sexta-feira, 22 de agosto de 2014

NÓS,OS BAIANOS, fomos formados basicamente de três grupos étnicos: os índios, os colonizadores europeus e dos africanos. Essa mistura que os letrados chamam de miscigenação, fez com que os baianos sejam receptivos, alegres, musicais ("O baiano não nasce, estréia"), enfim, malemolêntes, faceta que é exageradamente dimensionada fora do estado.
A calma, a tranquilidade, a preguiça fazem parte da personalidade dos baianos e a explicação vêm sobretudo das questões climáticas. Já pensaram o sujeito "bater" uma feijoada completíssima, uma maniçoba, uma moqueca de camarão ou petitinga (aqui chamada de manjubinha), um mocotó, um caldo de sururu (uma espécie de mexilhão) e enfrentar em qualquer época do ano aquele sol de quase dezembro? Pois é! Pois é! Pois é!
Dois dos grandes escritores baianos, Jorge Amado (1912-2001) e Adonias Filho(1915-1990), com o fulgor das suas inteligências, juntaram em suas obras a ficção, a história e a literatura, esmiuçando as diferenças étnicas que acabaram por influenciar o modo de ser e a cultura nos nascidos na Boa Terra.
Quando eu ainda morava em Muritiba, na Vila Residencial, quando existia alguma folga no orçamento familiar, a minha saudoso esposa, Luiza, gostava de "ir às compras" na cidade de Feira de Santana. Então, certo dia, saímos eu, Lulu, meu filho caçula Brito Filho (Tinho) e a professora dele, Vaninha, no carro de Zelito, motorista da praça.
Quando da nossa chegada o destino era invariavelmente o Calçadão, onde ficava um agrande loja de produtos para artesanato em geral. Lulu adorava ver as novidades em matéria de decoração, mesas para eventos diversos, cartões em vegetal, forminhas, um mundo de coisas.
Frente à loja, - lembro-me bem -, tinha uma barraca onde se vendiam pastéis. Os Britos não resistem aos pastéis. A dona Luiza se aproveitava para dar o recado:
- É muito bom que vocês forrem a barriga pra ninguém dar pressa de voltar!
 E o tempo foi passando...passando... Para o Tinho, conforme disse o poeta, era "um longo, frio e tenebroso inverno" e não demorou de ele reclamar:
- Vambora, mãenha ! Quero ir pra casa!
E ela:
Vamos dar um pulinho no mercado, prometo que não vamos demorar. Em lá chegando compramos biju de coco, tapioca, farinha e  requeijão. Demos uma entradinha para visitar um box logo na porta de entrada. O proprietário estava refestelado em sua espreguiçadeira e se comportou como se não estivesse entrando ninguém. E o Tinho reclamando:
- Vambora, mãenha!
Lulu, então, interessou-se por uma cestinha de palha. Levantando-a perguntou ao dono do box:
- Freguês, quanto é que custa?
E ele que estava cochilando, abriu os olhos e disse com aquela fala arrastada:
- É sete !
Para acelerar o processo, apanhei um cédula de dez reais e ele recusou a receber dizendo:
- É sete!
E Lulu arrematou:
- Eita preguiça sanfranciscana !
Ainda bem que eu tinha trocado no bolso porque, com certeza, o nosso amigo não se levantaria daquela cadeira de jeito nenhum pra passar o troco. Preferia não vender.
 
 

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