sexta-feira, 16 de maio de 2014

HISTÓRIA
                         O Treze de Maio
Não tive notícias se houve alguma festividade em minha terra natal pela passagem dos 126 anos da data epigrafada, quando se deu a abolição do elemento servil em nosso país. Nem mesmo tive conhecimento se a filarmônica Lira Ceciliana (que também aniversaria) desfilou pelas ruas da Cidade Heróica, empapada de glórias, tradições e filhos ilustres, dentre esses os engenheiros Antônio e André Rebouças., ambos declaradamente abolicionistas. Na Cachoeira o movimento libertário era muito forte; jornais como O Abolicionista e O Guarany, instituições religiosas notadamente a da Boa Morte e figuras de renome como o consagrado maestro Tranquilino Bastos faziam parte da campanha.
Então, galera, naquele 13 de maio de 1888, assim que chegaram as notícias da capital de província, uma grande massa se concentrou em frente à casa do renomado maestro dando vivas à liberdade. Organizou-se uma passeata. O jornalista e historiador Jorginho Ramos no seu precioso livro "O Semeador de Orquestras nos conta o seguinte:
Capa do livro de Jorginho Ramos
"Foi inspirado nesse e em outros ideais que Tranquilino Bastos fundou a Euterpe Ceciliana. Os músicos era em sua maioria negros e mulatos. Os dirigentes, sócios e meros adeptos da filarmônica eram simpatizantes e até mesmo engajados, de alguma forma na luta contra a escravidão. A Euterpe Ceciliana era uma instituição atrelada ao movimento e o próprio Tranquilino Bastos  colocou  seu talento a serviço da causa, ao criar diversas composições inspiradas na luta pela libertação dos negros".
A data, portanto, - como foi até quando eu era menino,-  figurava no calendário como uma das mais importantes da cidade. Devemos ter em mente que a Cachoeira não foi construída pelos Adornos ou outro figurão que a história oficial registra. Quem deu o duro, quem pegou no pesado nas construções  foram os nossos irmãos africanos. Muito devemos ao homem da roça, o lavrador do Iguape, São Francisco, Capoeiruçu e Belém, das charuteiras, quituteiras, do pai de santo e do povo do candomblé perseguidos pela polícia, dos vaqueiros, do pessoal da matança, dos saveiristas, dos embarcadiços quando éramos um formidável entreposto comercial, das putas que vendiam o seu corpo e o dinheiro circulava na praça. Foi essa gente humilde que construiu a Cidade Monumento Nacional.
 

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