sexta-feira, 17 de outubro de 2014

MEMÓRIA

Maestro Irineu Sacramento
Eu devia ter uns cinco anos de idade quando, juntamente com a minha madrinha, Laura Soares, ia ao sobrado onde morava o já idoso e alquebrado regente da filarmônica Lira Ceciliana, Irineu Sacramento,foto), sua esposa, dona Pequena e a única filha do casal chamada Zizete. 
Lembro-me do Coral da igreja do Monte sob a regência da professora Amélia Fróes, dos cantores Agenor Carvalho, José Minho, um cunhado dele cujo nome no momento não lembro, as cantoras Quenoca, Regina, Etifrance Almeida, as irmãs Mimita e Miná, minha madrinha Laura, e os músicos João Cândido (violino), Firmo Costa (trombone), um filho do maestro Bastos chamado Menininho (flauta) e Irineu Sacramento (piston).
O renomado historiador, professor e jornalista Antônio Loureiro de Souza, no seu livro intitulado "Notícia Histórica da Cachoeira", coleção estudos baianos nº 5  da Universidade Federal da Bahia,ano de 1972, às páginas 45 inclui o músico com nascido na Cachoeira:
"Irineu Sacramento, grande músico, que foi regente da centenária Lira Ceciliana, durante mais de cinquenta anos. Era conhecido como piston de Veludo, tal a pureza do som que tirava desse instrumento. Irineu Sacramento foi discípulo do maestro Manoel Tranquilino Bastos (foto), perfilado neste livro"
Sempre ouvi falar lá em casa que o velho Irineu era nascido na ilha de Itaparica, que foi acompanhando uma companhia circense que se apresentava na Cachoeira que conheceu dona Pequena com quem viria a se casar fixando na Terra Heróica a sua residencia.
Lembro-me  de ter assistido a alguns ensaios da Lira sob a regência do sanfelixta Firmo Costa mas, com a presença de Irineu.
Sabino de Campos (foto) autor da letra do Hino da Cachoeira, no seu livro "A Voz dos Tempos", editora Pongetti - 1971, nos conta um episódio interessante ocorrido no dia 25 de junho de 1948. Ele relembra "a tradição gloriosa nos anais da cidade, dos tempos juvenis de músico e orador da querida filarmônica Minerva Cachoeirana" e da sessão solene presidida pelo doutor Aurelino, então presidente da Câmara de Vereadores e da Lira Ceciliana que compareceu ao local "sob a regência do meu amigo e colega Firmo Costa, o melhor trombonista, desde rapazola, que já encontrei na vida, e foi imediatamente executando o Hino da Cachoeira, de minha autoria (letra) e música do maestro cachoeirano Manoel Tranquilino Bastos".
Num certo dia 8 de dezembro, após a missa, Menininho me convidou para tomar um licor na casada família dele. A irmã dele, Durvalina, que chegou a tocar clarineta na Lira, me contou que, na comemoração do centenário (25 de junho de 1922), a Lira, sob a regência de Irineu Sacramento ensaiava todas as noites o Hino da Cachoeira. O velho Bastos mandou-lhe então um recado pois também ouvia em casa os ensaios: "Diga a Irineu que já está bom!" O homem era perfeccionista. 
Voltemos à narrativa de Sabino de Campos:
"A noite, no coreto armado na Praça da Aclamação, Firmo Costa entregou a batuta a seu mestre, Irineu Sacramento, antigo e prestigioso regente da Lira Ceciliana que ia regê-la pela última vez (25/06/1948).
"Irineu, acentuado tipo caboclo, por sua vez, discípulo, no passado, do glorioso maestro Manoel Tranquilino Bastos, recebeu a batuta das mãos de Firmo, e, velhinho como estava, mandou que se distribuísse nas estantes a ópera O Guarani>"
"A cena comoveu-me! Pedí que esperassem. Desci do coreto e chamei entre a multidão de assistentes o popular comerciante Júlio Costa a fim de procurarmos fotógrafo que batesse um flash da despedida de Irineu".
"Não encontramos o fotógrafo providencial. Que pena! A ópera foi magistralmente executada e perdemos uma fotografia histórica".
Oito anos após tão rica narrativa, no dia 2 de outubro de 1952, aos 79 anos de idade, Irineu Sacramento mudou-se com a família para Salvador, sendo alvo das mais justas homenagens por parte da sociedade cachoeirana, diretoria,sócios e aficionados da  filarmônica que ele regeu.
Dois anos depois, no dia 18 de outubro, aos 81 anos de idade, o"Piston de Veludo" veio a falecer na capital do estado.
O advogado e professor Nelson Alves da Silva (foto), (presidente do Rotary Club 1944-45 e orador oficial do 25 de junho nos anos de 1937 e 1942),representando a Cachoeira na solenidade fúnebre, pronunciou o seguinte discurso que nós transcrevemos em nosso livro "Oradores e Poetasz Cachoeiranos", editora Odeam - 1982:
"Morreu Irineu Sacramento!
A notícia chegou e passou como chegam e passam as coisas de rotina...Mas,um extraordinário homem, esse que acaba de falecer! E como viveu, morreu: glorioso na pobreza,pobre na glória.
Jamais os sucessos, maiores que fossem, macularam a sua humildade sem restela sequer de vaidade.
Jamais a pobreza, mais extrema que fosse, esmaeceu o vivo colorido, o colorido vivo e inimitável das fulgurações do seu talento.
Irineu viveu toda a sua longa vida entre ser gigante e ser pigmeu; gigante para a Cachoeira, pigmeu para si próprio.. Só de uma coisa ele sabia; fugir e fugia às pressas, da glória.
Corria sempre da fama e ia esconder-se na humildade. Deixava sempre que outros colhessem os frutos que ele conseguia na árvore da sua arte. E que frutos!
Jamais homem algum, em minha geração, se tornou tão grande no serviço e no amor a m inha terra. Os medalhões que fulgem por aí, querendo atrair méritos que não se enxergam, são simples pirilampos face ao luzeiro, aos méritos verdadeiros de Irineu. Fosse cada cachoeirano, cada qual no seu setor, eficiente como foi Irineu no âmbito da Divina Arte, à frente da sua Lira, e estaríamos numa terra transbordante de talentos,  desperdiçar abnegações, desprendimentos, nobreza e renúncias.
Mas, a coragem de viver como viveu esse homem e de morrer como ele morreu, é qualquer coisa esplêndida, de raro,de edificante.
Perdoem-me os que se julgam ou que pensam que são o que gostariam de ser, se neste instante, confesso-me devedor de religiosa obrigação para com a terra que me serviu de berço: curvar rentemente pelo espírito ante o túmulo de Irineu, certo de curvar-me ante a lembrança daquele que jamais foi ultrapassado por qualquer que fosse no espargir de glórias e na distribuir de amor por este rincão querido, certo de homenagear, palidamente embora, a recordação de quem viveu uma vida inteira pela voz da Ceciliana, a soletrar em harmonia, o nome bendito da minha terra".
NOTA; fui informado que o autor do discurso que transcrevemos acima, o advogado e professor cachoeirano  Nelson Alves da Silva faleceu recentemente aos 91 anos de idade. Será que a Cachoeira se fez representar?













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