sexta-feira, 4 de abril de 2014

HOJE É MUITO FÁCIL o sujeito dizer que é de esquerda, esculhambar a ditadura que foi implantada no Brasil no ano de 1964, e, se possível, colocar no seu curriculum que foi perseguido e banido do país, ou foi preso político nos chamados "anos de chumbo" e até faturar uma graninha. Naqueles dias...
Na realidade, crianças, o que se via era a omissão, o silêncio, o colaboracionismo da grande imprensa (Diários Associados e depois Rede Globo), juristas, religiosos, entidades de classe e da própria sociedade. Assim, queridos, algumas narrativas e depoimentos que temos lido e assistido, nem sempre bate com a realidade dos fatos.
Na década de sessenta, além de pertencer ao grupo original de Os Tincoãs, ingressei nos quadros dos funcionários do extinto Banco da Bahia. Eu era um jovem idealista que amava os Beatles e os Rolling Stones e vivia o mundo de verdades próprias.
Bancos sempre foram execrados, símbolos do "capitalismo selvagem" Então, influenciado por colegas sindicalizados, sobretudo o meu cunhado Odilardo, fui envolvido na "luta de classe", afinal, conforme diziam em família, tive um tio chamado Jessé Loureiro de Brito que pertenceu ao Partidão, era jornalista e foi assassinado no Rio, além de um primo carnal chamado Clóvis Maciel que panfletou e esteve na Juventude Comunista na luta nacionalista de o  "Petróleo é Nosso!"
Conheci a obra de Karl Marx, o intelectual alemão fundador da doutrina comunista e outras obras adquiridas ou emprestadas. Adepto do pragmatismo considerei que tudo não passava de um sonho utópico, bastava dar uma olhadinha na história do nosso país cujo DNA indicava as quarteladas militares conforme veremos abaixo:
No dia 25 de novembro de 1889 Deodoro e outros acabaram com a monarquia;
Em 1° de novembro de 1930, com a deposição de Washington Luiz, Getúlio Vargas assumiu o poder ditatorial que durou quinze anos. Ele voltaria ao poder através do voto popular. Para evitar novo golpe militar, suicidou-se em 24 de agosto de 1954.
Daí pra frente, com o respaldo dos então governadores Carlos Lacerda (Rio), Ademar de Barros (S.Paulo) e Magalhães Pinto (Minas Gerais) o Exercito participava ativamente da política e queriam impedir a posse de João Goulart. Com a renúncia de Jânio Quadros (que queria também dar um golpe), Goulart era o presidente constitucional mas, era considerado pelo pessoal da direita e pelo Exército como "fraco, ingênuo e altamente influenciável".Os grupos políticos de direita e da esquerda, na verdade não faziam uma defesa da democracia. Só os ingênuos não sabiam de que lado viria o golpe.
Legalista, favorável às reformas apregoadas por Jango, foi, talvez por causa desse meu posicionamento que eu era considerado de esquerdista. Participei de apenas uma reunião na casa do ferroviário conhecido por Dê cuja residência era colada ao prédio onde funciona o Centro Espírita Obreiros do Bem. Lá estavam a esposa de Dê, Ananias Aragão, Luiz Raposo, Rodrigo e uns quatro cidadãos da zona rural. Era essa a "célula cachoeirana". Saí convicto da não existência de uma liderança, de qualquer estratégia (falava-se na "Liga Camponesa" liderada por Francisco Julião) e pronto!
Frequentava o bar de Dadinho o jovem acadêmico e funcionário do Tribunal de Contas do estado Aderbal Burgos, cujo pai havia sido prefeito da cidade mas ele próprio não havia disputado nenhuma eleição.  Ele era o intelectual, o que enchia a turma de literatura, mas o seu papo com a continuidade ficou chato. Tudo de melhor era Moscou!  Saia do sério se alguém falasse das atrocidades cometidas por Stalin.
