sexta-feira, 28 de novembro de 2014

É PROVÁVEL que muita gente pensa que é bobagem viver nostálgico pensando que o seu passado foi melhor do que o presente. Com certeza a Cachoeira da minha geração era, a gente podia ir a qualquer lugar da cidade. Hoje quem é que se atreve a tomar banho na Pedra Rachada, passar no Virador, na Mangabeira, subir a Ladeira da Cadeia?
Como contador de "causos" vou dando o meu recado, fazendo memória.preservando os costume,os personagens,os ditados de uma época, além de fazer rir.
Desde adolescente fui um cara enxerido, achava que podia mexer em todas as artes. Fazia versos de "pé quebrado", ou seja sem a devida métrica, fiz versos de cordel sobretudo para "Testamento de Judas", pintei quadros, fiz charges e, com alguma teoria musical, tocava gaita (realejo), depois escaleto, fazia parte do coral da Matriz, locutor de alto-falantes, depois na Radiovox de Muritiba, e, finalmente,acabei cantor fazendo a terceira voz de Os Tincoãs, um trio vocal bem à moda antiga cantando músicas românticas que fazia soluçar corações apaixonados.
Certo dia estávamos ensaiando no Hotel Colombo, que era de propriedade de seu Aurélio, pai de Heraldo companheiro do trio, quando o engenheiro chamado Raimundo, o cidadão que montou a TV Itapoan nos convidou a fim de participar do concurso chamado "Escada para o Sucesso"
Televisão naquela época era a novidade que encantava todo mundo e na Cachoeira não era diferente. Então, em benefício da festa de Nossa Senhora da Conceição do Monte fomos convidados a colaborar com um show.
Em a noite daquele dia, não havia uma só cadeira vazia no Cine Glória. Aliás, muitas foram as cadeiras extras que foram emprestadas do bar de Pedro, e casas vizinhas.
Eu acho que foi o locutor Gilberto Braga, Betinho que, após o término do filme anunciou:
 - E para o aplauso de vocês...Os Tincoãs!
A recepção foi calorosa. Por mais que eu procurasse visualizar  um rosto conhecido a adrenalina na permitia. Aproximei-me do microfone. Era minha tarefa  apresentar os companheiros a mim próprio e o que íamos cantar. Rapaz...levei um choque e o microfone chegou a bater com força na minha boca. Sem querer, claro,soltei uma "porrrra!"
Quando eu me aproximava, mesmo sem dar um "alô" o microfone piiiiiiiiiii !  Estava tentando encontrar uma saída quando o sonoplasta que se encontrava por trás das cortinas resolveu em boa hora dar as caras. O público reagiu com assobios, vaias e uma sonora e demorada gargalhada. O sonoplasta era o proprietário da sonorização, o saudoso Elias Cardoso de Jesus apelidado de Paco-Paco.
Galera, quando ele se aproximou do microfone foi aquele úúúúúú!  Percebi que Dadinho estava agoniado, dedilhando as cordas do seu violão.  Falei pra ele: "Magnata, fique suave, o show já começou, faz parte!"
Elias pegou o microfone e o público, agiu como se tivesse alguém regendo. Podia-se ouvir alguns "pissius" de advertência pedindo silêncio. E o silêncio absoluto se fez. Então Elias falou:
- Não sô curpado do arto-falante dá bronca... Foi sabotais de Mundin !
Mundinho trabalhava no cinema e era desafeto dele, Elias.
Aí, meninos e meninas, aconteceu uma coisa impressionante: uns espectadores da parte de baixo diziam "Paco!" outros no mezanino ou na parte de cima "Paco!" Paco ! Paco! Paco! Paco! Nunca via nada tão bem ensaiado.
Quando ele sa afastou atendendo a meu pedido, dei alguns passos firmes e decididos e pedi um pouco de silêncio. Fui atendido. Falei que se houvesse colaboração seria possível "dar continuidade ao show"!  A excelente acústica do cinema o permitiu e aconteceu naquela noite o que hoje, para mim, foi um show inesquecível. e ao recordá-lo cheguei a encher os olhos de lágrimas. Desculpa, galera pela emoção. Um bom final de semana para todos!

 

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