sexta-feira, 23 de maio de 2014

 "CAUSOS" VERÍDICOS
Assombração no Monte
PROVAVELMENTE deve passar aí na Bahia a propaganda em que um dos protagonistas é o Compadre Washington  garantindo que "sabe nada,inocente", que um bom negócio é desapegar. Desapegar,como, Compadre? Desde menino, quando deixei de fazer xixi nas calças vou guardando jornais, fotografias, recortes,anotações,idéias para contar novo "causo",um inferno.
Outro dia, alguém publicou no "feice" uma fotografia do mestre Machado. Comecei a remexer os meus alfarrábios e nada encontrei naquela zona literalmente falando.  Ih, rapaz lembrei: meu amigo Cacau (Luiz Cláudio Nascimento) no seu excelente livro Bitedô - Onde moram os Nagôs, faz alusão ao velho artífice cachoeirano. Vamos ver? Encontrei! Segue abaixo:
"Porém, certa ocasião, fui interceptado na rua por Manoel Eugênio Machado, que me convidou à sua casa para ma falar algumas coisas que me interessavam. Em sua residência, mestre Machado, como era conhecido, me ofereceu uma pasta contendo papéis com anotações,poemas,jornais..."
Eu usava calças curtas, ainda, quando brincava com outros garotos da minha idade no adro da igreja do Monte. Ali era o meu habitat. Ali  as famílias Mascarenhas, Neves, Pinheiro, Bastos, Martins, Neiva etc formavam uma só família. Ali morava um motorista, - que na época todo mundo chamava de "chauffeur de praça" - de nome Abílio cognominado Abílio Miserinha. Não faço idéia do porquê disso. Então, galera, naquela verdadeira mansão que começa no Monte e dá acesso ao Curiachito, confrontando com o quintal da atual residência do doutor Pina, foi morar o mestre Machado e sua primeira esposa cujo nome que está na minha cabeça é Elvira, isso porque todo mundo a chamava de "Vizinha". Vizinha era uma pessoa boníssima, aparentava ter uma saúde frágil. Lembro-me de haver frequentado a casa nos carurus de São Cosme. Vizinha faleceu e o mestre Machado casou-se em segunda núpcias com a professora Zuleica.
Artesão realmente versado na arte da marcenaria. A sua tenda funcionava na parte térrea de um sobrado localizado no adro da igreja da Ajuda. Ele fabricava móveis de qualidade em madeira de lei. Na Escola Industrial, ele e Antônio Porto eram titulares na disciplina de artes manuais. Mestre Machado prosseguiu dando aulas no antigo Ginásio da Cachoeira. A turma inteira já sabia do seu amor para com o Flamengo, de sorte que, antigos trabalhos feitos em compensado eram lixados, pintados, colocando-se uma figura de passar com o escudo do seu clube do coração pra tirar nota dez!
Numa certa tarde que longe vai, a turma estava na maior zona na sala de aula enquanto ele não chegava. Heraldo Bouzas, (ele mesmo, meu saudoso companheiro de Os Tincoãs), e Pedro Jorge, dentre outros, começaram a pegar pequenos pedaços de compensado para jogar uns nos outros, outros no um... De repente, Pedro Jorge, exagerando na dose pegou no chão um pedaço de madeira e atirou em direção de Heraldo que se abaixou milagrosamente enquanto a tábua ia em direção à porta que se abriu de repente aparecendo quem? Tchan-tchan-tchan-tchan!  Isso, isso, isso: o mestre Machado!  Um silêncio sepulcral se fez ouvir, sobretudo porque o projétil atingiu em cheio o supercílio do mestre e o sangue começou a jorrar. Ele entrou na sala cerrando a porta atrás dele. Sentou-se. Apanhou no bolso do paletó um lenço encardido,e, deu-se conta de que estava sangrando. Sangrando muito porque porradas no supercílio...
Aparentando calma passou a olhar para cada um dos alunos. A turma permanecia silente. Levantou-se e disse:
- Tenho certeza que ninguém vai apontar quem foi o bandido, - falou pousadamente -, o bandido que tirou sangue de mim! 
