sexta-feira, 3 de outubro de 2014

MUITOS FORAM OS PROFISSIONAIS LIBERAIS que, tragados pelo progresso desapareceram no tempo. Ninguém mais fala em funileiro, sapateiro, latoeiro, costureiro, ferreiro e outros com a terminação eiro
Os salões, ou melhor, as tendas de barbeiro eram locais frequentados apenas por homens. As senhorinhas e senhoras da sociedade não passavam nem nos passeios porque lá dentro se discutia de tudo: política, futebol,e,sobretudo as fofocas locais entre gargalhadas e galhofas.
O meu pai, Jessé, era funcionário dos Correios e Telégrafo mas, era possuidor de um tino comercial invejável; levava peixes para Feira de Santana e de lá trazia grande número de mercadorias para a venda que ele abriu no Curiachito na parte térrea da casa que presentemente pertence ao dr.Pina. Depois, quando Augusto Doca (pai do saudoso Waldo Azevedo), mudou o seu domicílio para o Rio de Janeiro,  meu pai fechou negócio com ele e comprou a tenda de barbeiro. Na sua tenda meu pai não deixava ir nenhum dos filhos porque na parte dos fundos se jogavam gamão,dama, dominó etc. Eu e os meus irmãos cortávamos cabelo na tenda de Ananias Aragão e seus irmãos.
Na barbearia do meu pai, - lembro-me bem -, trabalhavam três profissionais: Benedito, Hemetério  e um outro cujo nome eu nunca soube mas, era conhecido pelo apelido de Muriçoca !
Naqueles tempos, alguns figurões da sociedade também não frequentavam as barbearias, os artífices é que iam até eles em suas residências. Então, galera, muitos operários das fábricas de charutos, empregados da Navegação Bahiana, Via Férrea Leste Brasileiro e da classe caixeiral também gostavam de usar de tal privilégio embora pagando um pouco mais, era sinal de status. 
Hemetério e Muriçoca atendiam essa freguesia da Ponta da Calçada ao Tororó.
Hemetério, o nosso personagem central de hoje, andava pelas ruas da cidade com uma pastinha preta de couro. Lá dentro ele levava as ferramentas de trabalho; tesoura, navalha, pente, pincel, pó para fazer barba e a famosa Água Velva batizada. 
Ah! já ía esquecendo: e um exemplar da Bíblia, Hemetério era novo convertido. E como tal, ele não perdia chance de evangelizar, sabia de cor algumas passagens do Antigo e do Novo Testamento, chegando a recitar todinho o Salmo 119, o mais extenso da Bíblia.
Gostava  de dizer que,  "bem-aventurados os retos em seus caminhos, que andam na Lei do Senhor!"
Certo dia lá vinha Hemetério pela Rua 7 de Setembro (região do meretrício), passou pela porta da casa natal de Teixeira de Freitas,(onde funcionava o Fórum), seguiu pelo passeio do bar de Nadinho Viramundo. Andava em zigue-zague mas conseguiu chegar até o beco do cinema quando de repente desabou e ficou praticamente imóvel. O pessoal que estava no jardim em frente ao Hotel Colombo saiu correndo não pra socorrer mas por curiosidade, acontecendo o mesmo com o pessoal que estava na porta do cinema e do bar Night and Day.
- Foi um ataque cardíaco - arriscou alguém -. 
- Não foi epilepsia não, rapaziada? - interrogou outro - .
- Não, não foi, não, porque ele não está babando ! - disse um outro observador - .
O advogado Raimundo Rodrigues dos Santos, Raimilan, gozador como ele só, atacou o latinório:
- Revertere ad locum tuum ! 
Como a galera ficou  "boiando" ele próprio traduziu:
- És pó e ao pó retornarás!
Algumas senhoras moradoras do local e adjacências se apressaram em prestar o humanitário socorro. Chegaram a esposa de Jaime do rádio que lembrou que "seu Hemetério foi pra Glória depois de aceitar Jesus", Edinha Jambeiro balançou a cabeça em sinal de consentimento, dona Leli, esposa do fotógrafo Manolo respondia "Aleluia" enquanto anunciava que iria até em casa para telefonar para o SANDU que funcionava em uma casa no correr do então Banco da Bahia na praça Dr.Milton.
E a ambulância não demorou em chegar com a sirene ligada fazendo um esporro danado. Além do enfermeiro Renatinho, vinha, também, o médico doutor Braga. Aliás eram os dois excelentes jogadores de futebol, chegaram a jogar no Cruzeiro de Morenito no campeonato sanfelixta.
O beco do cinema esta cheio de curiosos. Sob a advertência de "avasta,gente!" o doutor Braga ajoelhou-se a fim de atender o paciente que estava praticamente imóvel. O doutor Braga chamou: "Seu Hemetério! Seu Hemetério!"  O homem continuava imóvel, com o rosto viurado para a parede. O enfermeiro, Renatinho, cuidadosamente virou o rosto dele, o homem não estava morto, não havia sido arrebatado. Então, de repente, ele abriu os olhos como se estivessem grudados de remela e disse com a boca cheia de cuspe:
- Tô bebo pra porra!
A galera foi ao delírio enquanto dois gaiatos não perderam a chance:
- Alelúia !
- Ressuscitou !  Ressuscitou !


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