sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A MINHA GERAÇÃO alcançou a Cachoeira como um dos entrepostos comerciais mais importantes da Bahia, quando o meio de transporte no estado era fundamentalmente fluvial. Assim, galera, existiam centenas de saveiros, pequenas embarcações motorizadas (lanchas) e os navios da Companhia de Navegação Bahiana. (Assim mesmo com "h").
Alvinho Monteiro era o proprietário de uma concessão de uma empresa de transporte de pequenas cargas, valores e correspondências para Salvador e vice-versa através dos navios da Bahiana. Ao aposentar-se, seu filho, Carlinho, ficou tocando a empresa. É ele, Carlinho, o nosso personagem de hoje.
"Carrin" como era chamado pela tripulação do navio, protagonizou episódios incríveis dos quais fui testemunha ocular, pelo simples fato de ele ter sido empregador de Dadinho, e, depois, empresário de OS TINCOÃS.
"Carrin" não sabia montar bicicleta. Comprou uma moto onde não morreu por milagre!
Nos finais de semana em que ficava em Salvador o piloto da sua moto era quem? Adivinhou que pensou que era Dadinho que sempre chiava;
_ Tem um desgraçado de um dedo duro que me entrega ao Galo toda a vez que eu pego a máquina dele!  "Galo" era o apelido que Dadinho botou em Carlinho Monteiro.
Eu mesmo fiquei intrigado e resolvi investigar. Era óbvio que qualquer pessoa na cidade poderia ser o autor da delação que não era premiada. Quem?!  Até que, certa feita peguei Monteiro mentalizando o ladrilho do chão onde ele colocava os pneus da moto. Pronto; a charada havia sido solucionada, daí pra frente,Dadinho não teve mais problemas.
Num dia que nem me lembro mais, comprei em Nael o jornal A Tarde por causa de uma inusitada manchete:
"Kombi bate em navio!"
Não tive dúvidas; foi Monteiro. E foi! Se não fosse o navio ancorado no cais ele iria com kombi e tudo pro fundo do mar!
Carlinho namorava uma telefonista de São Félix, irmã de China, funcionário dos Correios. A moça mudou-se com seus pais para o Rio de Janeiro. Naqueles tempos sem os meios de comunicação de hoje, não havia como prosseguir o namoro, só casando.Ele então se deu de paixão por uma viuvá que as más línguas diziam que o marido era gay. Surgiu até uma piada no meio da galera. Foi assim; a pretendida viúva ao ver passar o corretor zoológico chamado Louro Afoxé resolveu fazer uma fezinha:
- Louro venha ´ca! Tive um palpite e quero que você cerque o veado!
E Louro distraído:
- A senhora sonhou com o falecido?!
Naqueles tempos a gente gostava de fazer uma serenata nos finais de semana. Monteiro não esquecia aporta da casa da sua viúva pretendida e cantava a mesma música de Maysa:
- Meu mundo caiu/ E me fez ficar assim/ Você conseguiu/ E agora diz que tem pena de mim..."
E Dadinho que o acompanhava ao violão resmungava:
- O Galo não muda o disco! É ele e o Boneco de Ferro (Wandecock) com Bronze e Cristais:
- Quem seguir a senda florida/ Onde o bem se esquece do mal/ Verá que há contraste na vida/Feitos de bronze e cristal"
Monteiro era meticuloso no preparo para o chamado jogo de azar. eu explico melhor; certa feita eu o vi o dia inteirinho "preparando" um par de baralhos com marca nos versos das cartas tão sutis que apenas ele conseguia enxergar e as identificar. Coisa de louco!rsrsrs.
Vi, depois, ele ser convidado insistentemente pela marujada para jogar um carteado rolando grana e ele fingindo desinteresse:
- Hoje não estou disposto...Sentindo uma dor da cabeça danada, parece que estou de boi (menstruado)...Aliás, eu até trouxe dois baralhos novinhos da Bahia. 
Naqueles tempos o pessoal gostava de chamar a capital do estado, Salvador, pelo nome do estado,Bahia.
Depois de muita insistência ele foi pro navio "brincar" deixando em mim a certeza de que ele estava levando nítida vantagem.
Antes da jogatina desenfreada hoje em dia pelos governos (municipais,estaduais e federal),existia na Bahia o "Bolo Tricolor" impresso com timbre do Bahia onde apareciam os times que iriam jogar naquela semana. O apostador teria de acertar os escores em cheio, caso contrário, ficaria acumulado para outras rodadas do campeonato baiano. Monteiro era o agente para a cidade. Fui testemunha de escutar Dadinho perguntando a ele se havia entregue a listagem, de ele responder que havia esquecido e que iria devolver a grana dos apostadores. Então, galera, certa feita o "Bolo Tricolor" estava acumulado. Na época era como se fosse hoje uns 150 mil reais!
Era uma bela tarde de domingo, tudo corria dentro da normalidade, da Pitanga de Cima acontecia um foguetório danado e logo toda a cidade tomou conhecimento: dona Pequenão, mãe de Gsbi do Trânsito, acertou o bolão acumulado !
Quando desci pra praça encontrei Dadinho em pânico. Foi logo me dizendo:
- Magnata (ele gostava de tratar os amigos assim), estou com o c* no ponto, não sei se o Galo entregou o "Bolo Tricolor".
Não demorou muito e a apreensão, o medo se generalizou por toda a turma que frequentava o Expresso.
Na segunda-feira, quando o navio Maragojipe apontou na Pedra da Baleia,todo mundo estava no aguardo do desfecho fatal. O primeiro passageiro que apareceu na 
proa do navio com aquela careca reluzente era Carlinho Monteiro. O impaciente Dadinho encheu o peito de vento e bradou:
- Monteiro! Você entregou o "Bolo Tricolor"?
E ele, incisivo:
- Entreguei !
Entregou mesmo! Dali pra frente, depois que dona Pequenão recebeu a bolada, como era de se esperar, a arrecadação aumentou assustadoramente. S´não tomei conhecimento de novos "esquecimentos" na entrega.
Bom final de semana,galera.










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