava o bar de Dadinho o jovem acadêmico e funcionário do Tribunal de Contas do estado Aderbal Burgos, cujo pai havia sido prefeito da cidade mas ele próprio não havia disputado nenhuma eleição.  Ele era o intelectual, o que enchia a turma de literatura, mas o seu papo com a continuidade ficou chato. Tudo de melhor era Moscou!  Saia do sério se alguém falasse das atrocidades cometidas por Stalin.
De uma certa feita Dadinho me veio com essa:
"O comunismo é que tá certo...Pedro Actis tem duas fazendas, uma é minha! Alberto Bastos tem dois carros, um é meu!"
Os Estados Unidos da América, um país excencialmente democrata, paradoxalmente financiava a derrubada de Jango. No ano de 1962 o padre Patrick Peyton, com o apoio da USIS,(órgão americano) começou a distribuir equipamentos cinematográficos e distribuía filmes. Durante a festa do Rosário daquele ano, eu que havia sido operador do cinema,fui o encarregado de projeção. Depois, o mesmo religioso implantou a chamada "Cruzada do Rosário". O padre Fernando estava dentro. Eu que nunca rezei rosário na minha vida estava fora!
Todas as noite, um grupo de exaltados legalistas e adeptos das reformas de base discutiam política no jardim em frente ao cinema. Dos que estou a lembrar no momento, participavam do que eles próprios chamavam de "congresso", Adolpho Gottschal, Lourival Alves, Valter Evangelista, Abílio Figueiredo, Caboclo Sala, Stênio Burgos, doutor Claudiano,Aloísio Nunes...Badú do côco, tenente da reserva era um dos "congesssistas". Desconheço se emitia opiniões mas, foi acusado, depois, de "dedo duro". Não existem provas.
Antes do famoso comício da Central do Brasil, já acontecia na Cachoeira, no Dia de São José, o padroeiro das famílias, (e em várias cidades do Brasil), a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" contra João Goulart. 
Devo advertir aos mais jovens que naqueles tempos a comunicação não era como hoje praticamente instantânea. Em a noite do dia 31 de março falou-se que tropas contrárias a Jango marchavam em direção ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, Aderbal Burgos, através dos alto-falantes "Vozes da Primavera" concitava os cachoeiranos à luta, porque Jango havia ido para o Rio Grande do Sul liderar uma resistência apregoada pelo seu cunhado Brizola.  O Congresso ilegitimamente deu o cargo como vago empossando o presidente da Câmara com respaldo do Poder Judiciário. O general Castelo Branco assume a presidência com total apoio da sociedade e da grande imprensa. Jango, sabedor que os EUA planejavam interferir resolveu deixar o país.
Na segunda quinzena do més de junho, um oficial militar conhecido por Hugo, da família da professor Mariinha Carneiro, esteve na Cachoeira equipado com uma máquina fotográfica. Chamou a atenção por isso. Dias depois, ele próprio com um subalterno, com um jeep, sem qualquer mandado judicial, saiu efetuando prisões arbitrárias e atemorizando as famílias dos implicados. Foram efetuadas, segundo soube, as prisões do ex-prefeito Stênio, Adolpho, Caboclo Sala, Lourival Alves, Paulino Batista (tio Popó), Elias Cardoso (Paco-Paco). Ananias Aragão e Luiz Raposo dizem que se livraram. O primeiro porque estava hospitalizado e o segundo evadiu-se. Eu havia saído do Banco e fui levado pelo compadre Divaldo Sales para ficar escondido em sua casa. Familiares queimaram os meus livros! Ninguém sabia o destino dos presos. O medo tomou conta de toda a comunidade. Diziam que o padre foi quem fez a lista dos "comunistas" mas o que ninguém entendeu até hoje foram as prisões de Elias, Caboclo Sala e Popó! 
Talvez devido ao fato de o meu filho Lerinho haver nascido dias antes (dia 23) eu escapei de ir preso.Não tenho notícias se alguém foi indenizado pelo constrangimento ilegal.
Com o tempo, o golpe que ia evitar a tomada do poder pelos esquerdistas, acabou se transformando numa ditadura sem precedentes. Hoje sabemos que não se inventou nada melhor do que a boa e velha Democracia.
Na próxima postagem nós vamos falar do dia em que a Câmara da Cachoeira perdeu a chance de enfrentar o regime militar.



PARA os que apreciam o assunto, reproduzimos acima mais cinco assinaturas facsimiladas de cidadãos que tiveram papel destacado na política e na sociedade cachoeirana.
1 - ALBINO JOSÉ MILHAZES
Industrial, exportador de folhas de fumo. Fazia oposição a Ubaldino de Assis. A cidade era dividida entre as duas lideranças. Albino era Lira Ceciliana e promovia as festividades da Igreja do Monte, enquanto Ubaldino era Minerva Cachoeirana e promovia as festividades de Nossa Senhora  da Ajuda.
2 - DR.INOCÊNCIO DE ALMEIDA BOAVENTURA
Foi nomeado Intendente (Prefeito) da cidade no período de 1921 a 1925 onde veio a passar mal durante a sessão solene do 25 de Junho ao bradar: Viva a Cachoeira!
3 - CÂNDIDO CUNEGUNDES BARRETO
Assumiu o cargo de Intendente (Prefeito), no período de 1928 a 1930 dotando a cidade de energia elétrica pública. Era pecuarista e proprietário de açougues.
4 - DR. AURELINO SERAFIM DOS ANJOS
Médico humanitário, exerceu vários cargos públicos como diretor da Santa Casa e Delegado de Polícia. Foi presidente da Câmara de Vereadores (1947/48) e exerceu o cargo de Prefeito de agosto a dezembro de 1945,
5 - STENIO HENRIQUE DE BURGOS 
Líder sindical na classe ferroviária, foi eleito Prefeito de 1955/58 realizando uma excelente administração. Foi perseguido durante o regime militar.
Tive o privilégio de ter sido seu companheiro na Câmara de Vereadores. 

 
 
Curiosidades da Bíblia
O Rei Davi, além de poeta, cantor e músico, foi inventor de vários instrumentos musicais, conforme podemos ler em Amós, capítulo 6 versículo 5.

 
        DICÁRIO
 Distinga entre o que é mais, mas e más.
MAIS - É o contrário de menos. Exemplo: Hoje, amanheci  mais descansado. Também, pudera, não trabalhei!
MAS - É o mesmo que, entretanto, todavia, porém, contudo etc. Exemplo: Alguém leu o aviso mas não entendeu porra nenhuma!
Outro exemplo: Sujeito cara de pau da zorra; não foi convidado mas foi à festa!
MÁS - É o plural de má, pessoa perversa, que não é boa. Exemplo: Com certeza eram más as suas intenções.
Outro: Caramba,cara, você só me aparece com más ideias!