sexta-feira, 3 de outubro de 2014

HOUVE UM  TEMPO em que o cinema era o maior entretenimento dos cachoeiranos, mesmo não sendo, à época, baratos os ingressos. Os frequentadores era chamados habitués e as sessões podiam ser matiné (durante o dia) e soirée (noturno), todas as palavras oriundas do idioma francês.
Como não poderia deixar de ser, São Félix e Cachoeira inauguraram suas salas de cinemas na mesma época, ou seja, no ano de 1916, segundo a revista A Árvore, editado por Ernesto Malheiros A referida revista era quinzenal, a redação era na Rua Rodrigo Brandão nº 9 na cidade da Cachoeira e era impressa na Rua 20 de Dezembro n°  90 em S.Félix, que possuía o Cine Avenida e o Cine São Félix.
Na Cachoeira funcionava na Rua Rui Barbosa, no Palacete Lobo da Cunha o Elegante Cinema, de propriedade do professor Francisco Cardoso Fróis (foto) que foi regente da filarmônica Minerva.
O Elegante Cinema possuía poucas acomodações,era frequentado pela elite capitaneada pela pessoa do Intendente (Prefeito) o advogado Ubaldino de Assis.
Finalmente, graças ao espírito empreendedor do doutor Cândido Elpídio Vacarezza (que também foi Intendente entre 1926/27), mais precisamente no dia 12 de agosto de 1923, com a presença do Intendente Dr.Inocêncio de Almeida Boaventura e outras autoridades, era solenemente inaugurado o Cine Teatro Cachoeirano ou simplesmente CTC como era carinhosamente chamado.


O saudoso memorialista cachoeirano Francisco José de Mello, - Chiquinho Mello -, em o seu livro intitulado História da Cidade da Cachoeira registrou:
"No dia 12 de agosto de 1923, era inaugurado festivamente o Cine Teatro Cachoeirano, considerado, na época, a melhor casa de espetáculos do interior da Bahia, graças ao esforço do operoso capitalista, doutor Cândido Elpídio  Vacarezza".
"Como novidade, o cinema operava com energia própria através de um gerador a Diesel. O filme focalizado na inauguração foi a película da Paramount de título De apache a homem de bem. Era, ainda, a fase do cinema mudo".
"A renda do espetáculo foi de 800$00, que o Dr.Vacarezza doou à Santa Casa de Misericórdia".
Continuemos com a narrativa de Chiquinho:
"O cinema dispunha de 750 cadeiras. Várias companhias teatrais de renome nacional se exibiram no Cine Teatro Cachoeirano, e, durante muitas décadas era o ponto de encontro das famílias cachoeiranas".
E o mais interessante:
"Entretanto, vale ressaltar que a introdução do cinema em Cachoeira ocorreu em 1899, ao apagar das luzes do século XIX, através de um cinema volante de nome Cinema Edson, dos senhores Antônio de Oliveira Brandão e João Capistrano Ribeiro de Souza. Foram realizados vários espetáculos".
"Depois desse cinema volante, o capitão José Gonçalves de Almeida, instalou no sobrado a ele pertencente, na esquina da Rua 13 de Maio, prédio destruído por um incêndio em 17 de junho de 1914, hoje em ruínas".
Ressalte-se, turma, que as películas eram em celulóide, um material muito inflamável.
Depois de dois anos de sua fundação, exatamente em a noite de 12 de junho de 1925, o CTC apresentava em seu palco a Companhia de Teatro Olímpia da Bahia, uma das mais respeitadas do Brasil, na época. Seu proprietário era a empresa Borges da Mata & Ciª e era a primeira vez que se apresentava fora da capital baiana. A peça encenada na Cachoeira chamava-se Juriti, uma opereta original de Viriato Correia com músicas de Chiquinha Gonzaga.
Naqueles tempos de cinema mudo o CTC possuía um piano para acompanhar as películas. Segundo conseguí apurar, as pianistas que se reversavam era as senhorinhas Ambrosina Rebouças Soares (irmã do advogado Luiz Soares) e Benícia, apelidada de "Treme-Treme".
Em a noite de 21 de junho de 1937, o CTC inaugurava o seu equipamento sonoro. O domínio cinematográfico já era hollywoodiano desde 1934. O palco do CTC era requisitado para shows, reuniões políticas (foto)palestras,comemorações como o Dia do Trabalho onde aparecem na foto os alunos do Colégio Baependi (professora Ursulina) e Santo Antônio (professora Dede Onofre).





Em 12 de setembro de 1948, sob a regência do padre Mariz, a Orquestra Sinfônica da Bahia se apresentava para o público cachoeirano.
Eu era menino, usava calças curtas, ainda, quando comecei a ir aos domingos às matinés do CTC. O operador do cinema já não era mais o Terinho (tio de Lêda). O operador era Renério que depois se mudou para Cruz das Almas onde instalou um oficina e uma loja de eletrodomésticos. O ajudante era Mundinho Burilão, o porteiro era seu Antônio e a única bilheteira era dona Vivi que sofria o diabo com a criançada.
Na década de 50 o CTC foi arrendado para Frederico Maron, empresário que já possuía uma rede de cinemas, inclusive na capital do estado, cuja nome fantasia era Cine Glória. O referido cinema foi inaugurado em 14 de maio de 1952 com as bênção do padre da paróquia Fernando de Almeida Carneiro e a presença do prefeito Francisco Andrade de Carvalho,  - Francino -. Se não estou esquecido o primeiro filme a ser exibido foi O Corcunda de Notre Dame.
O operador era o grapiúna Adilson Januário do Nascimento. Oito anos depois, parceiro de Adilson nas locuções dos alto-falantes, fui ajudá-lo (foto) em vista do afastamento de Ivan Rodrigues. Atuei pouco mais de um ano e até sozinho nas férias de Adilson.
O Cine Glória exibia filmes de sucesso antes mesmo de Salvador, atraindo um grande público das cidades circunvizinhas.
Em 1947 o cinema nacional com as chamadas chanchadas conseguia atrair um grande número de fãs de Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade e as músicas de carnaval. O maior sucesso de público e bilheteria, na minha avaliação, foi O Petróleo é Nosso!  
No palco do Cine Glória, em shows beneficentes, ou não, exibiram-se artistas de renome como Vicente Celestino,Orlando Silva, Carlos Galhardo, Ângela Maria, Caubi Peixoto e Dóris Monteiro, invariavelmente acompanhados ao violão por Didi da Bahiana ou Antônio Porto.

Na década de 70, com o falecimento de Maron, o jovem empresário Telmo Luiz Ramos Sampaio (foto) que já vinha administrando o Cine Avenida de São Félix, assumiu a direção do cinema cachoeirano dando-lhe o nome de Cine Real, depois Cine Astro.
Com a advento dos aparelhos domiciliares de televisão, com as novelas, o cinema acabou perdendo a sua força. Telmo, em entrevista concedida a mim para o jornal cachoeirano A Ordem, dizia que para evitar prejuízos, só programava filmes eróticos (vide foto de Arnol Conceição).
Finalmente, após a cheia do rio paraguaçu, Telmo estava ajudando na limpeza da lama quando caiu da marquise do cinema, teve traumatismo craniano e veio a falecer.
Volvidos 20 anos, o cinema cachoeirano foi reformado pelo IPHAN e foi reaberto com o nome original de Cine Teatro Cachoeirano,sendo entregue à administração municipal.(Fotos)









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