De uma certa feita Dadinho me veio com essa:
"O comunismo é que tá certo...Pedro Actis tem duas fazendas, uma é minha! Alberto Bastos tem dois carros, um é meu!"
Os Estados Unidos da América, um país excencialmente democrata, paradoxalmente financiava a derrubada de Jango. No ano de 1962 o padre Patrick Peyton, com o apoio da USIS,(órgão americano) começou a distribuir equipamentos cinematográficos e distribuía filmes. Durante a festa do Rosário daquele ano, eu que havia sido operador do cinema,fui o encarregado de projeção. Depois, o mesmo religioso implantou a chamada "Cruzada do Rosário". O padre Fernando estava dentro. Eu que nunca rezei rosário na minha vida estava fora!
Todas as noite, um grupo de exaltados legalistas e adeptos das reformas de base discutiam política no jardim em frente ao cinema. Dos que estou a lembrar no momento, participavam do que eles próprios chamavam de "congresso", Adolpho Gottschal, Lourival Alves, Valter Evangelista, Abílio Figueiredo, Caboclo Sala, Stênio Burgos, doutor Claudiano,Aloísio Nunes...Badú do côco, tenente da reserva era um dos "congesssistas". Desconheço se emitia opiniões mas, foi acusado, depois, de "dedo duro". Não existem provas.
Antes do famoso comício da Central do Brasil, já acontecia na Cachoeira, no Dia de São José, o padroeiro das famílias, (e em várias cidades do Brasil), a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" contra João Goulart. 
Devo advertir aos mais jovens que naqueles tempos a comunicação não era como hoje praticamente instantânea. Em a noite do dia 31 de março falou-se que tropas contrárias a Jango marchavam em direção ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, Aderbal Burgos, através dos alto-falantes "Vozes da Primavera" concitava os cachoeiranos à luta, porque Jango havia ido para o Rio Grande do Sul liderar uma resistência apregoada pelo seu cunhado Brizola.  O Congresso ilegitimamente deu o cargo como vago empossando o presidente da Câmara com respaldo do Poder Judiciário. O general Castelo Branco assume a presidência com total apoio da sociedade e da grande imprensa. Jango, sabedor que os EUA planejavam interferir resolveu deixar o país.
Na segunda quinzena do més de junho, um oficial militar conhecido por Hugo, da família da professor Mariinha Carneiro, esteve na Cachoeira equipado com uma máquina fotográfica. Chamou a atenção por isso. Dias depois, ele próprio com um subalterno, com um jeep, sem qualquer mandado judicial, saiu efetuando prisões arbitrárias e atemorizando as famílias dos implicados. Foram efetuadas, segundo soube, as prisões do ex-prefeito Stênio, Adolpho, Caboclo Sala, Lourival Alves, Paulino Batista (tio Popó), Elias Cardoso (Paco-Paco). Ananias Aragão e Luiz Raposo dizem que se livraram. O primeiro porque estava hospitalizado e o segundo evadiu-se. Eu havia saído do Banco e fui levado pelo compadre Divaldo Sales para ficar escondido em sua casa. Familiares queimaram os meus livros! Ninguém sabia o destino dos presos. O medo tomou conta de toda a comunidade. Diziam que o padre foi quem fez a lista dos "comunistas" mas o que ninguém entendeu até hoje foram as prisões de Elias, Caboclo Sala e Popó! 
Talvez devido ao fato de o meu filho Lerinho haver nascido dias antes (dia 23) eu escapei de ir preso.Não tenho notícias se alguém foi indenizado pelo constrangimento ilegal.
Com o tempo, o golpe que ia evitar a tomada do poder pelos esquerdistas, acabou se transformando numa ditadura sem precedentes. Hoje sabemos que não se inventou nada melhor do que a boa e velha Democracia.
Na próxima postagem nós vamos falar do dia em que a Câmara da Cachoeira perdeu a chance de enfrentar o regime militar.



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