sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A construção da barragem de Pedra do Cavalo, uma obra do governo do estado da Bahia,em dado momento passou a ser o que comumente se chama de "cabide e emprego",e, a cada dia chegava mais um, sobretudo para o SERAD - Setor Administrativo - . Eu costumava saudá-los parafraseando um comercial muito badalado à época da Caixa Econômica Federal: 
- Vem pro SERAD você também...Veeemmm ! 
A "tia" Geni, copeira, colaborava no "batismo" dos recém-contratados servindo para eles não uma chicarazinha de café, mas, uma chicara GRANDE contendo sal !  E o mais incrível é que alguns chegavam a tomar tudinho apesar do riso da galera.
Tinha, também, mandar o coitado levar uma pesadíssima caixa que veio com uma máquina elétrica de escrever,cheia de pedras, andar pra baixo e pra cima no canteiro de obras com um calor de rachar bola de gude!
A minha pegadinha predileta era mandar o coitado lavar folhas de papel carbono alegando que ainda poderiam ser aproveitados. Para os mais novos uma explicação: papel carbono era um papel especial envolvido com um pigmento azul ou preto e era utilizado para multiplicação de cópias,pois não existiam as modernas impressoras.
Então, quando o lavatório estava cheio de tinta, aparecia o chefe administrativo,Aurelino Mário de Assis Ribeiro (Lelo), e dava o maior esporro:
- Você ficou maluco, rapaz? Que porra é esta?
E o novato tentava justificar:
- Foi o Brito que mandou...
- Limpa agora mesmo tudo isso aí !
E saía contendo a gargalhada
Dentre os personagens que enriqueceram os meus dias de barrageiro figuram os dois "Josés": José "Odorico" e José Carlos (Biro-Biro). Os dois estavam sempre em campos opostos,sempre pelejando até por fúteis motivos.
Certa feita, no meio de uma discussão em que um acusava o outro de ser puxa-saco me veio com essa:
- Você vai escolher AGORA, um engenheiro qualquer, pode ser da Odebrecht, Desenvale, Ceped ou Geotécnica e eu vou na sala dele e digo muita liberdade, esculhambo com ele. 
Zé Odorico recuou, ficou claudicante, não decidiu. Diante do inusitado revolvi dar o meu pitaco:
- Posso sugerir ?!
Os dois não toparam,feliz ou infelizmente.
Quando o doutor Imbassahy assumiu a secretaria estadual de recursos hídricos acumulando com a presidência da Desenvale, eu fui chamado para dirigir um projeto josrnalístico, surgindo daí o mensário Desenvale Notícias.Recrutei da Odebrecht a minha esposa, Luiza para secretariar o setor de comunicações,e,sobretudo para escrever numa IBM elétrica os textos na escala dentro da colunas estabelecidas. Luiza era fera!
O jornal era impresso em Salvador na gráfica de propriedade de Joaquim Cruz, meu conterrâneo e amigo de infância. Joaquim possuía um moderno parque gráfico com impressoras em offset, inclusive efetuando trabalhos em policromia.
O setor de comunicação funcionava junto a um auditório com mais de trezentos assentos. Ali recepcionavam-se visitantes, faziam-se palestras, exibiam-se filmetes da obra etc. Dificilmente a minha sala estava vazia, sobretudo nas segundas-feiras. Veio-me naquele dia inesquecível o Carlinhos Biro-Biro com uma novidade. Com ele a palavra:
- Botei na cabeça pra dar um passeio nas bandas da antiga Charqueada. A maré estava baixa. Sentei na Pedra Rachada e fiquei olhando as águas do rio, a outra margem onde via o Hospital de São Félix, o Varre Estrada...De repente, apareceu do nada um objeto metálico pairando a poucos centímetros do solo. Fiquei como que hipnotizado. Resultado; num passe de mágica eu só acordei dentro da espaçonave sendo observado por dezenas de alienígenas. Os caras eram mais magros do que eu, bracinhos e pernas finas e uma cabeça grande, olhos enormes...Parecia um gafanhoto ou um louva-deus com aquelas cabeças-de-arromba-navio! 
Deixei ele prosseguir sem sorrir nem falar:
- Dei uma bispada (olhada) em redor, assim meio desconfiado, numa cagaço (medo) danado de bater a caçuleta (morrer). Que esparro (uma fria) eu me meti !
E eu estava atento, não podia perder nenhum detalhe. Biro-Biro prosseguia:
- Mano velho, um deles de aproximou e fui informado que a nosso comunicação era via energia celebral, através do pensamento.
E a narrativa do Biro-Biro estava ficando mais interessante quando ele chegou no planeta do alienígena. A visita, segundo ele, não demoraria, ele que fora abduzido porque estava (segundo ele) dando bombeira (sem ter o que fazer,desocupado). 
Vamos deixar com ele a narrativa:
- Então seu Brito, o mangangão (manda chuva) da turma "conversou" comigo, "falou" (através do pensamento), da tecnologia avançada deles, que em qualquer lugar do universo é possível escutar sons, melodias intermináveis como aquela que eu estava escutando no planeta deles,e que a terra era prejudicada pelo barulho das nossas máquinas; que o calor gerado pelo nosso sol é o resultado de uma reação nuclear e não química, e que, apesar de brilhante ele não está queimando; que em nosso planeta, o que provoca as estações do ano, como o verão, não é a proximidade do sol, mas uma inclinação no eixo orbital que o tende para um lado.
Por fim, o extraterreste comento com Biro-Biro que "a astrobiologia estava engatinhando na terra", que eles já vinham há anos dando provas da existência deles fazendo desenhos de alta complexidade nos campos do mundo inteiro.
Já de volta para a aeronave, Biro-Biro resolveu preguntar:
- E a cura de doenças como o câncer?
O alienígena respondeu de pronto:
- Com uma planta que existe em abundância na terra: a semente do girassol !
Biro-Biro exultou:
- Rapaz!  Tô rico !  Vou comprar a fazenda de Benedito Luz, o posto de Caboclo Sala...
E o ET emitiu um pensamento de quem não gostou:
- Você agora, rapaz, não poderá mais retornar à terra, nosso código de ética não permite explorar o seu semelhante. Ato contínuo deu-lhe uma "gravata" para dominá-lo. Biro-Biro tentou resistir. O extraterreste apertava. Biro-Biro agarrou no braço dele, cravou a unha, meteu o dente e ouviu, pela primeira vez a voz do alienígena, parecia uma voz de criança, um choro de criança. E era!  Era a sua filha, Carla, que dormia na mesma cama do casal e atirara as suas perninhas no pescoço do nosso interplanetário heroi que despertou do pesadelo assustado.
A criancinha, coitada, não parava de chorar com uma das perninhas ensanguentada arranhada e mordida pelo seu abduzido papai.
 

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