Até então ninguém sabia que ele era conhecedor de tantos palavrões e tinha tamanha disposição para soltá-los. E ele desabafou:
- Cambada de cornos! Filhos da puta! Quem atirou o pau que me atingiu, quando chegar em casa, digo mesmo pra ofender, levanta a saia da mãe e pan!  Joga a madeira naquele lugar, bem naquele lugar!
A explosão de gargalhada poderia ser ouvida na praça Maciel.
Foi num dia de maio, o mês das flores, das noivas e de Maria, como a gente anunciava no serviço volante do Néia Magazine que aconteceu um drama de grande comoção na cidade inteira, no albor daquela manhã tão linda, com a notícia do súbito falecimento da bela Salete, uma jovem ginasiana que estava completando o curso, era muito bem relacionada e estava por casar, era noiva.  Foi acometida de um ataque cardíaco fulminante. 
A nave da igreja do Monte recebeu um ataúde mais alvo que a neve. Era intenso o fluxo. A juventude em flor não entende, se apavora diante da morte. Murmúrios, lamentações e choros convulsivos. Foi grande a histeria quando da saída do cortejo fúnebre.
Duas horas depois, se tanto, vizinhos do Cemitério da Piedade começaram a escutar gritos de socorro abafados, batidas de madeira. O boato se espalhou como o rastilho de pólvora. A autoridade policial, acompanhada de um mundo de gente compareceu ao cemitério, a moça poderia ter sido vitima de um ataque e ter sido enterrada viva!
Aberta a sepultura, aberto o caixão, o corpo da jovem Salete permanecia na mesmíssima posição em que fôra enterrada, infelizmente.
Por livre e espontânea vontade, tomei por encargo bolar uma coisa nova para a coroação da Virgem na última noite do mês Mariano. Ocorreu-me a lembrança de que o mestre Machado, além de ter confeccionado o mobiliário da Irmandade e a charola de São Benedito, uma corbelha enorme onde N.S. da Conceição surgia entre flores. Conversei com meu compadre Valdir logo depois do enterro a fim de a gente ir buscar a tal da corbelha. Não poderia ser muito cedo senão o elemento surpresa da coroação seria conhecida, perderia a graça.
Eram 10h da noite, mais ou menos quando eu, meu compadre Valdir de Gegeu e os dois Roque, o meu irmão e o genro dele fomos até o Monte. Valdir já estava de posse da chave da sacristia por onde entramos. De posse de um isqueiro Valdir encontrou o quadro de interruptores de luz e mandou brasa: acendeu tudo, inclusive as lâmpadas da fachada da igreja! Isso acabou por chamar a atenção de alguns moradores, o corpo da moça que havia  "ressuscitado" foi velado ali ! De repente a rua ficou cheia.
Lá dentro, comentei com Valdir que a corbelha era demasiadamente grande, não passaria facilmente pela porta da sacristia. E disse:
- Compadre, não adianta a gente perder tempo, vamos sair pela porta da frente.
Como era do seu costume ele arguiu com aquela sua maneira peculiar de falar:
- Pu-pu-pu-puta que pa-pa-pa-pariu, Erivaldo, - como é que se diz? - vo-vo-vo-você é cheio de si-si-si-simetria...
Dirigimo-nos ao local. Sem qualquer aviso, Valdir deu um pulo felino ao mesmo tempo em que arriava o grande ferrolho metia os pés na porta:     
PRÁÁÁÁÁÁ 
Foi uma correria enorme das pessoas que estavam reunidas na rua, ninguém estava esperando aquele desfecho. 
Lembro-me apenas de um ferroviário que desceu ladeira abaixo com uma capa colonial embaixo do braço e ficou parado espiando no passeio da fábrica Leite Alves, e, de Dilcéia, esposa de Claudinho que mesmo estando prestes a ganhar neném, com aquele barrigão, passou na frente de muita gente e ficou olhando, apavorada, da porta da sua casa.

 


 




 
 

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